O livrinho de perguntas e respostas de Vanderlei Lima com o título "UM OPORTUNO ALERTA SOBRE “APARIÇÕES” E REVELAÇÕES PARTICULARES" parece ser muito interessante. O encontrei na internet numa pesquisa simples. Quem quiser adquirir o livro clique aqui.
Pesquisando mais a fundo, encontrei o texto deste livrinho senão todo, pelo menos uma parte, no blog Refletindo 7. Devido a isso reproduzo aqui o texto completo que me parece ser muito interessante haja vista o livro ser apresentado pelas palavras de um Bispo. Segue abaixo o texto:
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APRESENTAÇÃO
Tenho o grande prazer de apresentar a todos o presente opúsculo intitulado “Um oportuno alerta sobre ‘aparições’ e revelações particulares”, do caríssimo amigo Vanderlei de Lima, escritor e filósofo pela PUC de Campinas, com extensão universitária em Parapsicologia pelo CLAP/FEG.
Trata-se de um ensaio sobre um assunto que geralmente levanta muitas vezes dúvidas as quais, não resolvidas, podem causar perplexidades e perturbar a consciência de muita gente de bem. Baseado no Magistério da Igreja, critério de verdade para todo católico, o autor esclarece didaticamente o tema, em forma de questionário, distinguindo com precisão a Revelação (pública) e as revelações particulares, a Tradição e as tradições, explicando o grau de adesão que a Igreja exige ou não exige de nós.
A confusão sobre o assunto, em meios católicos, pode levar os inimigos da Igreja a ridicularizarem a nossa Fé. A Fé, na explicação de Santo Tomás de Aquino, é uma submissão racional da nossa inteligência à Palavra de Deus, a nós transmitida pela Igreja. Submissão ou adesão racional e não irracional ou ridícula. Fé não é superstição. Crer, no sentido católico, não é aderir a tudo o que aparece ou que se parece com o bem.
Com minha cordial bênção ao autor e a todos os leitores.
Dom Fernando Arêas Rifan
Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney
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INTRODUÇÃO
Prezado(a) irmão(ã), você tem em mãos, em forma de perguntas e respostas, um estudo sucinto e objetivo a respeito da posição da Igreja Católica, Apostólica, Romana sobre as chamadas “aparições" [1] de Nosso Senhor, da Virgem Maria, dos Santos, das Santas e dos Anjos ao longo da história.
Algumas dessas “aparições” vêm acompanhadas de revelações, chamadas de particulares para se distinguir da Revelação Pública oficial da Igreja – à qual devemos, obrigatoriamente, fé católica – que se encerrou com a geração apostólica, ou seja, com a morte do último Apóstolo, São João Evangelista, por volta do ano 100.
Pois bem, a fonte da fé católica é a Palavra de Deus a nós transmitida por dois canais: a Sagrada Tradição ou Tradição Oral, recebida diretamente pelos Apóstolos de Nosso Senhor, e a Tradição Escrita ou a Bíblia, que teve origem na Tradição Oral na qual foi gestada e pela qual é acompanhada.
Ambas, porém, são autenticamente interpretadas pelo Magistério da Igreja que não está acima, mas a serviço da Tradição e da Escritura. Só esse Magistério, assistido pelo Divino Espírito Santo desde o início da Igreja até o fim dos tempos (cf. Mt 28,20), pode, de modo correto, explanar tudo aquilo que se refere à fé e à moral da Igreja.
Portanto, é esse mesmo Magistério (não há nem pode haver outro) quem julga as chamadas “aparições” ou revelações particulares e, embora nunca possa impor à fé dos fiéis o conteúdo delas, diz – sem entrar no mérito da “aparição” ou da mensagem revelada em seus detalhes – se elas ferem ou não a fé católica.
a) Caso firam, a Igreja as desabona ou diz “Não”; b) caso não firam, mas ainda restem dúvidas, deixa correr para, a seu tempo, se for o caso, dizer algo; c) caso não firam a fé e preencham os critérios de avaliação propostos pelas autoridades eclesiásticas, com destaque para os requisitos propostos pelo Papa Bento XIV (1740-1758), a Igreja não só deixa correr os fatos, como também pode permitir a construção de uma igreja no local e até estabelecer uma festa litúrgica ao (à) santo(a) que ali se diz ter aparecido.
Note-se, porém, que nada do que aparece no item c obriga a fé do católico. Este permanece livre para aceitar ou não o que ali houve (“aparição”) ou foi dito (revelação) sem ter receio algum de cometer pecado, ainda que, evidentemente, possa, após a análise da Igreja e a declaração de um ou mais milagres, ficar seguro de que nenhuma fraude ou erro teológico ocorreu na referida “aparição” ou revelação.
Em suma, quem venera um (a) santo(a) ou um anjo, cuja devoção nasceu de uma “aparição” ou revelação particular está, em última análise, cultuando a Deus – sempre Ele é o centro de tudo – na pessoa daquele(a) santo(a). Nada mais! Daí não haver erro algum nesse culto piedoso. Assim, quem cultua a Virgem Maria, sob o título de Nossa Senhora de Fátima, nada mais faz do que venerar a mesma Mãe de Deus, Maria Santíssima, que é uma só, independentemente do título com que seja apresentada.
O mesmo se dá com quem gosta de ler livros nascidos de revelações particulares. Se a Igreja disse não haver erros na obra ou mesmo afirmou que ela nada contém de suspeito ou nocivo à fé católica, a pessoa pode lê-la como algo que a ajude chegar à edificação espiritual e a um consequente progresso ou aprofundamento na vida cristã por meio de estudos da fé, a começar pelo Catecismo da Igreja Católica. Progresso que já pode ser contado como fruto bom daquele fato que se julga ser uma intervenção do além neste mundo.
Atente, contudo, o (a) prezado(a) leitor(a) para um dado importante: toda “aparição” que pretenda transmitir uma mensagem de Deus aos homens deve estar em plena sintonia com aquilo que a Igreja ensina. Se começar a criticar a doutrina católica, os ministros da Igreja (Papa, Bispos, Sacerdotes, Diáconos) ou Religiosos(as), especialmente convidando os fiéis a se afastarem da paróquia e da prática dos Sacramentos, é altamente suspeita de ser fruto de ação diabólica ou de perturbação psíquica em quem transmite a mensagem que diz receber do além. Fique atentíssimo!
Lembramos aqui das palavras do estudioso francês Jean Guitton ao declarar que, em Lourdes, na França, o que houve foi uma grande confirmação das verdades de fé da Igreja Católica, Apostólica, Romana, ao escrever: “Admitir aquilo que a visão chama de Imaculada Conceição, significa admitir a maternidade divina, e, portanto, a divindade de Cristo e a Trindade. Significa admitir que a evolução religiosa, tal como é consumada na Tradição, presidida pelo Bispo de Roma, é legítima... Admitir a autenticidade de uma definição que tenha o Papa como Autor... A infalibilidade pontifícia” (La Vierge Maria, p. 125 apud L. Lochet. Teologia das aparições marianas. São Paulo: Paulinas, 1966, p. 75).
Caminhemos, pois, sempre com a Igreja, Mãe que nos gerou para a vida divina pelo Batismo, e nunca troquemos sua doutrina infalível, porta aberta para a nossa boa vivência neste mundo e a salvação eterna, por novidades passageiras. Não sejamos frios racionalistas que de tudo duvidam, porém não caiamos no oposto, ou seja, em uma credulidade infantil, julgando digna de crédito qualquer revelação que este ou aquele fiel (clérigo, religioso ou leigo(a)) diz receber. Tais revelações, mesmo se em nada contrariam a fé da Igreja, não são essenciais. Funcionam apenas como lembretes daquilo que a fé já nos ensina oficialmente em seu rico depósito contido na Tradição e na Escritura e explicitado pelo Magistério eclesiástico, de forma ordinária (os Bispos que ensinam, no dia a dia, em comunhão com o Papa) ou extraordinária (um Concílio Ecumênico ou uma definição ex cathedra dada pelo Papa, na condição de doutor da fé).
O verdadeiro devoto da Vigem Maria procura agradar-Lhe buscando, apesar de suas limitações, ser para Ela outro Jesus e d’Ela ouvir, a cada dia, a grande mensagem mariana de todos os tempos: “Fazei tudo o que ele [Jesus – nota nossa] vos disser” (Jo 2,5).
O autor
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1. Qual é a fonte da Doutrina Católica?
A fonte da Doutrina Católica é a Palavra de Deus. Ela é, evidentemente, uma só, porém nos é transmitida por dois canais: a Sagrada Escritura e a Sagrada Tradição, que se entrelaçam e, portanto, nunca se contrariam. Ambas são interpretadas pelo Magistério da Igreja, única instância segura para fazê-lo (cf. questão 6).
2. Que se entende por Palavra Escrita?
Por Palavra escrita se entende a Sagrada Escritura. Ela é a Palavra de Deus (não qualquer outra palavra) redigida sob a moção do Espírito Santo.
3. Que se entende por Sagrada Tradição ou Tradição Oral?
A Sagrada Tradição é o meio que “transmite integralmente aos sucessores dos apóstolos a Palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos apóstolos para que, sob a luz do Espírito de verdade, eles, por sua pregação, fielmente a conservem, exponham e difundam” (Dei Verbum, 9).
4. Qual é a diferença entre a Sagrada Tradição (T) mencionada na questão anterior e as tradições (t) da Igreja?
Entendemos por Tradição aquela Divino-apostólica, ou seja, a que contém os ensinamentos e exemplos recebidos do Senhor Jesus e do Divino Espírito Santo e que foi transmitida oralmente[2] aos Apóstolos (no início do Cristianismo, ainda não existia o Novo Testamento). Esse depósito da fé nunca pode ser alterado.
Por tradições da Igreja compreendemos os costumes devocionais, teológicos, litúrgicos, disciplinares surgidos ao longo da história. Elas podem ajudar a adaptar a Tradição às diversas realidades sempre, no entanto, sob o olhar atento do Magistério da Igreja. Ao contrário da Tradição Divino-apostólica, que é intocável, essas tradições podem ser modificadas ou mesmo abandonadas com o correr dos anos, caso as autoridades eclesiásticas assim julguem melhor.
5. Dê-nos ao menos um exemplo de cada caso.
Um ponto relevante da Tradição é a composição da Bíblia com 46 livros no Antigo Testamento e 27 no Novo Testamento; ao todo 73. Garante-nos o Catecismo da Igreja e o Concílio Vaticano II que: “Foi a Tradição apostólica que fez a Igreja discernir que escritos deviam ser enumerados na lista dos Livros Sagrados” (Catecismo da Igreja Católica n. 120; Dei Verbum, 8).
Já o Rosário foi por longos anos composto de três terços. Dividia-se entre os mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos. O Papa São João Paulo II houve por bem acrescentar a esses os mistérios luminosos, que tratam da vida pública do Senhor Jesus (do Batismo no Jordão à Instituição da Eucaristia). Tal acréscimo é sábio e piedoso e em nada compromete a fé da Igreja, pois diz respeito a uma tradição piedosa devocional.
6. Quem pode e deve interpretar autenticamente a Palavra de Deus?
Quem pode e deve interpretar a Palavra de Deus é a Igreja Católica, Apostólica, Romana por meio do seu Magistério.
Assim ensina o Catecismo: “O ofício de interpretar autenticamente a Palavra de Deus escrita ou transmitida foi confiado unicamente ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade se exerce em nome de Jesus Cristo, isto é, foi confiado aos bispos em comunhão com o sucessor de Pedro, o bispo de Roma”.
“Todavia, tal Magistério não está acima da Palavra de Deus, mas a serviço dela, não ensinando senão o que foi transmitido, no sentido de que, por mandato divino, com a assistência do Espírito Santo, piamente ausculta aquela palavra, santamente a guarda e fielmente a expõe, e deste único depósito de fé tira o que nos propõe para ser crido como divinamente revelado (Dei Verbum, 10).”
“Os fiéis, lembrando-se da palavra de Cristo a seus apóstolos: ‘Quem vos ouve a mim ouve’ (Lc 10,16; cf.Lumen Gentium, 20), recebem com docilidade os ensinamentos e as diretrizes que seus Pastores lhes dão sob diferentes formas.”
7. De que modo se exerce o Magistério da Igreja?
O Magistério da Igreja se exerce de dois modos: o ordinário (= ensinamento cotidiano dos Bispos espalhados pelo mundo unidos ao Bispo de Roma, o Papa) e o extraordinário (exercido bem mais raramente pelos Concílios Ecumênicos ou Gerais sob a supervisão do Papa ou pelo próprio Santo Padre quando, quando na função de confirmar seus irmãos na fé (cf. Lc 22,31s), proclama um dogma ou uma definição ex cathedra (definitiva) em temas de fé e moral).
8. E os demais pronunciamentos religiosos do Papa que acatamento merecem?
Os demais pronunciamentos do Romano Pontífice merecem religiosa submissão da vontade e da inteligência, mesmo quando ele não se pronuncia ex cathedra, seja por meio de encíclicas, exortações apostólicas, bulas, motu proprio [termo latino que quer dizer “de própria iniciativa”] (cf. Lumen Gentium, 25, do Concílio Vaticano II).
9. A Revelação pública oficial da Igreja já terminou ou não? Quando?
Sim, terminou com o fim da geração dos Apóstolos, ou seja, com a morte do último deles, São João Evangelista, por volta do ano 100.
10. Então, como a Igreja cria ou inventa “novos” dogmas?
A Igreja ao proclamar um dogma não está, em absoluto, criando ou inventando nada de novo. Ela apenas propõe aos fiéis, de modo claro e definitivo, sob a inspiração do Divino Espírito Santo, uma verdade que sempre e por toda parte foi professada, mas ainda não tinha sido devidamente explicitada e validada pelo Magistério eclesiástico. A proclamação do dogma é esse “selo de validade” conferido pela autoridade da Igreja a determinada crença vigente entre os fiéis. Prova de que a Igreja não “cria” dogmas é o seguinte: para que um dogma seja proclamado, são necessárias duas principais condições: 1) Que haja fundamento bíblico para a crença em questão; 2)Que tal crença seja difundida em âmbito geral e universal, ou seja, que a maioria dos católicos e comunidades no mundo todo acredite e professe tal crença como sendo uma verdade de fé. Portanto, a proclamação do dogma vem sempre confirmar algo que já existe, nunca impõe algo novo.
Considera-se dogma tudo aquilo que é proclamado pelo Magistério da Igreja como verdade de fé revelada por Deus e, por conseguinte, aceita pelos cristãos.
11. Que dizer das revelações particulares e “aparições”? Como se dão?
O Catecismo da Igreja Católica diz que, no decorrer dos tempos, houve “revelações particulares” ou “privadas” e algumas delas têm o pronunciamento favorável da Igreja. “Elas não pertencem, contudo, ao depósito da fé” (n. 67).
Portanto, não podem ser vistas pelos fiéis como um complemento ou um retoque da Revelação pública oficial da Igreja, encerrada com a morte do último Apóstolo (São João Evangelista por volta do ano 100), pois tudo o que precisamos saber e viver em nossa vida de fé já está nos ensinamentos da Igreja. A função das revelações particulares não é, portanto, ensinar algo novo, mas relembrar, chamar a atenção, reavivar nos fiéis a fé de sempre da mesma Igreja.
Quanto às visões, podem se podem dar-se de três modos: a) as sensitivas: apresentam imagens corpóreas, como a nuvem que Moisés e os israelitas viram (Êx 32) ou a voz do céu ouvida por Abraão (Gn 22); b) asimaginativas: apresentam imagens da fantasia, como no sonho de Jacó. Ele viu uma escada que subia ao céu (Gn 18) ou como Pedro que, em êxtase[3], viu um lençol cheio de animais impuros (At 10); c) intelectuais: são as percepções sem imagens e sem palavras, que se produzem por uma intuição da própria mente. Foi o que se deu com os profetas (cf. São Tomás de Aquino. Suma Teológica II. II. 174, I ad 3-; e 175 3, ad 4- apud Pe. Dr. Afonso Rodrigues, SJ.Psicologia da graça. São Paulo: Loyola, 1995, p. 110).
12. Se é assim, para que podem servir essas revelações particulares ou privadas?
As revelações particulares ou privadas podem, como foi dito acima, servir para ajudar os fiéis a melhor relembrarem (e viverem) alguma verdade de fé que está caindo no esquecimento dos homens em determinado contexto histórico. Relembram o que já temos, mas, como o próprio verbo (relembrar = lembrar de novo) indica, não trazem nada de original, pois tudo o que cada um precisa para bem viver a sua fé já está na Revelação Pública Oficial da Igreja.
13. Quer dizer que eu não faço pecado se não der crédito às revelações particulares ou privadas?
Não faz nenhum pecado quem deixa de acreditar em revelações particulares, embora, depois que a Igreja declarou nada haver de errôneo nelas ou mesmo instituiu uma festa litúrgica ou erigiu uma igreja, via de regra, transformada em santuário, no local das aparições, não seria prudente manter suspeitas. Mesmo assim, tal revelação jamais se impõe à fé do católico. Não nos esqueçamos de que, como já foi dito, o conteúdo dessas revelações – quando aprovadas pela Igreja – está em consonância com aquilo que a Fé sempre ensinou. Daí ser lícito crer nele com fé humana e até propagá-lo.
Pode-se, naturalmente, viver a fé e cultuar Nosso Senhor, a Virgem Maria ou o (a) Santo(a) ou o Anjo que dizem ter aparecido aqui ou ali sem, porém, fazer caso do fenômeno particular daquela “aparição” ou revelação, nem dos termos específicos da mensagem que foi transmitida. Afinal como veremos na questão 17, a Igreja não entra no cerne da mensagem ou do fenômeno ocorrido em si, apenas declara isento de erros o conteúdo da mensagem. Mas, justamente por estar isento de erros, tal conteúdo não pode ser simplesmente rejeitado como algo indigno. Deve-se, apenas, dizer que não necessitamos daquela revelação para acatar e viver o que a Igreja ensina, e que já conhecemos por outras fontes oficiais da mesma Igreja.
Exemplifica Dom Estêvão Bettencourt, OSB, dizendo: “A Igreja não pode impor à crença dos fiéis nem o presumido fato de uma aparição, nem o teor da respectiva mensagem, de modo que, se alguém não quer crer nas aparições de Lourdes, não está incidindo em heresia” (Teologia fundamental. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2013, p. 145).
14. Se alguém for agraciado com uma “aparição” ou revelação particular, deve dar fácil crédito?
Não. D. Estêvão Bettencourt, OSB, é quem escreve que “os mestres recomendam prudência diante de pretensas revelações particulares. São João da Cruz († 1590) é severo, afirmando que é necessário não aceitar as revelações particulares quando se manifestem; é preciso mesmo resistir-lhes como se fossem tentações perigosas, pois podem excitar o amor próprio e a vaidade da pessoa ‘agraciada’ (Subida do Monte Carmelo II 27,6). Se forem autênticas revelações, prevalecerão sobre a resistência que se lhes opõe; se forem ilusões, a resistência não causará prejuízo ao cristão resistente” (Teologia fundamental. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2013, p. 145).
Mais: “já no séc. XVI S. Teresa de Ávila dizia conhecer ‘certas pessoas – e não três ou quatro, mas muitas – dotadas de imaginação tão impressionável, de espírito tão vivaz... que tudo que elas pensam, elas julgam que estão vendo. Se elas tivessem jamais [alguma vez – nota nossa] usufruído de alguma autêntica visão, elas compreenderiam, sem hesitação alguma, como estão iludidas’ (Castelo Interior, 6ª Morada, c 9 apud E. Bettencourt,Pergunte e Responderemos n. 170, fevereiro de 1974, p. 76).
Importa notar ainda que as “aparições” ou visões dignas de fé humana são raras, espontâneas e não provocadas pelos seres humanos (cf. Margarida Hulshof. Conversando sobre a fé. Aparecida: Santuário, 2004, p. 185. vol 1).
15. Por que a Igreja demora a se pronunciar sobre uma apregoada revelação ou “aparição”? Quais são suas respostas clássicas?
A Igreja demora a se pronunciar para que possa ter, após minucioso exame que deve incluir a consulta a especialistas de diversas áreas do saber (médicos, psicólogos, parapsicólogos, teólogos etc.), a certeza de que não se trata de fraude ou distúrbio psicológico do vidente, e que nada de errôneo ou contrário à fé ocorreu nas ditas aparições do Senhor Jesus, da Virgem Maria, dos(as) Santos(as) ou dos Anjos.
Feita a investigação, a Igreja toma uma das três atitudes abaixo:
a) Deixa correr os fatos sem se pronunciar. Isso, de certo modo, significa uma “aprovação”, ou seja, o reconhecimento de que nada do que ali ocorre fere a fé.
b) Favorece o culto ao Senhor Jesus, à Virgem Maria, ao (à) Santo(a) ou ao Anjo no local das aparições, com a permissão da construção de uma igreja e a inclusão da festa do(a) Santo(a) no calendário litúrgico.
Note-se, no entanto – como será dito na questão 17 – que mesmo com esse favorecimento, a Igreja nunca dirá oficialmente nada sobre o fenômeno em si mesmo.
c) Diz “Não” se descobrir, sempre depois de acurados exames, que nas supostas aparições há fraude ou algo que fere a fé ou a moral da Igreja.
16. Quando não contraria a “aparição” e até permite o culto, o que, na verdade, a Igreja aprovou?
A Igreja aprovou o culto piedoso ao Senhor Jesus, a Nossa Senhora, aos (às) Santos(as) e aos Anjos que o (a) vidente (ou os videntes) diz ter-lhe aparecido. Nada mais.
Daí ser oportuno citar a Encíclica (circular) Pascendi Domini Gregis, de 02/05/1877, que diz o seguinte sobre La Salette e Lourdes: “Deste modo, as aparições ou revelações [em si mesmas – nota nossa] não foram nem aprovadas nem condenadas pela Sé Apostólica, mas somente permitidas como piamente críveis com fé só humanaconforme a tradição, que trazem confirmada por idôneos testemunhos e instrumentos” (Luiz José de Mesquita Galvão. Por que crer? A fé e a revelação. São Paulo: Ave Maria, 1990, p. 119).
Nem mesmo a instituição de uma festa litúrgica (por exemplo, 11 de fevereiro: Nossa Senhora de Lourdes; 13 de maio: Nossa Senhora de Fátima; 12 de dezembro: Nossa Senhora de Guadalupe etc.) pretende discutir ou propor o que realmente ali aconteceu.
17. Que querem dizer as expressões “fé só humana” e “aparições e revelações em si” no caso acima?
A expressão fé só humana é o assentimento ou a crença que se dá à revelação feita por uma pessoa digna de crédito (eu acredito porque foi X que falou, se fosse Y não acreditaria). Distingue-se da fé divina que está no plano sobrenatural, é um dom de Deus, e merece assentimento porque é Ele mesmo quem nos fala por meio de sua Palavra transmitida pela Igreja.
Quanto às “aparições” e revelações particulares em si entende-se do seguinte modo: a Igreja, quando nada vê de errado nas mensagens, permite o culto ou até mesmo uma festa litúrgica própria no seu calendário. De modo que cada fiel pode – embora nunca seja obrigado em consciência – aceitá-las com fé humana. No entanto, jamais a Igreja entra, oficialmente, no âmbito do fenômeno em si (Houve mesmo a “aparição”? Como foi em seus pormenores? A mensagem transmitida é plenamente da Virgem Maria, do(a) santo(a), do anjo, ou tem muito do que o vidente já possuía em seu inconsciente?).
18. Poderia comprovar por documentos o que foi afirmado acima?
Sim. O Papa Bento XIV (1740-1758), grande autoridade intelectual no assunto, ensina que “a aprovação (de aparições) não é mais do que a permissão de as publicar, para instrução e utilidade dos fiéis, depois de maduro exame. Pois essas revelações assim aprovadas, ainda que não se lhes dê nem possa dar um assentimento de fé católica, devem contudo ser recebidas com fé humana segundo as normas da prudência, que fazem de tais revelações objeto provável e piedosamente aceitável” (De Servorum Dei Beatificatione II, c. 32 11).
Também o Concílio provincial de Malines, na Bélgica, em 1938, confirmou que “o julgamento da Igreja não apresenta de modo nenhum essas coisas como obrigatórias para a fé do povo. Declara apenas que elas não estão em ponto algum em oposição à fé e aos bons costumes, e que nelas encontramos bons indícios que permitem uma adesão piedosa e prudente de fé humana” (Acta et Decreta Concili Provincialis Mechilinensis Quinti, 1938, p. 6).
19. E se a suposta “aparição” ou revelação particular ensinar algo que contraria a doutrina oficial da Igreja?
Se a revelação particular ensinar algo que contraria a doutrina oficial da Igreja, não pode ser aceita, mas, ao contrário, deve ser rejeitada pela autoridade eclesiástica.
Sobre isso o Catecismo é claríssimo: “A fé cristã não pode aceitar ‘revelações’ que pretendam ultrapassar ou corrigir a Revelação da qual Cristo é a perfeição” (n. 67).
20. Como avaliar bem uma revelação particular que pretenda corrigir ou mudar os ensinamentos da Igreja?
Uma revelação particular que pretenda corrigir ou mudar os ensinamentos da Igreja deve ser avaliada como suspeita: pode vir de “videntes” com distúrbios psíquicos ou movidos por ação diabólica.
Crer em mensagens que contradigam a fé da Igreja é cometer um pecado grave, pois significa dizer que Cristo, Nosso Senhor, a Verdade por excelência (cf. Jo 14,6), mentiu ao prometer Sua assistência infalível à Igreja até o fim dos tempos (cf. Mt 28,20). Isso é pecado de negação da verdade conhecida como tal.
Por fim uma questão: é católico autêntico quem deixa a Mãe Igreja, com sua doutrina segura e infalível em termos de fé e moral, para buscar uma novidade do momento? Para o católico autêntico, o critério para dar crédito a uma revelação particular é justamente a sua consonância com o ensinamento da Igreja. Cf. a questão 11.
21. Mas Deus não pode, por meio de Nossa Senhora, de um(a) santo(a) ou de um anjo corrigir maus comportamentos de alguns servos seus hoje?
Sim, Deus pode. Contudo, Ele quer a conversão do pecador, não a sua ruína. Daí, caso seja necessário fazer uma correção fraterna, ainda que dura, usa-se o método de Mateus 18,15-18, pois todos têm o direito à boa fama (cf.Código de Direito Canônico cânon 220). Aliás, a propósito, parafraseando São Tomás de Aquino († 1279), o Papa Francisco disse, em homilia na Casa Santa Martha, no dia 12/09/14: “Se você não é capaz de fazer a correção fraterna com amor, com caridade, na verdade e com humildade, você fará uma ofensa e uma destruição ao coração daquela pessoa. Você fará uma fofoca a mais, que fere e, assim, você se tornará um cego hipócrita, como diz Jesus” (cf. Mt 7,1-5).
Quando Deus se serve de uma revelação particular para corrigir o mau comportamento dos seus servos, sempre conduz, portanto, o vidente de forma a não ferir a caridade, nem a obediência. Ao contrário, pede principalmente que ele aceite passar por sofrimentos e humilhações para expiar os pecados dos servos em questão, chamando-os, assim, ao arrependimento principalmente pelo seu testemunho, e nunca por meio de uma correção autoritária.
22. Por que uma mensagem provinda de revelação particular que recomende aos fiéis o afastamento da Igreja devido à falta de zelo dos ministros ordenados não pode ser levada a sério?
Não pode ser levada a sério por duas razões: 1º) porque é uma revelação particular e não se impõe aos fiéis;2º) porque mesmo que o ministro sagrado viva de modo pecaminoso, o exercício de seu ministério não é afetado, conforme ensina o próprio Catecismo da Igreja Católica n. 1854: “Uma vez que é Cristo, afinal, quem age e opera a salvação através do ministro ordenado, a indignidade deste não impede Cristo de agir (Concílio de Trento: DS[4]1612; DS 1154).”
“Santo Agostinho diz isso numa linguagem vigorosa: ‘Quanto ao ministro orgulhoso, deve ser contado juntamente com o diabo. E nem por isso se contamina o dom de Cristo: o que através de tal ministro se comunica, conserva a sua pureza: o que passa por ele mantém-se límpido e chega até à terra fértil. [...] De fato, a virtude espiritual do sacramento é semelhante à luz: os que devem ser iluminados recebem-na na sua pureza, e ela, embora atravesse seres manchados, não se suja’ (In Jo 5,15).”
Em outras palavras, ainda que o ministro sagrado – por várias razões – seja indigno, não cabe ao fiel afastar-se dos sacramentos, pois estes agem por si (em latim se diz ex opere operato), independentemente do diácono, sacerdote ou bispo. Daí se falar em linguagem popular que o ouro, mesmo passando por mãos sujas, não perde o seu valor, mas chega intacto ao destinatário.
23. Que se exige dos videntes e das mensagens para comprovar a veracidade do que dizem?
Ver se as pessoas que afirmam ter visões, suas mensagens e os frutos delas se enquadram nos critérios propostos pelo Papa Bento XIV (1740-1758) que são, em síntese, o seguinte:
A mensagem transmitida pelo(a) vidente (ou pelos videntes) condiz com as verdades de fé da Igreja? Está em harmonia com o Credo e com a Moral católica? Está livre de grandes fantasias que certamente não provêm de Deus, mas do psiquismo humano do (da) vidente (ou dos videntes), mesmo que este esteja de boa-fé?
O (a) vidente (ou os videntes) goza de boa saúde física e mental atestada por profissionais idôneos? É possível que ele (ela ou eles) esteja sendo vítima de alguma alucinação ou fantasia psíquica? – A Igreja é muito cautelosa e severa neste ponto, pois sabe que uma vivência religiosa mal conduzida pode levar a desvarios.
No comportamento do (da) vidente (ou dos videntes) há humildade e amor a Deus, à Igreja, ao próximo ou, ao contrário, é possível notar – com maior ou menor intensidade – charlatanismo, vaidade, cobiça de lucro, desejo de aparecer em suas ações?
Sobressaindo-se as primeiras características, há muita probabilidade de boa-fé da parte do (da) vidente (ou dos videntes); caso se destaquem mais as outras descrições, é muito provável que não se trate de algo sério e de Deus.
Os frutos do apregoado fenômeno também são muito considerados: há benefícios espirituais como conversões, novo fervor na oração e prática dos sacramentos, progresso nas virtudes, na oração, na caridade? Também são narradas graças ou milagres de curas etc.? – Em caso positivo e sem erros doutrinários, é possível dizer que nada há em desabono às mensagens vindas desse ambiente.
24. Poderia citar ao menos um critério que seja forte indício de que a mensagem pode ser fruto de fantasia do(a) vidente (ou dos videntes)?
Sim. Quando, por exemplo, se fazem previsões detalhistas antevendo que o mundo passará por terríveis castigos, mas os bons (entenda-se os seguidores daquela revelação ou mensagem) sobreviverão e reinarão, na paz, com Cristo já sobre a terra.
Isso nos diz D. Estêvão Bettencourt, OSB: “Há predições que descem a minúcias grotescas, reduzindo-se frequentemente ao seguinte esquema: haverá tremendos flagelos para a humanidade nos próximos tempos; sobreviverão apenas os bons, os quais, terminada a borrasca, passarão a gozar de prosperidade sobre a terra. Esses oráculos despertam grande interesse, porque constituem uma espécie de consolo para o homem atribulado de nossos dias; correspondem, sim, a uma atitude psicológica do cidadão moderno e não a uma revelação divina; fornecem devaneio à fantasia e satisfação à curiosidade, desviando das verdades centrais da fé a atenção dos cristãos” (Pergunte e Responderemos n. 170, fevereiro de 1974, p. 78).
25. A Igreja pode desabonar uma “aparição”? Dê exemplos.
Sim, pode. A Igreja teve de intervir alertando os fiéis sobre “aparições” e revelações particulares mais de uma vez ao longo da história.
Como detalhe, podemos citar alguns exemplos de pessoas (“videntes”) que diziam ter contato com Nossa Senhora e a Igreja deu parecer negativo, recomendando publicamente que os fiéis não dessem crédito ao que nesses locais se propagava: em 1931, em Esquizoga, na Espanha, dois meninos afirmavam ter, inicialmente, visões, depois outras 150 pessoas asseveraram também ver a Virgem Santíssima; em 1937, em Votago-Belluno, na Itália, um jovem e algumas meninas disseram ter várias visões de Nossa Senhora; em 1947, em Urucaina, no Brasil, um sacerdote afirmava ver a Mãe de Deus; em 1949, uma multidão se julgava agraciada pela “Virgem que chora[5]”, em Lublin, na Polônia; em 1950, um homem afirmava ver Maria Santíssima, em Necedah, nos Estados Unidos etc. (E. Bettencourt, OSB. Pergunte e Responderemos n. 390, novembro de 1994, p. 508-510).
26. Pode haver uma explicação natural ou psicológica para o surto de “aparições” ou revelações particulares em determinadas épocas da história mais do que em outras?
Sim, pode. O teólogo brasileiro Dom Estêvão Bettencourt, OSB, nota que só nos cinco primeiros anos após a segunda guerra mundial houve grande número de “aparições” e revelações particulares (Pergunte e Responderemosn. 390, novembro de 1994, p. 510), muitas delas, evidentemente, inautênticas como vimos nos exemplos atrás expostos.
Isso se explica, segundo o próprio Dom Estêvão, pela ingratidão dos tempos em que se vive. Cansados com crises políticas, econômicas, sociais etc., não poucas pessoas buscam apoio no transcendental ou no além. Isso não está errado, pois todos devemos em tudo confiar em Deus, só Ele tem a última palavra sobre a história. O problema, no entanto, é quando essa busca se torna fantasiosa e, por conseguinte, desligada da reta fé.
Daí “o grande número de visões e aparições prometendo a intervenção do ‘alto’ neste mundo, em favor de uma nova fase da História caracterizada por paz, amor e fidelidade a Deus, provêm de tal ‘insegurança coletiva’. Essas visões podem ser contagiantes, visto que muitas vezes se trata de fenômenos meramente psicológicos – senão psicopatológicos – que sugestionam o público e levam pessoas mais sensíveis a conceber, também elas, visões e aparições” (Católicos perguntam. Santo André: Mensageiro de Santo Antônio, 1997, p. 114).
É preciso, portanto, sadio senso crítico ante notícias de aparições ou revelações do além aos homens e mulheres de hoje.
27. Pode haver erros nas falas do(a) vidente (dos videntes)?
Sim. Por essa razão a Igreja é muito cautelosa ao avaliar as mensagens vindas de revelações particulares.
Diga-se, no entanto, que podem surgir dois tipos de erros: 1) na mensagem em si, revelando coisas que contrariam a fé da Igreja. Essa mensagem é, então, censurada pela autoridade eclesiástica competente; 2) nainterpretação ou transmissão da mensagem que o (a) vidente (ou os videntes) diz ter recebido do além, mas, na realidade, são frutos de seu próprio consciente ou inconsciente.
A razão desses erros (que nem sempre significam má-fé) é explicada pelo Pe. Dr. Afonso Rodrigues, SJ, com as seguintes palavras: “Estas projeções [“aparições” na linguagem comum – nota nossa] do inconsciente agitado pela emoção violenta podem produzir uma alucinação digna de aceitação ou não. Sendo pessoal, a irradiação de um inconsciente reveste-se das características do indivíduo que a emite. Cristo visto por Santa Teresa de Jesus se revestia de atitudes próprias da realeza: ‘Su divina Magestad’. Visto por Santa Margarida Maria se apresentava chagado e cuspido como o ‘Ecce Homo’ mostrado ao povo por Pilatos. A menina Imelda via Jesus menino tocando a cornetinha dela. Devemos, pois, ter em conta o Coeficiente de Refração Pessoal nas comunicações recebidas por diversas pessoas” (Psicologia da graça. São Paulo: Loyola, 1995, p. 110-111).
28. Teria ao menos mais dois exemplos ilustrativos?
Dom Estêvão Bettencourt, OSB, citando Robert Rouquette, cronista da revista Etudes, de Paris, afirma que a Irmã Lúcia, uma das videntes de Fátima, comete imprecisões ao escrever sobre as aparições de Nossa Senhora. Diz ele que a vidente prevê o início da segunda guerra mundial para o pontificado de Pio XI, mas, na verdade, ela tem início no período de Pio XII, em setembro de 1939 (cf. Pergunte e Responderemos n. 258, set./out. de 1981, p. 339).
O Pe. Dr. Afonso Rodrigues, SJ, escreve, por sua vez, o seguinte: “a santa que contou os golpes da Flagelação de Jesus como alguns milhares, não pensou que para tanto não haveria tempo naquela manhã de Sexta-feira Santa. De fato, a fotografia de Jesus no Santo Sudário não tem esta contagem numérica” (Psicologia da graça. São Paulo: Loyola, 1995, p. 111).
29. Qual a razão desses “erros” interpretativos?
O Pe. Dr. Afonso Rodrigues, SJ, nos explica, em linguagem um tanto técnica, o seguinte: “Nessas reações psíquicas [ocorrentes nas visões – nota nossa] não funciona o Senso Comum, ou o Espírito de Crítica. A pessoa é passiva: o juízo da Inteligência é impedido pela ligação dos sentidos internos, de que depende a Inteligência no seu agir. Daí que Santo Inácio manda que, depois das inspirações e luzes extraordinárias, o exercitante use o Raciocínio e pese as razões pró e contra a intuição recebida passivamente (181 e 336). Nas visões e Revelações Particulares existem muitas coisas que não são verdadeiras devido ao Coeficiente de Refração Pessoal do indivíduo que as transmite” (Psicologia da graça. São Paulo: Loyola, 1995, p. 111).
Em todo caso, não são apenas tais detalhes que desabonam uma revelação particular. Quando a revelação é autêntica, o vidente não impõe esses detalhes aos fiéis, apenas relata o que viu, da forma como viu. O foco da mensagem é sempre colocado nos apelos à conversão, à oração e à penitência, que constitui o próprio cerne do Evangelho.
30. Como deve agir o verdadeiro católico ante casos de “aparições” e revelações particulares? É o fiel obrigado a crer?
Ante os casos de “aparições” e revelações particulares, o fiel deve agir com muita prudência, pois nenhuma delas – mesmo aquelas em que a Igreja permitiu o culto e uma festa no calendário litúrgico – obrigam a fé do católico, dado que nada podem trazer de novo ao patrimônio de fé e da moral da Igreja. Ao contrário, se forem fruto de fantasias humanas, poderão levar os que buscam essas “aparições” ou videntes a colocarem em risco a sua fé católica genuína, que deve estar sempre em sintonia com o Magistério da Igreja, na pessoa do Papa e dos Bispos em comunhão com ele (cf. Catecismo da Igreja Católica n. 880).
31. Poderia citar ao menos um alerta de alguma autoridade eclesiástica sobre isso?
Sim, é muito interessante a fala de Monsenhor Alfredo Ottaviani, futuro Cardeal pró-prefeito do Santo Ofício (atual Congregação para a Doutrina da Fé), em artigo escrito para o jornal L’Osservatore Romano, órgão oficioso da Santa Sé, em 04/02/1954. Dizia ele o seguinte: “Já há alguns anos, assistimos a um recrudescimento da paixão popular pelo maravilhoso, inclusive em matéria religiosa. Multidões de fiéis se dirigem a lugares de presumidas visões e pretensos prodígios e abandonam, em troca, a Igreja, os sacramentos, a pregação”.
“Pessoas que ignoram as primeiras palavras do Credo, convertem-se em apóstolos de ardente religiosidade. Atrevem-se a falar do Papa, dos Bispos, do clero em tom de evidente reprovação, e se enfurecem porque os prelados e clérigos não participam das manifestações ardentes de certos movimentos populares...”
32. Como deve ser, então a fé do católico, segundo a correta fala de Mons. Ottaviani?
Segundo Mons. Ottaviani, não “podemos ser religiosos de qualquer modo, é preciso que saibamos ser corretamente religiosos. Podem existir, e existem, desvios do senso religioso como dos demais sentimentos nossos. O senso religioso há de ser orientado pela razão, alimentado pela graça, governado pela Igreja, como toda a nossa vida, e mais severamente ainda. Existe uma instrução, uma educação, uma formação religiosa”.
Depois, referindo-se ao caso de pessoas que, apoiando os videntes, combateram a própria Mãe Igreja que os gerou para a vida divina pelo Batismo, Ottaviani comentou: “Quem combateu, com tanta leviandade, a autoridade da Igreja e o sentimento religioso, encontra-se atualmente diante das explosões impressionantes de sentimento religioso instintivo, sem luz alguma de racionalidade, sem consciência da graça, sem controle, sem governo, isto é tão verídico que terminam em deplorável desobediência à autoridade eclesiástica, que interveio para pôr o devido freio” (L’Osservatore Romano, 04/02/1954).
Em suma, afastado das orientações da Igreja, o fiel pode ceder aos maiores desatinos possíveis e imagináveis, inclusive acabar perdendo a fé mal estruturada que tem.
33. Algumas “aparições” são acompanhadas de milagres. Que é o milagre?
O milagre tem várias definições. Do ponto de vista etimológico (estudo da origem das palavras), vem do latim miraculum, que significa “algo admirável”. No sentido teológico, prende-se ao termo grego semeion (= sinal).
É, portanto, um sinal feito por Deus (e só por Ele) aos homens a fim de provar com Sua assinatura – no caso das “aparições” – que algo de sobrenatural ali ocorreu, embora isso não pretenda afirmar que todas as narrativas do (da) vidente (ou dos videntes) é real manifestação do além: nem os pormenores dos relatos das “aparições” em si, nem a mensagem integral transmitida a partir da revelação particular.
34. Explique melhor a segunda parte da resposta anterior
Relembrando as questões 11, 13 e 30, dizemos que as revelações particulares nada podem acrescentar à Revelação Divina pública e oficial da Igreja.
Daí, ao tratar das revelações particulares “a Igreja condena ou aprova. Quando aprova, nunca impõe. A Revelação Divina oficial, obrigatória, terminou com a morte de São João Evangelista, último entre os Apóstolos. Nas revelações particulares como nas visões (mal chamadas aparições, se depois da Ascensão) a Igreja aprova o culto, e o mínimo doutrinal inseparável do culto, quando está e porque está conforme à Revelação Bíblica e após a confirmação divina pelos milagres. Tudo o mais pertence à seara do próprio místico” (Pe. Oscar G. Quevedo.Palavra de Iahweh. 2ª ed. São Paulo: Loyola, 2003, p. 246).
Ora, “esses milagres estão claramente em relação com a doutrina geral católica ou a determinado culto em particular, não diretamente [relacionado – nota nossa] às aparentes aparições e revelações” (idem, p. 292).
35. A Igreja parece ter dado – entre as diversas revelações particulares – maior destaque à mensagem de Fátima. É verdade?
Sim, realmente deu. Todavia, o fez por ser a mensagem de Fátima, em sua essência (não nos detalhes), um eco muito fiel da Sagrada Escritura quando relembra aos homens o dever cristão da oração e da penitência.
L. Lochet nos relembra as passagens bíblicas exortando a isso: Is 45,22: Convertei-vos e sereis salvos; Ez 18,30 e 14,6: Convertei-vos e fazei penitência; Os 14,3: Voltai-vos para Deus; Jl 2,12: Convertei-vos de todo coração no jejum; Jer 15: Emendai-vos de vossa péssima conduta; Mt 3,2: Fazei penitência porque o reino de Deus está próximo, asseverava João Batista; Mc 1,14: O tempo está completo, e o Reino de Deus está próximo. Fazei penitência e aceitai a Boa nova, diz o Senhor Jesus.
E conclui o mesmo Lochet: “Como não sentir que todas as mensagens endereçadas pela Virgem Maria brotam da mesma fonte, no prolongamento do Antigo Testamento e do Evangelho?” (Teologia das aparições marianas. São Paulo: Paulinas, 1966, p. 74-75).
36. Os segredos[6] de Fátima sempre foram muito comentados. Que dizer deles em linhas gerais?
Devemos dizer que o primeiro deles se refere à visão que as crianças tiveram do inferno; o segundo à situação da Rússia comunista, que espalharia seus erros pelo mundo todo, caso os homens não se voltassem para Deus pela oração e penitência.
Já o terceiro, segundo Irmã Lúcia, não deveria ser revelado antes de 1960. Ao ser indagada sobre a razão da data, a religiosa respondia sempre: “A Santíssima Virgem o quer assim[7]”. Ocorre que os anos se passaram e os Papas (João XXIII, Paulo VI e João Paulo I) não se interessaram em trazer a público a terceira parte do segredo, o que fez correr rios de tinta com interpretações diversas e até atemorizantes.
Eis, porém, que o Papa João Paulo II pediu sua publicação, em 13 de maio de 2000, ficando encarregados dessa grande tarefa – incluindo análise e divulgação com embasamento histórico-teológico – os Cardeais Joseph Ratzinger (futuro Papa Bento XVI) e Tarcisio Bertone (futuro secretário de Estado de Bento XVI e do início de pontificado do Papa Francisco).
37. Qual é o conteúdo do terceiro segredo de Fátima e como foi interpretado?
A terceira parte do segredo de Fátima traz, em suma, em estilo simbolista, como centro, ao lado do insistente pedido de penitência feito por um anjo de espada de fogo na mão esquerda, a visão de um Bispo vestido de branco (daí ser interpretado como sendo o Papa). Este, após passar rezando por uma cidade em ruínas, chegou ao topo de uma montanha onde havia uma cruz e aí foi morto por vários soldados que lhe disparavam tiros e setas. Depois do Bispo de branco, vários outros clérigos e leigos também foram exterminados... Nos braços da cruz, dois anjos recolhiam o sangue dos mártires e regavam com ele as almas que se aproximavam de Deus.
Dado esse caráter simbólico e obscuro da narração do terceiro segredo, o Santo Padre João Paulo II enviou, para falar com Ir. Lúcia, Dom Tarcísio Bertone. Este lhe apresentou a interpretação que os teólogos fizeram de sua visão, ou seja, que suas narrativas dizem respeito aos embates do comunismo ateu contra a Igreja, causando muitas vítimas no século XX e ela aceitou. A freira também concordou que o Bispo de branco era mesmo o Papa, só não sabia qual deles, porém acolheu a interpretação segundo a qual uma mão maternal – a da Virgem Maria – desviou o trajeto da bala que poderia ter assassinado o Papa João Paulo II no atentado de 13 de maio de 1981.
A obediente religiosa respondeu também ao Cardeal Bertone que seus escritos mais recentes de exortação aos fiéis poderiam ser ou não publicados, uma vez que ela os confiava à autoridade eclesiástica e à sua decisão positiva ou negativa (cf. Pergunte e Responderemos n. 461, outubro de 2000, p. 436-437).
38. Que disse o então Cardeal Ratzinger sobre o terceiro segredo de Fátima, cujo resultado pode ter sido decepcionante para os que esperavam apenas futuras previsões catastróficas para a humanidade?
Disse o seguinte: “Chegamos a uma última pergunta: que é que significa no seu conjunto (nas suas três partes) o segredo de Fátima? Que é que nos diz a nós? Em primeiro lugar, devemos supor, como afirma o Cardeal Sodano, que ‘os acontecimentos a que faz referência a terceira parte do segredo de Fátima parecem pertencer já ao passado’. Os diversos acontecimentos, na medida em que lá são representados, pertencem já ao passado”.
“Quem estava à espera de impressionantes revelações apocalípticas sobre o fim do mundo ou sobre o futuro desenrolar da história, deve ficar desiludido. Fátima não oferece tais satisfações à nossa curiosidade, como, aliás, a fé cristã em geral, que não pretende nem pode ser alimento para a nossa curiosidade. O que permanece – dissemo-lo logo ao início das nossas reflexões sobre o texto do segredo – é a exortação à oração como caminho para a salvação das almas, e no mesmo sentido o apelo à penitência e à conversão” (Pergunte e Responderemos n. 461, outubro de 2000, p. 442-443).
39. Como os fiéis (clérigos, religiosos e leigos) devem agir em relação às chamadas “aparições” ou revelações particulares?
Diante das “aparições” ou revelações particulares, o fiel católico há de agir sempre com prudência, ou seja, não acreditando facilmente no que é propagado, mas também não recusando tudo o que lhe é apresentado, especialmente depois que a Igreja declara nada haver que fira a fé ou a moral na mensagem de determinado(a) vidente (ou videntes).
Tais revelações particulares, embora não se imponham à fé do católico, podem se “enquadrar na categoria dos chamados ‘sinais dos tempos’. São acontecimentos significativos, que têm de ser entendidos à luz do Evangelho (jamais em oposição a este) e que levam a reler o Evangelho de maneira mais concreta, a fim de que os cristãos vivam mais fielmente a doutrina de Cristo nas circunstâncias históricas em que se encontram” (E. Bettencourt, OSB.Pergunte e Responderemos n. 170, fevereiro de 1974, p. 75).
Muitos escritos frutos de revelações particulares podem servir para a edificação dos fiéis e até como um atrativo para que eles se voltem cada vez mais à Igreja por meio da prática sacramental, da oração pessoal, da caridade e do estudo da doutrina católica em seus grandes fundamentos, começando, por exemplo, pelo Catecismo.
É o Pe. Dr. Afonso Rodrigues, SJ, quem escreve que “os diários íntimos de personalidades, canonizadas ou não, trazem uma riqueza imensa de valores humanos. Seria fruto de uma inteligência fechada para a verdade não colher as jóias destas minas de valores humanos” (Psicologia da Graça. São Paulo: Loyola, 1995, p. 115). Note-se que o sábio jesuíta não fala em nada de divino, mas de valores humanos, que podem ser inspirados por Deus.
O Pe. Oscar G. Quevedo, SJ, concorda ao dizer que muitas visões que santos e santas tiveram ao longo da história, “podem ser indícios da piedade dos videntes, e podem ser muito úteis na edificação e na firmeza da fé do povo, podem ser providenciais, podem até ser e virem acompanhadas de milagres de Deus” (Palavra de Iahweh. 2ª ed. São Paulo: Loyola, 2003, p. 125).
Também ele, no entanto, não entra no cerne da questão: houve ou não houve “aparição”?
40. Quais são os critérios do verdadeiro milagre?
Para se ter um autêntico milagre é preciso que se trate de fato:
1 Real – O episódio apresentado como possível milagre há de ser um caso autêntico, histórico, passível de pesquisas e comprovações.
Isso é imprescindível, uma vez que a mente humana é fértil na criação ou interpretação de casos – reais ou não – tidos como maravilhosos. Enquadram-se aqui os ditos populares “Quem conta um conto, aumenta um ponto” ou “De boca em boca a formiga vira elefante”.
2 Inexplicável pelas ciências contemporâneas ao fato – O fato real deve ser submetido ao exame de médicos e cientistas da área em foco, sejam eles de quais correntes filosóficas ou religiosas forem, desde que ajam com honestidade e real espírito científico perante a questão. Caso obtenham explicações plausíveis, já não se tem um milagre, mas tão somente um caso digno de notoriedade.
Há fatos que a Ciência jamais conseguirá explicar ou reproduzir, assim a ressurreição de um morto há vários dias, as cicatrizações instantâneas, a transformação de água em vinho etc. Serão sempre milagres. Importa, pois, no conceito de milagre, que a ciência contemporânea ao fato não tenha elementos para explicá-lo.
3 Realizado em autêntico contexto religioso – Para a Igreja não basta ter um fato real e inexplicável pelas ciências contemporâneas a ele. É preciso que tal fato seja realizado num contexto de fé pura e autêntica em resposta à prece humilde dos fiéis ou em confirmação a uma doutrina da qual se tem dúvida.
Caso, porém, ocorram fatos estupendos em outros ambientes que não os da fé verdadeira, já não se tem um milagre, mas um prodígio diabólico ou – o que é mais comum – um fenômeno parapsicológico. Sim, isso é lógico e muito coerente, pois dado que o milagre é a assinatura infalsificável de Deus, Ele não pode assinar em favor dos erros, mas tão somente onde está a sua Igreja e a sua doutrina verdadeira. Fora daí não há milagres!
41. Poderia citar ao menos dois milagres por intercessão de Nossa Senhora?
Sim, na França, “na sexta-feira 9 de outubro de 1987, em Lourdes, no decorrer da peregrinação do Rosário, da qual participava o Sr. Jean-Pierre Bély, de 51 anos de idade naquela época, este foi curado de grave moléstia, que o invalidava, e de que sofria havia vários anos. Tal moléstia foi identificada pelos médicos que dele tratavam, como sendo uma esclerose em placas evoluídas em fase severa e avançada”.
“Todos os médicos que examinaram o paciente após o acontecimento ocorrido em Lourdes aos 9 de outubro de 1987, verificaram que a cura do Sr. Bély foi subitânea, completa e duradoura.” (Pergunte e Responderemos n. 446, julho de 1999, p. 290-295).
Em Fátima (Portugal), na última das aparições de Nossa Senhora, no dia 13/10/1917, houve o chamado “milagre do sol”. Trata-se do seguinte: choveu durante toda a “aparição”, mas no momento em que, segundo Lúcia, a Virgem voltava para o céu, em meio a densas nuvens, a vidente começou a gritar para a multidão de cerca de 50 a 70 mil pessoas: “Olhem para o sol!”.
Eis que, então, o sol apareceu muito brilhante e forte, mas todos podiam olhar para ele sem ficarem cegos. Depois, o mesmo sol começou a bailar como uma roda de fogo e, por fim, a girar espalhando luzes vermelhas que tocavam com seu brilho todas as coisas. Precipitou-se sobre a multidão aterrorizada, mas depois voltou para o seu lugar, ficando novamente brilhante como é durante o dia.
As roupas dos presentes, molhadas pela chuva, ficaram secas e todos se maravilharam, apesar do susto inicial, com o que viram não só no local das aparições, mas também a cerca de 40 km de distância (Antônio A. Borelli Machado. As aparições e mensagens de Fátima: profecias de tragédia ou de esperança? São Paulo: Artpress, 1995, p. 47-48).
42. É possível ser devoto ardoroso do Sagrado Coração de Jesus e de Nossa Senhora sem se apegar a revelações particulares?
Sim, é possível, pois ambas as devoções fazem parte do patrimônio de nossa fé e independem das revelações particulares para existir. O Sagrado Coração de Jesus tem sua devoção deduzida do próprio Evangelho de São João (19,34).
Nossa Senhora, Maria Santíssima, aparece pouco na Sagrada Escritura, mas sempre nos grandes momentos ligados ao seu Filho, Jesus Cristo: Anunciação, visita a Isabel, nascimento em Belém, fuga para o Egito, perda do menino em Jerusalém, nas Bodas de Caná, na pregação, aos pés da cruz, com os Apóstolos na vinda do Espírito Santo (cf. S. João Paulo II. A Mãe do Redentor. 3ª ed. São Paulo: Paulinas, 1987, n. 26), e dessas poucas passagens bíblicas a Igreja extrai a sua fé na Mãe de Deus e nossa Mãe a ponto de venerá-la com o culto de hiperdulia (super veneração, poderíamos dizer), ao passo que os demais santos e santas são venerados com o culto de dulia(veneração) apenas.
43. Poderia dar-nos ao menos um exemplo concreto de que não precisamos necessariamente das revelações particulares para crer?
Sim, o Padre Dr. Afonso Rodrigues, SJ, relata o seguinte fato ocorrido com ele: “Quando diretor dos Congregados Marianos, realizei, em 1947, um Congresso Nacional Fatimense. Ao apresentar o álbum do Congresso com os temas das conferências ao Núncio Apostólico de então, recebi dele a seguinte reprimenda: ‘Não apele para Revelações Particulares, mas para os Santos Padres da Igreja’”.
“Achei a atitude do Sr. Núncio muito normal.”
“Como jesuíta, em toda a minha formação, Noviciado, Letras Clássicas, Filosofia, Teologia, nunca meus mestres citaram uma Revelação Particular. Argumentos de razão e de fé teologal eram as bases em que se sedimentavam nossas convicções.”
“Numa novena para a festa do Sagrado Coração, em que ouvíamos alocuções com os pontos para a meditação do dia seguinte, o Mestre de Noviços não citou uma só vez Santa Margarida Maria” [vidente da França que ajudou a difundir a devoção ao Sagrado Coração de Jesus no século XVII – nota nossa] (Psicologia da Graça. São Paulo: Loyola, 1995, p. 114).
44. Poderia resumir as verdades de fé da Igreja sobre Nossa Senhora, Mãe de Deus e nossa Mãe?
Sim, as verdades sobre Nossa Senhora às quais todo verdadeiro fiel católico deve se apegar são as seguintes:
1) É Mãe de Jesus Cristo, Deus feito homem por amor de nós. Ele, sem deixar de ser Deus (a segunda pessoa da Santíssima Trindade), assumiu a nossa natureza humana em tudo menos no pecado, no seio de Maria Virgem;
2) Permaneceu Virgem sempre: antes, durante e depois do parto;
3) Foi isenta do pecado original desde a sua concepção (Imaculada Conceição de Maria), o que não a impediu de ter crescido na fé e na santidade ao longo de sua vida terrena;
4) Sem pecado como é, não foi dominada pelo poder da morte, mas foi elevada ao céu em corpo e alma[8];
5) É o modelo e exemplo no qual a Igreja inteira contempla o seu futuro: a glória celestial (Pergunte e Responderemos n. 170, fevereiro de 1974, p. 81-82).
45. Qual é a mensagem de Nossa Senhora para nós hoje?
A nós ela não transmite outra mensagem senão a que a faz repetir seu duplo gesto de Caná da Galileia: a) aos homens e mulheres de hoje recomenda, apontando para o seu Filho: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5). Daí comentar o Pe. Francisco Faus: “No fundo de tudo o que a Virgem Santíssima sugere ao coração dos homens, sempre pulsam as suas palavras em Caná: ‘Fazei tudo o que Ele vos disser’. A verdadeira devoção é, por isso, radicalmente ‘cristocêntrica’ – conduz a Cristo –, é ‘teocêntrica’. Nossa Senhora vive e faz viver em função de Jesus. Não pode haver aí nenhuma sombra de ‘idolatria’” (Maria, a Mãe de Jesus. São Paulo: Quadrante, 1987, p. 46-47);
b) ao seu Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, suplica: “Eles não têm mais vinho” (Jo 2,3), o que, atualizado para o nosso tempo significa: “eles não têm mais fé, não possuem casa, alimentos, saúde, amor ao próximo etc.”. Enfim, Ela é a nossa grande intercessora sempre. Daí dizer, uma vez mais, o Pe. Faus: “Quando ao rezar a Ave-Maria, nós lhe pedimos ‘rogai por nós pecadores’, fazemo-lo com a consciência de que demasiadas vezes nos afastamos de Deus e, como o filho pródigo, precisamos voltar para a casa do Pai. Maria torna suave, também, e esperançado esse retorno” (idem, p. 48).
As formas de devoções marianas mais comuns são a recitação do Rosário (coroa de rosas) composto pelos mistérios gozosos, dolorosos, luminosos e gloriosos e visam, junto com Nossa Senhora, acompanhar os passos do Senhor Jesus. Além do Rosário, temos ainda a Ladainha de Nossa Senhora, recitada sempre depois do terço ou do Rosário, e o Angelus a ser rezado às 6h, às 12h e às 18h. Esta oração nos recorda, especialmente, o grande mistério da Encarnação.
Importa também, sempre que for possível, colocar – em um local visível a muitos – próximo da cruz de Nosso Senhor, uma imagem ou quadro de Nossa Senhora como forma de valorizar Aquela que Deus escolheu como digna Mãe de Seu Filho, a fim de nos lembrarmos de que devemos ser para Ela outro Cristo (cf. João Paulo II. A Virgem Maria: 58 catequeses do Papa sobre Nossa Senhora. 2ª ed. Lorena: Cléofas, 2001, p. 158-168).
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REFERÊNCIAS
BETTENCOURT, Dom Estêvão, OSB. Católicos perguntam. Santo André: Mensageiro de Santo Antônio, 1997; Curso de Espiritualidade. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2006; Teologia Fundamental. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2013.
BETTENCOURT, Dom Estêvão, OSB. Revista Pergunte e Responderemos n. 170, fevereiro de 1974, p. 72-83; n. 258, set./out. de 1981, p. 339; n. 390 novembro de 1994, p. 505-510; n. 400, setembro de 1995, p. 386-393; n.446, julho de 1999, p. 290-295; n. 461, outubro de 2000, p. 434-443.
BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2002 (2013: 9ª reimpressão).
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. São Paulo: Loyola, 1999 (2011: reimpressão).
CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Aparições e revelações particulares (coleção Subsídios doutrinais da CNBB, n. 1) – usado como base geral e que deve ser lido na íntegra.http://www.cnbb.org.br/component/docman/doc_view/356-subsidio-01-aparicoes-e-revelacoes-particulares
FAUS, Pe. Francisco. Maria, a Mãe de Jesus. São Paulo: Quadrante, 1987.
FRIDERICHS, Pe. Edvino, SJ. Caixinha de perguntas sobre religião e superstições. 9ª ed. Curitiba: Vicentina, 1999.
HULSHOF, Margarida. Conversando sobre a fé: as verdades em que cremos. Aparecida: Santuário, 2004. vol. 1.
João Paulo II. A Mãe do Redentor. 3ª Ed. São Paulo: Paulinas, 1987.
JOÃO PAULO II. A Virgem Maria: 58 catequeses do Papa sobre Nossa Senhora. 2ª ed. Lorena: Cléofas, 2001.
LOCHET, Louis. Teologia das aparições marianas. São Paulo: Paulinas, 1966.
MACHADO, Antônio Augusto Borelli. As aparições e a mensagem de Fátima: profecias de tragédia ou de esperança? São Paulo: Artpress, 1995.
MESQUITA, Luiz José de. Por que crer? A fé e a revelação. São Paulo: Ave Maria, 1990.
OTTAVIANI. Mons. Alfredo. L’Osservatore Romano, 04/02/1954 apud E. Bettencourt, OSB. Pergunte e Responderemos n. 390, novembro de 1994, p. 508.
QUEVEDO, Pe. Oscar Gonzáles, SJ. Palavra de Iahweh. 2ª ed. São Paulo: Loyola, 2003.
RODRIGUES, Pe. Dr. Afonso, SJ. Psicologia da graça. São Paulo: Loyola, 1995.
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OBRAS PARA APROFUNDAMENTO MARIANO
Dom Estêvão Tavares Bettencourt, OSB, Curso de Mariologia. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 1996.
Gustavo Antônio Solimeo e Luiz Sérgio Solimeo. A maravilhosa história e os milagres de Nossa Senhora Aparecida. São Paulo: Atpress, 1992.
Paulo VI. Exortação apostólica sobre o Culto à Bem-Aventurada Virgem Maria (Marialis Cultus). São Paulo: Paulinas, 1974 (coleção: A voz do Papa n. 83)
Pe. Oscar G. Quevedo, SJ. Nossa Senhora de Guadalupe: o olhar de Maria para a América Latina. 5ª ed. São Paulo: Loyola, 2002.
Pe. Paschoal Rangel, SDN. Maria, Maria... Ladainha: invocações e metáforas feitas para louvar. Belo Horizonte: O Lutador, 1991.
Pe. Thomas de Saint-Laurent. A Virgem Maria. São Paulo: Artpress, 1996.
Prof. Felipe Aquino. A Mulher do Apocalipse. 7ª ed. Lorena: Cléofas, 2005.
São Luis Maria Grignion de Montfort. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem. 33ª ed. Petrópolis: Vozes, 2003.
Santo Afonso Maria de Ligório. As glórias de Maria. 27ª ed. Aparecida: Santuário, 2011.
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APÊNDICE
BENTO XVI, SÃO BERNARDO E NOSSA SENHORA
Se quem fala do filho lembra a mãe e vice-versa, conforme um dito popular, na vida de Nosso Senhor não foi diferente, pois a Virgem Maria, embora sempre escondida e meditativa ao longo das passagens do Evangelho (cf. Lc 2,51), é figura central na vida de Cristo, acompanhando o seu filho do nascimento em Belém à morte de cruz.
Para bem realçar isso que afirmamos, transcrevemos a catequese do Papa Bento XVI de 21 de outubro de 2009. Aí ele diz que no “célebre sermão do domingo dentro da oitava da Assunção, o santo abade [Bernardo de Claraval – nota nossa] descreveu em termos apaixonados a íntima participação de Maria no sacrifício redentor do seu Filho: ‘Ó santa Mãe – exclama –, verdadeiramente uma espada transpassou tua alma! (...) Até tal ponto a violência da dor transpassou tua alma, que com razão podemos te chamar mais que mártir, porque em ti a participação na paixão do Filho superou muito em intensidade os sofrimentos físicos do martírio’ (14: PL 183,437-438)”.
“Bernardo não hesita: ‘per Mariam ad Iesum’: através de Maria somos conduzidos a Jesus. Ele confirma com clareza a subordinação de Maria a Jesus, segundo os fundamentos da mariologia tradicional. Mas o corpo do Sermão documenta também o lugar privilegiado da Virgem na economia da salvação, dada a sua particularíssima participação como Mãe (compassio[9]) no sacrifício do Filho. Não por acaso, um século e meio depois da morte de Bernardo, Dante Alighieri, no último canto da ‘Divina Comédia’, colocará nos lábios do Doutor melífluo a sublime oração a Maria: ‘Virgem Mãe, filha do teu Filho / humilde e mais alta criatura / término fixo do eterno conselho...’ (Paraíso 33, vv. 1ss.).”
“Eu gostaria de concluir estas reflexões sobre São Bernardo com as invocações a Maria, que lemos em sua bela homilia: ‘Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, pensa em Maria, invoca Maria. Que seu nome nunca se afaste de teus lábios, jamais abandone teu coração; e para alcançar o socorro da intercessão dela, não negligencies os exemplos de sua vida. Seguindo-a, não te transviarás; rezando a Ela, não desesperarás; pensando nela, evitarás todo erro. Se Ela te sustenta, não cairás; se Ela te protege, nada terás a temer; se Ela te conduz, não te cansarás; se Ela te é favorável, alcançarás o fim’ (Hom. II super ‘Missus est’, 17: PL 183, 70-71).”
NOTAS
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NOTAS
[1] Usamos em todo este trabalho o termo aparição ou aparições entre aspas, pois ele é controverso entre os estudiosos. Escreve, por exemplo, o Pe. Oscar G. Quevedo, SJ, o seguinte:
“1º) Não se deveria usar o termo aparições ou revelações de Santos. Nem sequer no ambiente religioso. Dever-se-iam usar os termosvisões ou projeções (ou equivalentes). Depois da Ascensão não houve mais aparições nem revelações de mortos, santos ou não. 2º) Deus muitas vezes confirmou muitas visões e projeções com muitos milagres. Esses milagres garantem que essas visões ou projeçõessão especialmente providenciais. 3º) E esses milagres estão claramente em relação com a doutrina geral católica ou determinadoculto particular, não diretamente às aparentes aparições ou revelações” (Palavra de Iahweh. 2ª ed. São Paulo: Loyola, 2003, p. 292).
O Pe. Dr. Afonso Rodrigues, SJ, também fala em “projeções” (Psicologia da graça. S. Paulo: Loyola, 1995, p. 110). Quevedo e Rodrigues supõem que as ocorrências das “aparições” se dão de dentro para fora (e não o contrário). Assim, a ação providencial especial (mas não milagrosa) de Deus se dá na mente da pessoa e não fora. O que ocorre fora, no caso das visões sensitivas ou com imagens (cf. questão 11), é projeção daquilo que se passa na mente do vidente.
Caso seja alucinação doentia ou diabólica, a mensagem daí resultante é sem objetividade, contra a doutrina oficial da Igreja ou mesmo contra os ministros d’Ela. Se é algo providencial especial, ou seja, querido por Deus, há milagres comprobatórios de que, realmente, algo divino ali ocorreu. Vejam-se os milagres em Lourdes, Guadalupe, Fátima, Aparecida etc.
[2] A própria Bíblia atesta a existência da Tradição Oral: Jo 21,25; cf. 1Ts 2,15; Jo 20,30; 2 Tm 1,12-14; 2Tm 2,2.
[3] O Papa Bento XIV (1740-1758), grande estudioso de fenômenos místicos, estipula os seguintes sinais para um autêntico êxtase (do grego ex-stasis = estar fora de si): a) não proceda de nenhuma enfermidade nem alguma outra causa natural; b) não se reproduza com periodicidade fixa; c) não ofusque nem obscureça o intelecto; d) não provoque o esquecimento de coisas passadas, especialmente daquelas vistas e ouvidas durante o êxtase; o fato de se esquecer do que houve é prova de falso êxtase, embora nem sempre seja fácil distinguir o autêntico do inautêntico no caso (De Servorum Dei Beatificatione apud E. Bettencourt, OSB. Curso de Espiritualidade. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2006, p. 168).
[4] Designa Denzinger-Schönmetzer, autores de um Manual de Símbolos e Definições. Obra que contém todas as declarações da Igreja em matéria de Fé e Moral.
[5] Vez ou outra, aparecem notícias de imagens de Nossa Senhora que choram – até lágrimas de sangue. Devemos dizer que cabe à Igreja, após ouvir especialistas, dar seu parecer sobre o assunto, mas as lágrimas de si não são milagres. O fenômeno, via de regra, é o que a Parapsicologia chama de aporte (algo material – sólido ou líquido – atravessar locais fechados sem deixar vestígios da passagem), ou seja, lágrimas, sangue dos vivos ou outras coisas projetados na imagem, quadro ou estampa de Nosso Senhor, de Nossa Senhora, de um(a) santo(a), de um anjo ou mesmo de um ente querido falecido.
Outras vezes, imagens ou quadros exalam mel, óleo, suor humano etc. Geralmente se comprova a intervenção inconsciente dos vivos a menos de 50 metros do(a) santo(a) em foco. Afastado o (a) causador(a) do fenômeno, tudo, via de regra, cessa imediatamente. Se fosse milagre continuaria... Daí a cautela da Igreja para com esses e outros fatos semelhantes (cf. Pe. E. Friderichs, SJ. Caixinha de perguntas sobre religião e superstições. 9ª ed. Curitiba: Vicentina, 1999, p. 69).
[6] Alguns intérpretes dizem tratar-se de um só segredo em três partes, e outros de três segredos. Isso em nada muda a essência deste nosso trabalho.
[7] Perguntada pelo Cardeal Bertone, em 27/04/2000, se foi, realmente, Nossa Senhora quem indicou essa data, Ir. Lúcia respondeu que não. Ao contrário, ela foi acréscimo da religiosa por intuição própria, julgando que depois de 1960 a visão que tivera seria mais bem compreendida, embora deixasse a decisão interpretativa totalmente a cargo do Papa (cf. Pergunte e Responderemos n. 461, outubro de 2000, p. 438).
[8] Escreve a propósito Margarida Hulshof: “Logo se difundiu a crença de que Maria foi levada ao céu em corpo e alma, antecipando a ressurreição que nos aguarda a todos. Por não ter sido contaminada com o pecado, ela também não teria sofrido as consequências do pecado, que é a deterioração do corpo pela morte. O Dogma da Assunção Corporal de Maria foi definido oficialmente em 1950, pelo Papa Pio XII. Sua assunção difere da ascensão de Jesus porque este subiu aos céus por seus próprios meios, enquanto Maria foi levada por Deus. O dogma não define se Maria chegou a experimentar a morte, ou se passou ainda em vida para a glória celeste. Essa questão permanece em aberto. A maioria dos teólogos acha que, se Jesus passou pela morte, também Maria não poderia deixar de fazê-lo. É certo, porém, que seu corpo não sofreu a corrupção, e que ela já está na glória em corpo e alma diferentemente dos demais seres humanos, cujo corpo só ressuscitará no fim dos tempos.” (Conversando sobre a fé: as verdades em que cremos. Aparecida: Santuário, 2004, p. 96. Vol. 1; cf. também Catecismo da Igreja Católica n. 966).
[9] Sofrer com (cum + passio, passionis, no Latim) – nota nossa.
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Fonte:
http://refletindo7.blogspot.com.br/2015/06/um-oportuno-alerta-sobre-aparicoes-e.html
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