domingo, 16 de abril de 2023

1ª Família - Virtudes de Sacrifício

 


Nosso estudo será longo e abrangente.

Um verdadeiro itinerário de auto conhecimento e busca pela santidade.

Na foto acima está a estrutura da primeira família a ser estudada, meditada e posta em prática.

A partir daqui as postagens não estarão mais públicas, mas reservadas ao grupo de estudo.

Se quiser fazer parte, entre em contato com o Alessandro: t.me/alessandroger

Segue abaixo a lista das 12 famílias:

1ª Família Virtudes de Sacrifício

2ª Família Virtudes de Humildade

3ª Família Virtudes de Recolhimento

4ª Família Virtudes de Ingenuidade

5ª Família Virtudes de Pureza

6ª Família Virtudes de Caridade

7ª Família Virtudes de Paz

8ª Família Virtudes de Vencimento

9ª Família Virtudes Guerreiras

10ª Família Virtudes de Correspondência

11ª Família Virtudes de Ordem

12ª Família Virtudes Perfeitas




sábado, 15 de abril de 2023

003TVV - INTRODUÇÃO

 



INTRODUÇÃO AO ESTUDO DAS VIRTUDES

Verdadeiramente, o Senhor é admirável em suas obras. Na região infinita do espírito, não existem palavras para expressar seu poder, sabedoria, ternura e amor! (CC 13,5)[1].

Há uma perfeita união entre todas as virtudes, cujas conexões, como numa corrente, se unem sem ruptura até alcançar o céu.

Bendito mil vezes o Senhor, que, em tudo e aqui, de maneira particular, comunica-se por meio do sopro divino do seu Santo Espírito! (CC 13,5).

É tão formoso o campo das virtudes! Contemplamo-las em suas luzes deslumbrantes, em seus múltiplos matizes, a ponto de a alma encantar-se maravilhada, louvando a Deus, que vive entre elas e desfruta de seus distintos aromas!

Ninguém pense que isso seja ilusão ou devaneio. Pelo contrário, é uma realidade encantadora, que, ao ser tocada, abrasa o peito com o fogo santo do divino amor. (CC 13,4).

Ali, sim, há paz, ordem, tranquilidade e segurança! Fica-se tão longe do ruído e agitação do mundo e das criaturas! Tão recôndita é essa morada onde vive o Espírito Santo, que a alma não a encontraria, se Ele mesmo não a introduzisse nesse lugar! (CC 13,8).

O campo das virtudes é regado com o Sangue de Jesus, por isso é tão fecundo e suas flores e frutos imortais. A sombra da Cruz o protege, tão fértil e cheio de graça.

Nesse divino campo, o Espírito Santo cultiva a simplicidade, a inocência, o sacrifício, o recolhimento, a humildade, a obediência, a mortificação, a constância, a compunção e outras mil preciosas virtudes.

O Espírito Santo as produz e as alimenta. Fá-las crescer, desenvolver e frutificar. Colhem-se aqui os frutos da caridade, do gozo espiritual, da paz e da paciência. Aqui, é o lugar que agracia as almas com seus dons preciosos. Aqui, são conhecidas as riquezas da Cruz, os tesouros da paixão, o inestimável valor do sacrifício oculto e desinteressado. Nessa região onde habita o Espírito Santo, a alma, escondida e pura, escuta seus gemidos delicados, sua dulcíssima voz. É esse o lugar onde se deleitam Jesus e a alma: no harmonioso conjunto de todas as virtudes, onde reina o silêncio interior imperturbável, a paz da alma esvaziada de todo o próprio querer, que já não pensa nem pode pensar outra coisa a não ser o amar e o sacrificar-se pelo Amado. Aqui, vive, penetrante e profunda, a presença de Deus em altíssimo grau. Respiram-se a modéstia, a solidão, o recolhimento, que, em sua intimidade, paz e formosura, recebem abrigo, alento e vida do Espírito Santo.

Nessa tranquila quietude do divino campo das virtudes, a alma, esvaziada de tudo o que não é Deus, inclina-se e une-se intimamente a Ele. O divino Espírito deixa-se sentir, escutar e tocar pelo contato puríssimo com as almas cândidas e virgens. Nesse profundo silêncio da alma pura, arrebatam-se e enlevam-se os divinos amores. Aqui é o santuário da comunicação divina, do mais alto cume da união com Deus. Aqui, a alma, por meio da santificação do amor, somente respira e aspira a Deus!

Nessas alturas, o Espírito Santo - ó incomparável bondade! -- unindo-se e estreitando-se à alma pura, enfeitada de todas as virtudes, faz com que esta não pense, nem ouça, nem sinta, nem fale senão do Amado, com o Amado, pelo Amado e no Amado... não podendo ter mais movimento ou vontade a não ser o movimento e a vontade do Amado! Aqui, a alma, absorvida pelo Espírito Santo, começa a ver, diante de sua atônita mirada, outra infinita região de admiráveis segredos, guardados na Cruz. Cai, diante dela, o véu dos sagrados mistérios. Pasma, contempla, na intimidade do amor, a essência divina, a geração eterna, a felicidade de Deus, a própria comunicação do amor! Seu entendimento se enche de luz; sua memória fica suspensa. Sua vontade... Oh! Sua vontade já não lhe pertence, separa-se, aliena-se, confunde-se dentro daquele eterno fogo de caridade, onipotência e bondade!

Terminam aqui os divinos favores, que alcançamos percorrendo o caminho das virtudes? Oh, não! Pois Deus é infinito e reserva-nos sempre novos e inesgotáveis tesouros. O Espírito Santo introduz a alma pura, padecente adornada de toda virtude e cheia de graça, a moradas mais íntimas, verdadeiras antessalas do céu. Ali, através de um ténue véu, a alma parece contemplar o próprio Deus, seu calor, seu olhar, e compreender a verdadeira vida! Ali, a própria Divindade acalenta a alma com seu eterno esplendor. Ali, com maior perfeição se crê, espera e ama, embora afinal, dessas três virtudes teologais, só permaneça absorvendo as demais a caridade amorosa! Ama, ama, a alma, e nada mais sabe fazer a não ser amar; amar e desejar ardentemente, mergulhada num abismo de amor... nada mais que amar, e mais amar, sem cansar-se, nem fartar-se... todavia saciando-se com o fervoroso ardor da união... da atração... da semelhança com seu Deus e seu tudo...

Até ali, as sublimes virtudes conduzem as almas profundamente humildes, imoladas, puras, desinteressadas, modestas e obedientes.

Entre as virtudes, umas arrastam a alma em direção a Deus; outras O atraem até a alma pura. Algumas têm duas faces ou aplicações opostas, como a condescendência santa e a culposa. Dividem-se em grupos, famílias ou matizes, mas o amor, a pureza e o sacrifício representam a substância e os matizes divinos de todas. A pureza levanta-se majestosa entre todas as suas companheiras, como lírio puríssimo, açucena divina. Com sua fragrância especial, impregna, feito bálsamo, todas as demais. (CC 13,5)

A dor da Cruz, essa riqueza desconhecida, também impregna todas as virtudes, conferindo-lhes valor e vida sobrenatural. Sem a Cruz, não há de existir virtude alguma: substância divina de todas as virtudes; substrato de toda santa alma; escada rumo ao céu; laço de indissolúvel união entre Deus e a alma pura. Fez-nos felizes Jesus pela dor, mas por uma dor inocente, pela dor na pureza virginal, pela dor santa e imaculada, que todos havemos de imitar pela constante prática das virtudes.

E o amor? Com esse amor que abraça o imenso campo das virtudes, dando-lhes o ser e a vida, inflama-se o peito divino de Jesus, que, louco de amor, opera prodígios de humilhação e sacrifício em favor do homem! Sua alma puríssima é a gema do amor imolado. É o amor antídoto de todo pecado, vicio, paixão desordenada.

A alma que ama transfunde-se em todas as virtudes e as possui, nelas compenetrada. A alma que ama aniquila-se, humilha-se, oculta-se, morre, para viver em Deus e para Deus. A prática constante das virtudes leva a esse cume de perfeição, à identificação com a vontade divina, que é o escopo deste Tratado: a glória de Deus e a salvação das almas. (CC 13,8 ss.).


 

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DOS VÍCIOS

Mundo, Demônio e Carne

O mundo é um dos maiores inimigos da alma. Arrasta-a a muitos e muito grandes vícios. O mundo, o demônio e a carne controlam todos os vícios, tentações e pecados que Me ofendem.

Sendo o chefe dos inimigos de Deus, Satanás mantém a alma humana dividida, partilhando o seu domínio com o mundo e a carne. O demônio, cheio de ódio e malícia, impele as almas para a região da carne e da impureza, por meio de ardis, ciladas, emboscadas. Por sua vez, a carne lança suas redes e seus laços a seduzir as almas, presas pelo demônio e pelo mundo.

Trata-se de inimigos poderosíssimos, que atuam contra Mim e contra o campo divino das virtudes. Suas armas são conhecidas. Cada um as tem bem afiadas, cheias de secretos mil e traiçoeiras. Disparam contra as almas tiros certeiros, por vezes sem alarde, com enganos atrativos.

Desvendarei, aqui, as abomináveis astúcias de Satanás contra o mundo espiritual, tão lastimosamente enganado de muitas graves maneiras.

Para matar as almas ou ao menos dividi-las, entretê-las ou desviá-las da graça, retirando-lhes a perfeição, e a Mim a glória, o mundo inspira os seguintes vícios: sensualidade, dissipação, escândalo, leviandade, ócio, comodidade, delicadeza, calúnia, murmuração, difamação, respeito humano, vaidade, fragilidade, fraqueza, debilidade, condescendência, adulação, exagero, curiosidade, precipitação, imprudência, frivolidade, imprevisão, sensibilidade, susceptibilidade, inconstância, instabilidade, infidelidade, indiscrição, veleidade, injustiça.

O demônio controla diretamente estes vícios: soberba, inveja, astúcia, escrúpulos, turbamento, perturbação, inquietude, dúvida, hesitação, indecisão, hipocrisia, egoísmo, mentira, duplicidade, falsidade, baixeza, lentidão, ociosidade, cansaço, ira, cólera, vingança, rancor, ódio, traição, perfídia, orgulho, amor-próprio, pretensão, presunção, ostentação, altivez, afetação, covardia, subterfugio, vileza, ocultação, premeditação, burla, sarcasmo, fingimento, ingratidão, falta de mortificação, impaciência, acrimônia, dureza, ruindade, desobediência, fraude.

A carne controla estes outros vícios: luxúria, impureza, malícia, volúpia, imodéstia, licenciosidade e suas consequências, obstinação, confusão, insensibilidade, insensatez, dúvida, ilusão, engano, frieza, tibieza, indiferença, desânimo, impenitência.

O vício da desordem abarca a todos os demais, porque habita no coração de Satanás, autor de todos os vícios.

Apesar dessa subdivisão, cada inimigo capital, a saber, o mundo, o demônio e a carne, não se limita a cuidar somente do seu reduto. Pelo contrário, os três, unida e separadamente, trabalham com o mesmo fim de perder as almas e roubar a Minha glória. Conhecem os efeitos que cada vício causa no coração. Sabem quantas almas arrasta consigo o mundo, por meio dos vícios de sua predileção. O mundo lança, em seu campo, redes chamativas multiformes com que cativa as almas desavisadas, as quais seduz e envenena, tornando-as suas.

O demônio e a carne, embora de distintas maneiras, agem juntos para um mesmo pérfido fim, que já expliquei e que as almas hão de conhecer para o próprio bem.

Felizes os corações que se preservam de tais males e que, abandonando os vícios, adentram no belo campo das virtudes, à sombra do sacrifício e da dor, isto é, da preciosa Cruz, que esconde em seu íntimo a doçura e as maiores delícias que pode desejar o coração humano. (CC 15,199-206).



[1] Beata Maria Concepción Cabrera de Armida (Conchita), Diário espiritual de uma mãe de família, São Paulo, Katechesis, 2020. A sigla CC refere-se ao título original dado por Conchita a seu Diário, Cuentas de Consciencia. (NdT)





Amanhã esclarecerei sobre a continuidade desse estudo somente pelo grupo de estudos.

sexta-feira, 14 de abril de 2023

002TVV - PRÓLOGO

 




 

Aos Noviços Missionários do Espírito Santo

"Aprende onde se acha a virtude" (Baruc 3,14)

 

Filhos meus, muito amados em Jesus:

Na questão 55 da primeira parte da segunda seção da Suma, São Tomás nos apresenta um duplo tratado em que considera, de forma geral, virtudes e vícios.

Nas questões 55-60, o Santo Doutor trata da essência das virtudes, de suas divisões, causas, conexões e igualdade. Depois, nas questões 61-89, estuda os vícios em sua natureza, diferenciando-os, comparando-os e detendo-se em suas causas.

Até a questão 122, o Santo Doutor segue seu importantíssimo estudo de cada virtude particular e, com ciência profunda e gênio incomparável, trata da ciência das virtudes, tarefa árdua do ponto de vista teológico.

Este Tratado sobre as virtudes e os vícios, que estudareis durante vosso noviciado, tem um caráter bem diferente. É, direta e essencialmente, voltado para a prática. Todos os seus preciosos ensinamentos são integralmente impregnados pelo espírito da Cruz. Isso não é de se estranhar, pois este trabalho foi extraído, palavra por palavra, daquilo que, em minhas conferências, chamo de "manuscritos da fundação".

O Tratado sobre virtudes e vícios brota do papel sem uma ordem prévia, fruto de muita paciência, amor e interesse, para o benefício dos noviços das Congregações.

Observando a semelhança de algumas virtudes, foi possível dividi-las em doze famílias, sem que esse número tivesse sido escolhido previamente. Vêm-nos à mente estas palavras do Apocalipse:

"No meio de sua praça e às duas margens do rio, achava-se uma árvore da vida, que produz doze frutos, dando cada mês um fruto, servindo as folhas da árvore para curar as nações" (Apocalipse 22, 2).

Depois das virtudes, fixamo-nos nos vícios correspondentes. A esses também foi possível dividir em doze famílias.

Assim, ficou pronto o Tratado que apresento-vos agora. Explicarei, prática e cuidadosamente, a cada mês do vosso noviciado, uma das doze famílias de virtudes e de seus vícios contrários.

Quanto à ordem que escolhemos para trabalharmos as diferentes virtudes, pensamos começar pelas Virtudes Gerais (cfr. São Francisco de Sales, < Introdução à Vida Devota, 3ª parte, cap. I), isto é, pelas que são de uso mais frequente e cuja influência tem mais efeito no conjunto do comportamento humano. Pareceu-nos evidente que devêssemos começar pelas virtudes que ocupam um lugar mais proeminente no dia a dia. São as mais práticas. Portanto as mais importantes e essenciais.

É mais natural e lógico começar com as virtudes do sacrifício, de nuance especial.

Vós estais aqui para "arrancar vícios e plantar virtudes" [N.E.: expressão usada pela Beata Conchita]. Para que aproveiteis melhor este estudo, parece-me necessário recordar brevemente alguns dados teológicos sobre as virtudes e os vícios. Procurarei ser claro. Em primeiro lugar, veremos o que é uma virtude, o que se entende por ato de virtude e como se cultivam as virtudes.

Nos livros de moral e de espiritualidade, o termo virtus pode ter três significados:

Pode significar a prática do bem em geral: o homem pratica a virtude quando realiza o bem sob todas as formas.

Pode significar a prática de um bem particular, e nesse sentido inteiramente objetivo se distinguem várias virtudes diferentes, como é o caso da virtude da fé, da esperança e da caridade, entre outras.

Por fim, em um sentido totalmente subjetivo, pode significar aquela força pessoal com que fazemos o bem.

Essa última acepção da palavra 'virtude' corresponde à sua etimologia. Virtude provém da palavra latina virtus, que significa força.

De fato, toda virtude é uma força, mas nem toda força é uma virtude. Costuma-se aplicar o termo 'virtude apenas àquelas forças espirituais permanentes que tornam o homem capaz de realizar o bem. Digo 'forças espirituais, porque a virtude torna fortes não os corpos, mas as almas. A virtude é uma força moral. Digo permanentes, porque essas forças não se consomem nos atos que realizam e mantêm a capacidade de produzir novos atos. A isso, em filosofia, dá-se o nome de hábito (cfr. Ami du Clergé, 1920, p. 33). Por fim, digo forças que tornam o homem capaz de realizar o bem, pois esse é o objeto da virtude, que é o oposto do vício. Virtude e vício são dois hábitos contrários, um oposto ao outro, um inimigo do outro.

O padre Thomás Pegues, O. P., em seu último e admirável Comentário à Suma de São Tomás (Tomo VII, p. 2), diz que, entre todas as distinções que podemos fazer dos hábitos, a mais essencial é a que diferencia em hábitos bons e hábitos maus.

Hábito é, essencialmente, uma disposição para aquilo que convém ou que não convém. Toda disposição ao que convém, é boa; toda disposição ao que não convém, é má. Disso segue que, ao estudar os hábitos segundo suas duas espécies, a espécie dos hábitos bons e a dos hábitos maus, este Tratado deverá conter duas grandes divisões: os hábitos bons que movem o homem virtuoso e os hábitos maus que movem o homem corrupto.

São Tomás trata primeiro das virtudes (2a., 2ae. Q.55 a 67) e, em seguida, dos vícios (ibid., q. q. sq.). Este Tratado coteja, frente a frente, virtudes e vícios, dando ênfase à sua contraposição.

O Espírito Santo recomenda que aprendamos onde está a virtude", a saber, em que ela consiste, de onde vem, como se põe em prática e que vantagens oferece.

Há dois tipos de virtudes: as naturais e as sobrenaturais.

As virtudes naturais são virtudes puramente humanas. Às vezes, o homem as recebe ao nascer. Mais frequentemente, adquire-as graças a seus próprios esforços. Por isso, os teólogos as designam com o nome de virtudes adquiridas. Essas virtudes são reguladas pela razão.

As virtudes sobrenaturais pertencem à ordem da graça. Ninguém as possui ao nascer. Tampouco são adquiridas pelo esforço. Provêm diretamente de Deus. Por isso, são chamadas de virtudes infusas. Santo Agostinho diz que "a virtude é uma obra de Deus em nós. Virtus est bona qualitas quam I Deus in nobis operantur" (Lib. II De lib. Arbitrio).

A graça santificante nos une a Deus, associa-nos à sua vida, faz com que Deus viva em nós: "Se alguém me ama, meu Pai o amará, viremos a ele, e nele faremos morada".

Todo ser vivo possui um organismo, isto é, um conjunto de órgãos ou de faculdades com que se manifesta e produz atos para fora de si mesmo. As virtudes sobrenaturais são os órgãos ou faculdades ativas próprias da vida divina e humana, que recebemos pela graça. Constituem o modo, a forma, pela qual Deus nos comunica sua força.

As obras nas quais empregamos as virtudes sobrenaturais são como o indicativo da vida divina em nós. São atos divinos e humanos que possuem um valor tão grande que só Deus pode ser sua recompensa.

Graças a essas considerações, compreendemos melhor como as virtudes sobrenaturais, em razão de seu caráter, origem e poder, elevam-se muito acima das virtudes naturais.

Existe uma correspondência entre virtudes naturais e sobrenaturais. Dito de outro modo: toda virtude sobrenatural corresponde a uma virtude natural, à qual pressupõe, completa e transforma. Também representa uma energia divina que trabalha em simbiose com uma energia humana. As duas virtudes correspondentes, a humana e a divina, têm o mesmo nome. Assim, existem duas humildades, duas prudências, duas temperanças: as de cima e as de baixo. Disso resulta que podemos praticar e, frequentemente, de fato praticamos, ao mesmo tempo, as duas virtudes correspondentes.

A graça santificante é um princípio de vida. As virtudes sobrenaturais são como que o organismo desse princípio de vida. Estão intimamente unidas à graça santificante e não podem separar-se dela. Ao recebermos a graça santificante, recebemos também as virtudes sobrenaturais. Enquanto estamos com a graça santificante, conservamos essas virtudes. Ao pecarmos gravemente, perdemos a graça santificante e, consequentemente, as virtudes sobrenaturais. A fé e esperança são as únicas que podem permanecer na alma sem a vida da graça. A alma em pecado mortal, porém, ao cair na incredulidade e no desespero, perderá também as virtudes da fé e da esperança.

Deus pode devolver aos pecadores as virtudes perdidas, e de fato as devolve, junto com a graça santificante, quando recebem Seu perdão. Note-se que as virtudes naturais, à diferença das sobrenaturais, não morrem por causa do pecado. Todo ato mau, obviamente, enfraquece-as, assim como todo ato bom as fortalece. Entretanto o pecado não chega a destruí-las.

As virtudes sobrenaturais crescem ao crescer a união com Deus. Tudo o que pode estreitar essa união (a oração, a comunhão) concorre para o aumento das virtudes. Contudo, o caminho mais eficaz e prático de crescer nas virtudes consiste no exercício efetivo e habitual das que se quer adquirir em toda a sua plenitude. Quanto mais as praticarmos, tanto mais as fortaleceremos.

As forças naturais são bem distintas das forças sobrenaturais. As primeiras se gastam pelo muito uso; as segundas se fortalecem pela prática. As virtudes naturais se consomem; as virtudes sobrenaturais nunca se esgotam.

Depois de ter dado uma ideia resumida do que seja a virtude, diremos, brevemente, a seguir, o que seja o ato virtuoso.

Chama-se ato de virtude ou virtuoso o ato que põe em prática a virtude, A iniciativa de um ato de virtude natural vem da razão. A razão concebe as motivações do ato, as propõe ao espírito, e assim desperta as exigências da consciência e determina as resoluções da vontade. As motivações dessa espécie de ato são sempre naturais. Por isso, o homem pode descobri-las pela luz da razão.

A iniciativa de um ato de virtude sobrenatural vem de Deus e não de nós. Deus nos dá a ideia do ato de virtude por meio das suas inspirações e toma parte na realização do ato por meio do que chamamos de graça atual. Essa inspiração e participação divina sempre orientam o ato virtuoso a um fim sobrenatural.

Em razão dos deveres de estado, dos afazeres do dia a dia, das penas da vida, das relações com o próximo, das tentações e, sobretudo, da ação do Espírito Santo na alma, nunca faltam oportunidades para o exercício dos atos virtuosos. Isso deve nos alegrar, porque dos atos virtuosos surge o merecimento, que é o direito a uma recompensa. O trabalho do operário merece um salário. Os êxitos do estudante merecem louvores. Da mesma maneira, todo ato virtuoso sobrenatural também merece uma recompensa. Esse direito provém das promessas de Deus e da excelência do ato virtuoso em si mesmo. O ato virtuoso sobrenatural é um ato de ordem divina que, por isso mesmo, possui um valor divino.

O merecimento de um ato virtuoso pode variar. Seu valor pode ser aumentado pelas circunstâncias nas quais é exercido. Entre as circunstâncias que podem aumentar seu valor, temos: as dificuldades que é necessário vencer para praticá-lo, o grau mais ou menos elevado da graça de quem pratica o ato virtuoso, a estatura do amor devotado a Deus, a excelência das intenções da pessoa virtuosa.

Se me perguntassem o que se deve fazer para que um ato de virtude seja sobrenatural e tenha, por isso, mérito, lhes responderia que depende da intenção ou vontade de exercer o ato virtuoso. Essa intenção pode ser explícita, quando alguém se propõe, formalmente, a exercer tal ou qual virtude sobrenatural. É implícita, quando, sem haver uma intenção expressa, o ato virtuoso sobrenatural é exercido com a devida advertência, como o ato religioso; ou quando oferecem-se a Deus atos não religiosos, como o trabalho, os sofrimentos etc.

É importante adquirir muitos méritos pela prática das virtudes sobrenaturais. O mérito é a moeda com a qual se compra os favores e as recompensas divinas. Torna fecunda a existência e faz com que produza frutos abundantes. Nos propicia crédito diante de Deus. Faz jus às suas graças e à glória do céu. Poderíamos dizer que sem mérito não há salvação.

Conforme o convite da Sagrada Escritura, expliquei-vos aqui, filhos que ridos, "onde está a virtude" e as vantagens proporcionadas pelo ato virtuoso, para inspirar-vos o mais vivo desejo de estudá-las e o propósito de adquiri-las mais facilmente. Diz o Espírito Santo que, quando alguém sabe onde está a virtude, sabe "onde se encontram a vida longa e a felicidade, o fulgor dos olhos e a paz" (Baruc 3,14).

Para ficar mais claro e ajudar a memória a rever mais facilmente o conjunto de cada família, fiz um quadro sinótico de cada família que encabeça o texto. Prestai muita atenção às notas que acompanham o primeiro quadro (Virtudes de Sacrifício), necessárias para sua compreensão, e dos demais quadros.

Sobre os vícios, aqui, tenho pouco a dizer. A seu tempo terei ocasião de tratar amplamente de cada um deles. Talvez, mais do que no estudo das virtudes, tereis modo de conhecer-vos profundamente no estudo dos vícios. Há em cada parágrafo uma psicologia profunda, um conhecimento completo do pobre coração humano, de suas misérias, debilidades e imensurável malícia.

Meus filhos amados, do estudo dos vícios advêm-nos uma forte repulsa a tudo o que é mau, uma grande desconfiança das nossas forças, um maior discernimento para defender-nos e desvendarmos as tentações do demônio.

Pelo estudo das belas virtudes celestiais, reflexos vivíssimos da santíssima humanidade de Jesus, lograreis as mais firmes resoluções de obter esses bons hábitos tão preciosos. Praticando as virtudes sólidas, como a obediência, a caridade, a humildade e o sacrifício, encontrareis o verdadeiro caminho da perfeição e da santidade.

 

Filhos amados, nunca percais de vista a obtenção da preciosa "atenção amorosa em Deus", da qual mil vezes vos falei, e que é a própria vida contemplativa. Ela vos ajudará na prática das virtudes mais elevadas, unindo vossas vidas a Jesus e Maria, pela santíssima vontade do Pai e a ação do Espírito Santo, o amado de vossas almas.

No estudo paralelo das virtudes e da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, ao qual vos aplicais diariamente, por dois anos, vereis como, em nosso modelo amabilíssimo, encontram-se as virtudes em seu grau mais perfeito.

Por intermédio desse estudo, unireis, assim, em vosso coração, a teoria e a prática, o aprendizado técnico e o exemplo mais perfeito, e vos conformareis à imagem do perfeito missionário do Espírito Santo.

Cada um, pelos inúmeros motivos que já lhe foram explicados, sabe o valor de entrar na intimidade com Jesus, a fim de que o Divino Rei viva, reine Le derrame suas graças no coração de seus filhos prediletos.

Vosso pai, que, verdadeiramente, vos quer santos e suplica a Jesus, por intermédio do dolorosíssimo Coração de Maria, que vos torne santos segundo a Sua vontade.

Noviciado do Espírito Santo e do Coração de Maria.

Tlálpan, sexta-feira 18 de março de 1921.

Festa das Dores da Santíssima Virgem Maria.

 

FÉLIX DE JESÚS ROUGIER,

Presbítero.

Mestre de noviços.




Amanhã publico a introdução...

quinta-feira, 13 de abril de 2023

001TVV - TRATADO PRÁTICO DOS VÍCIOS E DAS VIRTUDES - Notas e Prefácio

 



Estou estudando de forma profunda esse livro usando o método da lectio divina.

É um tratado de santidade.

Todos deveriam fazê-lo. E com urgência.

Acompanhe fielmente e faça a sua leitura, meditação, resumo e propostas concretas de pôr em prática tudo o que o próprio Senhor ensina nesse livro à sua filha Beata Maria Concepción.

Faça uma profunda lectio divina com cada capítulo. Só assim para meditar com fruto e forçar-se a pôr em prática as virtudes. 

Sem lectio é perda de tempo conhecer tais riquezas...


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Começo com as notas introdutórias do livro:


NOTA DO EDITOR

Os textos contidos no presente Tratado sobre as virtudes e os vícios foram extraídos de escritos inéditos da Serva de Deus Concepción Cabrera de Armida, ordenados de forma sistemática e impressos pelo padre Félix de Jesús Rougier em edição privada de 1921.

Esta reedição contém levíssimas correções que deixam o texto original sem alterações substanciais, tal qual saiu das mãos e do coração de ambos os servos de Deus.

Acrescentaram-se citações a fim de facilitar o acesso aos escritos originais.

México, D. F., janeiro de 1976.

 

IMPRIMATUR

Maximus, Episc. Derbensis Vic. Gen. - Aux. Archiep. Mexican Die 15 martii 1921

 

ADVERTENCIAS PRELIMINARES

1. Este livro foi escrito pela Serva de Deus Concepción Cabrera de Armida. A maior parte autora passou foi redigida no ano de 1900, durante os seis meses em que a à cabeceira da filha gravemente enferma, com as interrupções que se fizeram necessárias. Apenas alguns trechos são de anos anteriores. A sistematização do livro foi realizada integralmente pelo Servo de Deus Félix de Jesús Rougier, a partir dos escritos inéditos de Concepción Cabrera de Armida.

2. A redação do livro tem a forma de um ditado de Nosso Senhor, que se comunicou de diferentes maneiras à sua Serva, mas não como o ditado de um mestre para com seus alunos nem como o ditado de um advogado para com sua secretária. (Cfr. Ignacio Navarro, Itinerario espiritual, Apêndice 1,

3. Se, nos autores dos livros bíblicos que escrevem sob a inspiração do Espírito Santo, de cada um ficam impressos a personalidade, o temperamento, o ambiente, a cultura, a época e as demais influências a que estão sujeitos, com maior razão o instrumento humano deixa sua marca visível em qualquer outro tipo de escritos, ainda que de origem divina.

4. A linguagem da Serva de Deus não é a linguagem técnica dos teólogos, mas a linguagem simples, por vezes imprecisa, que usamos em nossa conversação cotidiana. Por exemplo, quando a autora diz: "pode se converter em vício ou até em pecado", certamente um teólogo diria a mesma coisa de uma outra maneira.

5. Conchita escreve com grande simplicidade, não como uma professora que ensina, mas como uma mãe que se dirige a seus filhos. E é dessa forma que deve ser lida, até porque, de fato, todas estas páginas tiveram como destinatários imediatos suas filhas do Oasis e os futuros Sacerdotes de la Cruz.

6. O objetivo destas páginas é ajudar a progredir na vida espiritual aquelas almas desejosas de caminhar seriamente rumo à perfeição, revelando as insidias, os disfarces e as táticas enganosas do inimigo. Ao mesmo tempo, mostrar os remédios mais apropriados para combater vícios, pecados e defeitos, e os meios mais eficazes para avançar nas virtudes.

À primeira vista, esse projeto parece-nos demasiado complexo em razão dos muitos detalhes que o compõem. Contudo, o duodécimo e último grupo de virtudes perfeitas permite-nos enxergar a unidade e a sobriedade da vida espiritual centrada na caridade e nas virtudes teologais. Todo o resto está direcionado a remover obstáculos no caminho do amor ou a oferecer meios que, à luz da fé na Cruz de Cristo, adquirem uma eficácia divina.

Para tanto não é de se estranhar a linguagem por vezes severa com que se condenam alguns vícios, pecados ou imperfeições, pois, na realidade, são obstáculos muito sérios ao progresso espiritual. Tomar estes conselhos de perfeição num sentido apenas jurídico ou moralista de lícito ou ilícito, seria uma falta de apreço pela doutrina aqui exposta e um erro grave, fonte possível de escrúpulos e desânimo. Trata-se aqui, na verdade, de um caminho extremamente rico em pormenores, sutilezas e finuras e que nos eleva à santidade.


 

PREFÁCIO À PRIMEIRA EDIÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA

 

Tratado Prático dos Vícios e das Virtudes

Concepción Cabrera de Armida

 

O presente tratado foi escrito à três mãos (cf Advertências Preliminares): Nosso Senhor quem dita, Conchita que escreve e Pe. Félix que sistematiza conforme a teologia católica de sempre. E esse movimento é que, junto à causa canonisationis, que é um fato dogmático, faz perceber a autenticidade dos escritos e a veracidade dos dons místicos de Concepción Cabrera de Armida: em nada colidem entre si essas duas vias a da alma privilegiada e a da autoridade da Igreja, antes, elas se confirmam e se iluminam mutuamente.

Conchita, como era conhecida por todos, foi uma leiga mexicana e mãe de nove filhos. Nasceu em San Luis Potosí em 8 de dezembro de 1862 e morreu na Cidade do México em 3 de março de 1937. Além de esposa, mãe e viúva, fundou as Obras da Cruz, fruto, além dos pedidos de Nosso Senhor, de sua espiritualidade profundamente devotada aos sacerdotes. As obras da Cruz, que constam inclusive de congregações masculina e feminina, tem por fim rezar pelos sacerdotes e auxiliá-los de todas as formas possíveis.

Podemos dizer que esta é a razão mais profunda deste tratado: a santificação dos sacerdotes - mas não sem os leigos, como o próprio testemunho de Conchita deixa claro. E aqui é necessário remontar ao providencial encontro de Conchita com o Padre Félix Rougier (1859-1938). Tão marcante e determinante foi esse encontro que o confessionário onde ele ocorreu encontra-se conservado como relíquia. Dali por diante se fortalecerá uma amizade espiritual entre ele e Conchita, própria das almas chamadas à uma graça particular de santificação.

Padre Félix, um sacerdote que buscava a perfeição, ao encontrar-se com Conchita tem sua vida ainda mais elevada. E, além da fundação dos Missionários do Espírito Santo, terá o privilégio de organizar os escritos de Conchita, ditados por Nosso Senhor, de modo que fossem instrumento de formação para os noviços da nova congregação. Mas não podemos esquecer que isso é fruto de um encontro entre ambos, uma leiga e um sacerdote, ambos chamados a um alto grau de perfeição. Assim fica claro que o presente tratado, como será possível perceber também na sua leitura, não é destinado apenas aos sacerdotes, mas também aos leigos chamados à perfeição.

Os fundadores, em vista do carisma da paternidade espiritual, não têm outro desejo senão que seus filhos espirituais progridam na perfeição cristã, e essa é a razão dos escritos de Conchita para além do privilégio das graças místicas que ela abundantemente e extraordinariamente recebeu.

Pe. Félix teve a delicadeza de no Prólogo, dirigido aos noviços, elaborar uma excelente síntese sobre as virtudes tratadas por Conchita e dizer que ali estava um programa para o noviciado, programa este banhado no carisma da "ordem" da Cruz. Aliás, muitas das virtudes terão uma união perfeita e fonte no Mistério da Cruz. As virtudes, dirá o sacerdote, são as "riquezas da Cruz. A Cruz desmascara os vícios. É uma trincheira que Satanás jamais traspassa. De modo que relacionar as virtudes ao mistério da Cruz significa dizer que toda virtude tem sempre qualquer coisa de sacrifício, como que a dar-lhe o quilate, e elevá-la ao sobrenatural pela via da Paixão. A Cruz é o fio de ouro que traspassa todo este Tratado das Virtudes.

Aspectos que convém destacar acerca das virtudes e dos vícios

O Tratado não apenas explica o que seja cada virtude, mas a sua raiz e correlação com outras virtudes, mostra ainda suas consequências nesta vida e na outra. As virtudes estão agrupadas em famílias que também são chamadas constelações a fim de se entender melhor o quanto estão relacionadas, por isso, a primeira virtude de cada família, pode ser entendida como um astro em torno ao qual orbitam satélites. Isso mostra que uma virtude nunca está ou se desenvolve sozinha. Algumas inclusive se entrelaçam tão fortemente que só podem ser distinguidas por um ou outro detalhe.

O mesmo é possível constatar a respeito dos vícios, cujas famílias ou constelações antagônicas são postas após a descrição das respectivas virtudes: suas raízes, desenvolvimento e consequências, a que virtudes se opõem bem como o remédio para saná-los. Conchita não se detém às consequências dos vícios nesta vida, que já são terríveis, mas anuncia as consequências na outra vida. Cito apenas como exemplo o castigo denominado especial" para um vício tão comum nos dias atuais que é o respeito humano. Disse Nosso Senhor:

"Tenho um castigo especial para o respeito humano. Satanás lança num fogo voraz as almas que no mundo arrebatou dos Meus braços, fazendo com que, afastando-as do Meu Coração, se envergonhassem de Mim, começando pelo respeito humano até chegarem ao ódio e à malícia extrema contra Mim (p.95).

A precisão de Conchita, como não seria menos, é cirúrgica em relação ao modo como se manifestam as virtudes e vícios, no modo como se relacionam e ao ponto que podem chegar. Há virtudes (assim como vícios) ligados distintamente à alma e ao corpo como é o caso das virtudes da pobreza e da mortificação, elas encontram ressonância interior e exterior.

Há virtudes mais refinadas, são as que ela denomina espirituais. O termo "espiritual" é utilizado ao lado de uma virtude ou vício para fazer notar uma sua sutileza ou cristalização, sendo que no caso da virtude espiritual", será sempre mais enraizada e elevada, e já referente ao vício "espiritual", apesar de também, ao seu modo, enraizado, será sutil e dissimulado, aninhado e escondido.

Aos vícios, portanto, ela desmascara todas as artimanhas possíveis de sua introdução numa alma começando da psicologia diabólica: Satanás, diz ela, colore os vícios "menores" ou mais discretos para levar a outros maiores e escandalosos. Conchita descreve várias vezes o ciclo vicioso que se forma entre o vício, o corpo e a alma. E mesmo agindo nas potências inferiores da alma, o Diabo visa, através do vício, o espiritual, não só por ser ele uma criatura espiritual, mas porque é o que mais glória a Deus dá, quando está devidamente ordenado a Ele. Por isso o vício é um engano de si mesmo em relação à realidade e a Deus.

Perigosíssimos, alguns vícios chegam até mesmo a formar o que ela chama de segunda natureza, isto é, infectam todas as operações como se lhes fossem conaturais. Por isso há vícios que precisam do auxílio da graça não só para serem desaninhados e vencidos, mas inclusive, descobertos; há vícios que perdurarão até o fim, como a vaidade que perseguirá o homem "até o túmulo” (p. 102). Em ambos os casos, requer-se auxílio especial da graça para vencer ou combater até o fim. Serão justamente as virtudes descritas por Nosso Senhor a pôr luz e contrastar toda psicologia maliciosa por detrás dos vícios, e colocar à disposição do homem chamado à perfeição um arsenal de graças seja para a vitória que para o combate até o fim.

É impressionante notar a ordem pedagógica com a qual as famílias de virtudes e de vícios aparecem dispostas. Primeiro as de sacrifício, como que a dizer que não há virtude sem sacrifício assim como a destruição dos vícios exige sacrifício. Já as de humildade vão encontrar seu brilho no Mistério da Encarnação, com o qual, apesar do chamamento à Cruz, Conchita teve uma estreita relação. E o que é a Encarnação senão o caminho da Cruz! É a Encarnação que dá o quilate da família da humildade, cujas virtudes que são divinizadas ao unirem-se no Coração do Verbo Encarnado. Nessas virtudes o sobrenatural chega a parecer natural quando trata-se de um grau eminente sublime de virtude. E assim sucessivamente para cada família como que a construir um edifício sólido e robusto para as virtudes e podar ou cortar pela raiz os vícios.

O impacto da leitura deste Tratado na vida

Ao elevar seus filhos a honra dos altares a Igreja está dizendo que não são mais patrimônio particular desta ou daquela família, apesar de serem a sua herança, mas passam a ser uma riqueza a qual podem e devem ter acesso todos os fiéis. Assim sendo o Tratado das Virtudes torna-se um tesouro inestimável a todos os que dele quiserem se enriquecer na batalha contra os vícios e no desenvolvimento das virtudes. Por isso gostaria de dizer algumas coisas importantes dado belíssimo trabalho da editora Katechesis ao colocar em todas as mãos possíveis uma obra como esta:

1. Trata-se de uma leitura indispensável aos que se sentem chamados à perfeição cristã. Conchita escreve para quem deseja estreita vida de perfeição e se lançar em tal progresso, não obstante a marca da Cruz, isto é, dos sacrifícios e dificuldades. A leitura deste Tratado é, portanto, um chamado de Deus, um dom da graça. E o leitor esteja preparado para uma verdadeira "tomografia" do seu estado de alma e da vida passada assim como para um verdadeiro derramamento de luzes para a vida futura.

2. Este Tratado é uma abundante despensa para a meditação quotidiana. O número 12 no qual se agrupam as famílias de virtudes é ainda mais sugestivo, dado que pode se estabelecer a leitura, a meditação e o estudo de cada família para cada mês do ano. O que é facilitado pelos quadros das famílias de virtudes e vícios conforme cada capítulo. Da meditação, Conchita escreve ser: o para raio do pecado, princípio para ordenar a vida e defesa dos ataques do Inimigo. E unida à oração, a meditação se torna uma torrente de bênçãos, pois quem não para de rezar não para de receber graças. Eis o caminho da contemplação mística.

3. Um instrumento formidável para a educação para as virtudes. Sacerdotes, religiosos e leigos, casados ou celibatários, educadores (pais, catequistas, professores) tem ao seu dispor um formidável arsenal para educar-se nas virtudes e educar a outros nesse caminho tão indispensável e para o qual fomos criados, pois o fim mais excelente da educação da vontade é a sua identificação.com a vontade divina.

4. Um excelente exame de consciência. O progresso nas virtudes não está apenas em amar o bem, mas em odiar ao mal. A virtude precisa ser conhecida para ser amada, assim como o vício precisa ser manifesto na sua malícia para ser odiado e combatido. Ora, uma leitura atenta e meditativa deste Tratado, além de dar um conhecimento das virtudes e dos vícios, pode tornar-se num minucioso exame de consciência seja para auxiliar no Sacramento da Reconciliação, seja para a direção espiritual. E, como não poderia deixar de ser, também servirá para a análise das graças de Deus, pois já o fato de sentir-se chamado a uma vida mais perfeita não pode ser outra coisa senão um manancial de graças dispostas por Deus a fim de ajudar a alma que assim deseja. Este tratado será uma "tomografia" da alma ao que dele souber dispor.

5. Um instrumento que não pode prescindir da graça. A graça tem papel primordial no progresso das virtudes e no quebrantamento dos vícios. Por isso, à medida que a leitura avança é muito importante que ela se transforme em oração, vida sacramental e propósitos.

Por fim, mas não menos importante, e sim como um coroamento, o leitor notará que a Santíssima Virgem estará presente tanto nas virtudes mais simples quanto nas mais elevadas. Isto significa que Ela está no começo e no fim, isto é, com os iniciantes e os avançados. Ambas as categorias de almas precisam dEla, porque Nossa Senhora não só possui todas as virtudes em elevadíssimo grau, mas as tem para distribuí-las e ornar seus devotos. E Nossa Senhora as quer distribuir. Mas é necessário pedir!

Certamente as disposições de alma que forem surgindo durante a leitura deste Tratado e que forem sendo transformadas em pedidos à Virgem Santíssima, e falo com toda segurança: as letras desse Tratado, das folhas de papel serão impressas nas almas que assim o fizerem: lendo e rezando, rezando e lendo. E foi justamente para esse fim Nosso Senhor ditou, que a Beata Conchita escreveu e o Venerável Pe. Félix organizou este belíssimo Tratado. E que agora a Editora Katechesis, por sua vez, faz chegar até o leitor de língua portuguesa.

Deus abençoe sua leitura e o faça progredir nas virtudes cada vez mais!

Pe. Alexandre L. Alessio, CR

Março de 2021.





Amanhã publico a continuação...

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Pressupostos do Aprendizado 17



- Oitava Parte -



41. A humildade, considerada em si e nas Escrituras.

Discorremos até aqui sobre o que é a humildade examinando-a em si mesmo, procurando deduzir o que ela seja partindo de considerações de sua própria essência, à luz das indicações que nos foram deixadas como linhas mestras nos escritos de Hugo de S. Vitor. Dissemos que é uma disposição da mente proveniente da consciência de sermos uma criatura e não um deus. Se esta disposição é verdadeiramente habitual, algo que não surge apenas quando pensamos no assunto de modo abstrato, afastados da interferência de nossos sentimentos, de nossas ações ou mesmo de outras considerações teóricas que poderiam contradizê-la, de modo que não apenas saibamos ser criatura nestes momentos especiais, mas continuamos conscientes de sê-lo em todas as circunstâncias de nossa vida e de modo que nossas ações, sentimentos e demais pensamentos não só sejam coerentes com esta consciência mas também derivem dela, então podemos dizer que somos humildes.

Considerada em si mesmo, portanto, a humildade não é algo que se pratique mediante a obediência a determinadas regras de conduta. Ela não consiste em algum determinado modo de agir, mas é, em sua essência, apenas a posse habitual da clara consciência de sermos uma criatura e das conseqüências que isto implica. A humildade não é, em sua essência, uma regra de conduta ou um hábito de conduta, mas a consciência permanente de uma verdade.

A consciência desta verdade, porém, irá se manifestar de uma inumerável multiplicidade de maneiras conforme o meio ou as circunstâncias em que o indivíduo que a possui vier a se encontrar. As manifestações da humildade são, pois, impossíveis de serem enumeradas porque são tão infinitas quantas são as circunstâncias possíveis do agir e do viver dos homens. Ela se manifesta de modo diverso no cientista, em sua constante procura pela verdade científica; no juiz, ao dever sentenciar com autoridade sobre a aplicação da lei, ou em um advogado, ao aceitar a defesa de seu cliente; no professor, ao ter que posicionar-se sobre como e para onde estará conduzindo seus alunos; no médico, de cujo proceder depende a vida e a morte dos que lhe são confiados; no sacerdote, diretamente imerso no sagrado; na mãe de família, que tem diante de si a lhe exigir uma resposta, na pessoa de seus filhos, uma realidade muito mais complexa do que a que lhe seria apresentada por qualquer outro estranho e adulto. A humildade também se manifestará de modo diverso no cristão, diante do qual a graça e a Revelação descortinam realidades mais profundas do que as que podem ser apreendidas apenas pela luz natural da razão. Diante de todas estas circunstâncias podemos nos posicionar agindo como se fossemos dotados de atributos divinos ou com a clara consciência de sermos apenas uma criatura finita, inferior aos deuses, igual a nossos semelhantes, carentes de virtude e conhecimento, e também da graça.

Sejam quais forem, porém, as realidades específicas com que qualquer homem possa se defrontar, ele não poderá, todavia, esquivar-se de ter que responder com uma posição pessoal sobre como irá se colocar diante de Deus, ou pelo menos diante do cosmos que lhe revela a existência de uma ordem superior a sim próprio dentro da qual ele está inserido; diante do seu semelhante, por ser impossível que um homem passe uma vida sem ter convivido com outros homens; e diante de si mesmo. Daí as três manifestações mínimas e necessárias da humildade a que nos referimos anteriormente, o reconhecimento e a reverência para com o sagrado ou o superior a si próprio, o respeito para com o próximo reconhecido incondicionalmente como um igual, e a consciência da própria indigência da graça, virtude e conhecimento que conduz ao desejo profundo de aprender.

Queremos agora mostrar que esta doutrina sobre a natureza da humildade e do seu caráter de princípio da virtude e do aprendizado, deduzido por um exame da humildade considerada em si mesma, pode também ser deduzido ou encontrado nos ensinamentos contidos nas Sagradas Escrituras.




42. As manifestações da humildade segundo a doutrina contida nas Sagradas Escrituras.

Consideremos, em primeiro lugar, o texto das bem aventuranças, uma das mais belas passagens do Evangelho:

"Vendo Jesus as multidões,
subiu ao monte e sentou-se. 

Rodearam-no os discípulos,
e ele pôs-se a ensiná-los, dizendo: 

Bem aventurados os pobres de espírito,
porque deles é o Reino dos Céus. 

Bem aventurados os mansos, 
porque possuirão a terra. 

Bem aventurados os que choram, 
porque serão consolados. 

Bem aventurados os que tem 
fome e sede de justiça,
porque serão saciados. 

Bem aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia. 

Bem aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus. 

Bem aventurados os pacíficos, 
porque serão chamados filhos de Deus".
Mt. 5, 1-9

Estas sete bem aventuranças não são elogios dispostos ao acaso. Ao contrário, a tradição cristã tem visto nelas uma descrição de todo o itinerário da vida espiritual. Diz, neste sentido, São Gregório de Nissa:

"Aquilo que foi ensinado ao patriarca Jacó
por meio da visão de uma escada que, 
subindo da terra, alcançava as alturas do céu,
e em cujo topo via-se a Deus,
é-nos agora ensinado pela doutrina das bem aventuranças. 
Sob as aparências de uma escada 
foi ensinado ao santo patriarca
que não pode subir até Deus
senão aquele que tenha as vistas sempre voltadas
para algo mais alto,
e não se contente em permanecer 
nas que já alcançou. 
A altura das bem aventuranças 
umas para com as outras 
faz com que aqueles que já receberam 
algumas delas possam se aproximar de Deus,
que é verdadeiramente feliz,
constituído e estabelecido
acima de toda bem aventurança".
De Beatitudinibus
PG 44, 1247-9

Neste sentido, as duas últimas bem aventuranças descrevem a vida contemplativa; a sexta se refere ao início da contemplação, a sétima à sua plena posse. As três primeiras bem aventuranças descrevem as disposições iniciais daqueles que hão de chegar à vida contemplativa.

O Reino dos Céus é daqueles que são pobres de espírito, diz a primeira bem aventurança. Acrescentando à palavra pobre a expressão `de espírito', Jesus quer dizer com isto que não está se referindo àquela pobreza constituída pela falta de posses materiais. Os bens materiais e o dinheiro são bens corporais, não são riquezas do espírito; o espírito é rico pela virtude, pelo conhecimento e pela graça, coisas que, no mais das vezes, a maioria dos homens julga já possuí-los suficientemente e por isso não se preocupa em buscá-las.

Com as riquezas materiais costuma acontecer o contrário. A maioria dos homens, ainda que possua grandes fortunas, geralmente se julga ainda carente de bens materiais e procura avidamente obtê-las em maior abundância. Por mais pobres, porém, que sejam na alma, agem como se se julgassem suficientemente ricos de espírito.

Os pobres de espírito, portanto, aos quais a primeira bem aventurança promete o Reino dos Céus, são aqueles que se reconhecem como tais. Não podem ser aqueles que são apenas de fato pobres de espírito, pois a indigência dos bens da alma é algo que, depois da queda do primeiro homem, se abateu sobre toda a humanidade:

"É muito importante",
dizia Santo Antão aos primeiros monges do deserto,

"que vos interrogueis acerca da natureza espiritual, 
na qual não há mais nem homem nem mulher, 
mas somente uma essência imortal 
que tem um começo e jamais terá fim. 
Será uma obrigação para vós conhecê-la,
e como decaíu totalmente a este ponto 
de tamanha humilhação e imensa confusão, 
num trânsito que não poupou a nenhum de vós, 
obrigando ao próprio Deus, 
por causa desta praga irremediável 
e que aumentava prodigiosamente, 
a visitar em sua clemência as suas criaturas".

São, pois, pobres de espírito todos aqueles que, à diferença da maioria dos homens, conseguem reconhecer-se a si mesmos nestas palavras. São pessoas que conhecem verdadeiramente a sua indigência espiritual e que, ademais, não podem ser facilmente convencidos do contrário pelas ilusões de que o mundo está repleto. Este conhecimento os impele à busca das riquezas do espírito de que sabem que carecem e, conseqüentemente, causa-lhes o desejo de aprender, com uma força que pode, pelas circunstâncias, ser impedida mas não apagada. Neste sentido, a primeira bem aventurança, o ponto onde se inicia a vida espiritual e o primeiro princípio da vida contemplativa descrita pelas últimas bem aventuranças, é um dos aspectos pelos quais anteriormente dissemos que se manifesta a humildade, e assim tem sido interpretada pela tradição cristã:

"Bem aventurados os pobres de espírito,
porque deles é o Reino dos Céus",
escreve Hugo de São Vítor nas Allegoriae Utriusque Testamenti.

"Quem são os pobres de espírito?",
continua ele.

"Há os que são ricos de espírito 
e há os que são pobres de espírito.
Os ricos de espírito são os soberbos; 
os pobres de espírito são os humildes".
PL 175, 763

Santo Agostinho também interpreta a primeira bem aventurança como se referindo à humildade no De Sermone in Monte, PL 34, 1234, e Santo Tomás de Aquino faz o mesmo na Summa Theologiae IIa IIae Q.19 a.12. Ora, sendo a primeira bem aventurança o princípio de todas as outras e, com elas, o princípio de toda a vida espiritual, deve-se concluir daqui que, segundo a doutrina das bem aventuranças, a humildade também é o princípio das virtudes e de toda a vida espiritual.

A tradição cristã, porém, tem reconhecido também um paralelo entre as sete bem aventuranças e os sete dons do Espírito Santo descritos em Isaías 11,2. Os dons do Espírito Santo, enumerados em sua ordem, são:


  1. Temor do Senhor,
  2. Piedade,
  3. Ciência,
  4. Fortaleza,
  5. Conselho,
  6. Entendimento,
  7. Sabedoria.


A cada um destes dons corresponde uma das bem aventuranças, de tal modo que ao dom de temor corresponde a primeira bem aventurança e assim sucessivamente, até os dons de entendimento e sabedoria que correspondem, respectivamente, à sexta e sétima bem aventurança dos puros de coração que verão a Deus e dos pacíficos que serão chamados filhos de Deus. A doutrina cristã ensina que todos os homens ao serem justificados pela graça recebem simultaneamente todos os setes dons do Espírito Santo. Ocorre, porém, que o desenvolvimento da vida espiritual é tal que o primeiro dom, o espírito de temor do Senhor, manifesta-se em seu início de modo mais acentuado e característico; à medida em que com o dom de temor amadurecem todos os demais dons, passa-se a manifestar de modo predominante o dom de piedade, e isto faz com que se eleve, juntamente com o dom de piedade, a vivência de todos os demais dons a um plano superior; assim continua ocorrendo, sucessivamente, até manifestar-se a predominância do dom de sabedoria, com o qual todos os demais dons alcançam também a sua maior plenitude. Com isto, porém, o desenvolvimento da vida espiritual pode ser descrito tanto segundo a seqüência das bem aventuranças como segundo a seqüência dos sete dons do Espírito. Os últimos dons do Espírito Santo, entendimento e sabedoria, descrevem, respectivamente, assim como as duas últimas bem aventuranças, os princípios e a consumação da vida contemplativa. O dom de temor do Senhor designa o seu primeiro princípio.

Se, porém, a primeira bem aventurança, a dos pobres de espírito, deve ser interpretada, como o faz Agostinho, Tomás de Aquino e de modo categórico principalmente Hugo de São Vitor, como sendo a humildade, a coerência obriga-nos a interpretar o dom de temor do Senhor também do mesmo modo.

Pobreza de espírito e temor do Senhor terão que ser, ambos, iguais a humildade. Efetivamente, os pobres de espírito são aqueles que, conscientes da própria indigência espiritual, buscam avidamente as verdadeiras riquezas de espírito; os que são movidos pelo espírito de temor do Senhor são aqueles que, com o auxílio da graça do Espírito Santo, possuem aquela reverência profunda pelo sagrado, pelas coisas mais elevadas e por Deus. Ambas estas coisas, porém, segundo estivemos deduzindo por outro caminho em todas estas notas, são duas manifestações de uma mesma virtude à qual chamamos de humildade.

A Sagrada Escritura ainda nos afirma que

"O temor do Senhor 
é o princípio da sabedoria".
Prov. 1, 7

Ao dizer isto ela nos declara que a reverência para com as coisas divinas é o primeiro princípio que conduz à contemplação, que é o principal efeito produzido pela vivência eminente do dom de sabedoria. Esta afirmação não acrescenta propriamente algo novo ao já explicado anteriormente sobre os dons do Espírito Santo, se não houvesse, no livro da Sabedoria, uma outra afirmação em parte igual e em parte diversa desta. Efetivamente, está escrito no livro da Sabedoria que

"O princípio da sabedoria
é um desejo sincero de instrução".
Sab. 7, 18

Temos então as Sagradas Escrituras afirmando em dois lugares distintos duas coisas diversas serem o princípio da sabedoria. Em Provérbios elas nos dizem que este princípio é o temor do Senhor; no livro da Sabedoria elas nos dizem que este princípio é o desejo sincero de instrução. Se partirmos do pressuposto, o qual, ademais, corresponde à realidade, segundo que as Sagradas Escrituras nos oferecem um corpo coerente de doutrina, temos que concluir daqui que as Escrituras nos ensinam que o temor do Senhor e o desejo sincero de instrução são dois aspectos diversos de uma mesma atitude.

Segundo o que estivemos deduzindo por outra via nestas notas sobre o Opúsculo sobre o Modo de Aprender, são elas, efetivamente, duas das três manifestações fundamentais de uma mesma virtude da humildade.

Pode-se, ainda, nas Sagradas Escrituras, encontrar-se uma descrição do que é o homem humilde, do que seja a primeira bem aventurança ou o que seja o dom do temor dom Senhor no Salmo 13 quando ele afirma:

"O Senhor se inclinou do céu
sobre os filhos dos homens, 
para ver se havia alguém 
que tivesse entendimento 
e que buscasse a Deus".
Salmo 13, 2

Desta passagem pode-se perceber que a atitude fundamental que faz o Senhor inclinar-se sobre os homens, a humildade, a pobreza de espírito ou o temor do Senhor, é algo que os leva, conforme diz o Salmo, a "ter entendimento" e a "buscar a Deus". Daqui pode-se inferir como a humildade tanto é princípio não apenas da sabedoria, ou da contemplação causada por ela, mas também do aprendizado, designado indiretamente no salmo por "ter entendimento", como das virtudes, designadas no salmo pela expressão "buscar a Deus", as duas vertentes que conduzem, por sua vez, à contemplação.


43. A dificuldade da prática da humildade.

Dissemos que as pessoas humildes são aquelas que manifestam verdadeira reverência para com as coisas divinas ou, pelo menos, para com aquelas que reconhecem como sendo superiores a si mesmas, que são movidas por um desejo profundo de aprender e que respeitam incondicionalmente o seu próximo tratando-o, em qualquer circunstância, sempre como a um igual.

Haverá alguns para quem esta virtude assim descrita poderá parecer algo cuja prática implicaria dificuldades tão inacessíveis que a tornariam impossível para o comum dos mortais. No entanto, contrariamente aos que pensam desta forma, já tivemos a oportunidade de mencionar que esta humildade não é a consumação da santidade, mas apenas o primeiro, o mais elementar dos requisitos exigidos para se poder trilhar o caminho que conduz a ela.

Este aparente paradoxo, poderá, na maioria dos casos, ter sua origem na errônea identificação entre a humildade e a prática das suas manifestações que acabamos de descrever. A humildade, efetivamente, não é a prática destas que são as suas manifestações fundamentais. Ela não se pratica forçando-nos a nós mesmos a não desrespeitarmos o próximo quando somos tentados a fazê-lo, nem obrigando-nos a aprender quando temos preguiça de o fazer. Às vezes poderá acontecer inclusive que tenhamos o dever de fazer estas coisas, mas fazer isto será a prática da virtude da paciência ou do estudo, e não da humildade. A humildade, em vez disso, consiste na consciência de determinadas verdades que, uma vez alcançada, produz espontaneamente as manifestações que enumeramos. A humildade não se alcança, portanto, através do exercício destas condutas, mas pela consciência de determinadas verdades.

Se não somos de todo capazes, ou se nos é muito difícil a prática das manifestações da humildade, isto decorre do fato de termos construído em nossa mente uma visão do mundo ilusória e falsa, que nos engana e à qual nos apegamos, dentro da qual nós mesmos despontamos, como em uma decorrência lógica, como seres dotados de atributos ou direitos que somente seriam compatíveis com entidades superiores às de natureza humana. Para se praticar a humildade, pois, devemos identificar primeiro qual é a visão de mundo e de nós mesmos que construímos, renunciar a ela, descermos do pedestal em que nos colocamos e nos igualarmos em natureza com nossos semelhantes que nos circundam. Não se pratica a humildade, portanto, exercitando a paciência, mas renunciando e reformulando nossos pensamentos. Devemos estar sinceramente dispostos a identificar os pontos de vista que agiam como pressupostos de nossa conduta e, verificando a sua incoerência, termos o discernimento e a decisão de renunciar a eles.

Esta prática, em vez de traumática ou destrutiva para o homem, é, em vez disso, bem ao contrário, altamente benéfica para ele e inclusive parte integrante de seu desenvolvimento normal. A primeira imagem que o homem faz do mundo e de si mesmo não é baseada na apreensão da inteligência, mas nos dados provenientes das paixões sensíveis. Isto ocorre porque as paixões humanas provém da vida sensorial, a qual se desenvolve no homem antes do uso da inteligência, já que a inteligência, para desenvolver-se em seu uso, necessita ela própria dos dados provenientes da apreensão dos sentidos, sendo-lhes, portanto, neste sentido, algo de posterior. As paixões humanas, provindo, portanto, dos sentidos, tendem a formar-se antes que se forme uma mais plena vida da inteligência. Seguindo este raciocínio, seria de se esperar que esta primeira visão que o homem forma do mundo e de si mesmo fosse em seguida gradualmente substituída pela que passa a ser oferecida pela apreensão da inteligência, à medida em que esta vai se desenvolvendo. No entanto, a experiência mostra que só na minoria dos casos isto acontece presentemente com os homens. O trabalho da inteligência, na maioria dos homens, no lugar de trazer a si a obediência das paixões, em vez disso coloca-se ele próprio a serviço destas paixões e da visão do mundo e de si mesmo que foi construída a partir delas, em uma verdadeira inversão dos papéis de súdito e senhor. O homem efetivamente diz e faz coisas inteligentes, mas trata-se de uma inteligência inteiramente dominada e a serviço de entidades que lhe são inferiores. A disposição à humildade marca, neste sentido, no homem, a retomada consciente de seu desenvolvimento psicológico normal e a renúncia que ela implica pode ser, para muitos, o início de um processo de abertura intelectual sem precedentes, o princípio do aprendizado, da virtude e da santidade.

Para sermos humildes devemos, pois, através do trabalho da inteligência, identificar a visão fantástica e passional que temos de nós e do mundo. "Julgá-la", como foi pedido ao profeta Ezequiel, "e declarar-lhe as suas maldades" (Ez. 23, 36). Renunciarmos a ela de modo explícito e aceitarmos, em seu lugar, a verdadeira como sendo a real. Sem esta disposição nada mais será possível aprender, como o declara Jesus ao dizer que quem quiser seguí-lo,

"Renuncie primeiro a si mesmo".
Mt. 16, 24

O si mesmo a que Jesus de refere são as inumeráveis mentiras que nós mesmos nos contamos a nós mesmos sobre nós mesmos. De fato, a tais coisas como à verdade, à luz da inteligência, à sua condição de criatura, à sua relação para com o Criador, nenhum homem, por mais que o queira, pode renunciar mais do que poderia impedir que o Sol brilhasse sobre o horizonte.







(Fonte: cristianismo.org.br)


sexta-feira, 13 de abril de 2018

Pressupostos do Aprendizado 16



- Sétima Parte -



40. A Evangelização.

Antes de prosseguirmos em nossa exposição, vamos, ainda que brevemente, relembrar o motivo ou a finalidade destas explicações. Pois o homem prudente sempre
"faz tudo com conselho",
diz o livro de Provérbios (Prov. 13,16), e o primeiro de todos os conselhos é a constante recordação do fim a que eles se ordenam (Lam. 1, 9).

O fim que tem nos norteado em nossas considerações é a busca da verdade. Estamos em busca da verdade, não da verdade entendida de um modo qualquer, mas daquela verdade à qual se ordena o Evangelho, aquela da qual Jesus afirma ter vindo ao mundo para dela dar testemunho, e da qual Jesus também ensina ser aquilo que pode tornar o homem livre. Esta verdade é algo que por sua natureza se ordena a Deus e se alcança pela contemplação, conforme o atesta o profeta Baruc, quando diz:

"Deus é quem vos alimenta, 
e Jerusalém é vossa nutriz".
Baruc 4, 8

Ora, diz Santo Tomás de Aquino que o trabalho de governar e ordenar as coisas ao seu fim compete àqueles a quem comumente se dá o nome de sábios. Para fazer isto, a principal consideração do sábio, seu principal estudo,

"o mais perfeito, o mais sublime, 
útil e feliz de todos os estudos
a que o homem pode se dedicar",

ao qual chama-se simplesmente de sabedoria, deve dizer respeito ao fim do qual devem derivar as regras pelas quais todas as demais coisas deverão ordenar-se e serem governadas (Summa contra Gentiles, L.1, l. 1-3).

Deste modo, sendo a verdade aquilo para o qual tende o Evangelho, pode-se dizer que ela é também a fonte de onde se origina o autêntico trabalho de evangelização, no qual está inserido o cumprimento do preceito de ensinar, que Jesus Cristo pediu como prova de amor aos seus discípulos. A verdade, porém, à qual se ordena o Evangelho é algo que não possui este nome num sentido metafórico.

Chama-se à mesma simplesmente de a verdade porque é algo que possui mais plenamente tudo aquilo que também possuem em grau menor todas aquelas coisas às quais usualmente damos o nome de verdade. Neste sentido a verdade é, em primeiro lugar, algo que prima por converter-se com a realidade, e significa, para o homem, uma tomada de consciência do real no seu sentido mais pleno possível.

Sendo tudo isto assim, porém, a evangelização difere dos trabalhos a que estamos habituados a observar serem empreendidos pelos homens porque estes últimos dependem, em sua maior parte, principalmente de condições estruturais que em si são inconscientes e que, em sua relação com os homens, dependem de graus de consciência muito pequenos por parte daqueles que deles se utilizam.

São exemplos destas condições estruturais os recursos materiais, a boa propaganda, a disponibilidade de recursos humanos utilizados, porém, de um modo não essencialmente diverso de como se utilizam os próprios recursos materiais. A evangelização difere profundamente de todos estes trabalhos porque, se deve ser entendida como algo capaz de apresentar aos homens e de conduzí-los ao fim que lhes é proposto por Cristo, subsiste fundamentalmente em função de altíssimos níveis de consciência do real daqueles ou pelo menos de uma parte daqueles pelos quais é empreendido. O caminho pelo qual se alcançam estes níveis de consciência foge completamente ao padrão a que o mundo está habituado a seguir quando decide empreender qualquer atividade; eles não podem ser comprados com dinheiro, e não há nenhum programa de investimento de recursos econômicos que possam ser capazes de desenvolvê-los. O mais freqüentemente os recursos econômicos, em vez de ajudar, costumam impedir a obtenção do fim que se deseja. De qualquer forma, uma coisa não depende de outra e o fato de se pensar seriamente o contrário já costuma ser indício da ausência deste bem que se busca.

Outra ilusão possível ainda é o pensamento de que o trabalho de evangelização depende fundamentalmente de boa legislação ou da existência de regras promulgadas com sabedoria. Há, efetivamente, uma relação entre a evangelização e ambas estas coisas que não existia no caso dos recursos materiais, mas, mesmo aqui, a legislação sábia só funciona se, para além dela, houver sido providenciado o modo pelo qual possam sempre subsistir um certo número de pessoas, tantas quantas forem verdadeiramente possíveis, que detenham em si mesmas estes elevados níveis de consciência do real. Disto é testemunha o próprio Deus quando Ele mesmo declara, no Antigo testamento, que realizaria no futuro uma nova aliança com os homens, diversa da anterior por não estar mais escrita em tábuas de pedra, "aliança que os homens violaram" (Jer. 31, 32), e não puderam cumprir. Em vez disso, diz o Senhor,

"Farei uma nova aliança
com a casa de Israel e com a casa de Judá, 
não como a aliança que eu fiz com os seus pais 
no dia em que os tomei pela mão 
para os tirar da terra do Egito. 
Imprimirei, depois daqueles dias, 
diz o Senhor, 
a minha lei nas suas mentes, 
e a escreverei nos seus corações".
Jer. 31, 31-33

Quando isto acontecer, profetiza ainda Jeremias,

"Eu vos darei pastores segundo o meu coração, 
os quais vos apascentarão
com a ciência e com a doutrina. 
Naquele tempo chamarão a Jerusalém 
de o trono do Senhor, 
e todas as nações se reunirão em Jerusalém
em nome do Senhor, 
e não andarão mais após a maldade 
de seu péssimo coração".
Jer. 3, 15-17

Naquele tempo, lemos ainda em Isaías,

"A terra estará cheia 
da ciência do Senhor, 
assim como as águas do mar
que a cobrem".
Is. 11, 9

"Não se dará mais ao insensato
o nome de príncipe, 
nem ao fraudulento
o nome de grande. 
Não se ofuscarão os olhos
dos que vêem, 
e o coração dos insensatos 
entenderá a ciência".
Is. 32, 3-5

O Messias, responsável por estas maravilhas, será alguém que

"Não julgará
segundo as aparências, 
nem condenará 
somente pelo que ouve dizer".
Is. 11, 3

Estas palavras, utilizadas por Isaías para descrever a pessoa do Messias, são muito mais impressionantes do que parecem ao seu primeiro exame. Pois nós, efetivamente, estamos tão submersos na prática oposta àquela que se quer descrever com estas expressões que ela se torna para nós uma segunda natureza. Nós julgamos tudo segundo as aparências, num grau muito maior do que usualmente temos o discernimento de alcançar, e tudo quanto fazemos é movido pelo que ouvimos dizer. Poucos são os que se dão conta da luta que significa até mesmo principiar a agir guiados pela luz do entendimento, muito menos pela luz da revelação e da graça. Supõe-se que o entendimento seja aquilo que é capaz de penetrar na realidade por trás das aparências; mas, se a realidade é diversa do que ouvimos dizer, na maioria das vezes só este fato nos torna cegos à realidade. Não é a busca da realidade ou da verdade que dita nosso comportamento, muito menos o fundamento sobre o qual se constrói a nossa vida, e se alguém principia a agir à luz destas coisas, assim que percebe que sua conduta difere da que ouve dizer, apaga-se como que por uma condenação a própria luz que nele o guiava. Do Reino do Messias, porém, alicerçado sobre o fundamento oposto, Isaías também nos diz:

"O seu reino se estenderá cada vez mais, 
e a paz não terá fim".
Is. 9, 7

Vemos, assim, que nas profecias do Antigo Testamento está descrito o modo pelo qual se realizaria o trabalho de evangelização, que se iniciou efetivamente no dia de Pentecostes, quando Deus imprimiu sua lei nas mentes dos Apóstolos e a escreveu em seus corações, através do Espírito Santo, o qual, cumprindo a promessa de Cristo, "ensinou-lhes toda a verdade" (Jo. 16, 13). Não há no Evangelho nenhum registro de que Jesus tenha se preocupado com a organização de recursos materiais, nem com a promulgação de uma legislação explícita para dar início ao trabalho de salvação dos homens. Este se iniciou, ao contrário, conforme acabamos de ver, através do conhecimento da verdade, num grau tão alto que, antes da paixão de Cristo, no próprio dizer de Jesus, os apóstolos ainda "não o teriam sido capazes de suportar" (Jo. 16, 12).

Não é, portanto, pelo investimento econômico nem pela legislação que se alcançam os níveis de consciência do real de que depende o trabalho de evangelização. O primeiro de todos os requisitos para isto é a vocação evidente para a consciência das pequenas realidades, assim como para se buscar uma grande verdade é preciso demonstrar-se habilidoso em alcançar primeiro as pequenas verdades.

Ora, o primeiro de todos os movimentos de tomada de consciência do real por parte do homem é precisamente aquilo a que denominamos de humildade. Quem não é capaz da humildade está inteiramente fora da realidade; ainda que seja tido como homem inteligente pelos seus semelhantes, possuidor de uma extensa cultura e capaz de associar idéias com brilhantismo, não passa de um iludido que imagina ser e age como se fosse um deus.

A pedagogia vitorina, ao pretender conduzir o homem à contemplação e com ela a um plano mais elevado de consciência do real, afirma que a realização deste objetivo consiste essencialmente em ampliar, com o auxílio da graça, aquilo que já estava presente na virtude da humildade. Se o homem não estiver disposto, conseqüentemente, a abraçar primeiramente esta virtude, nada pode ser feito por ele neste sentido, pois a verdade a que se refere a humildade é a primeira e a menor de todas as verdades que se convertem com a realidade e que implica, por parte do homem, em uma queda na mesma. A humildade é, neste sentido, um grãozinho de contemplação, a menor parte psicologicamente possível daquilo que se chama de contemplação. Aquele que, persistentemente, se mostra incapaz dela, obviamente será incapaz da contemplação em toda a sua extensão.

Examinemos, pois, mediante os três sinais com que descrevemos as manifestações fundamentais da humildade, qual é o nosso grau de vivência desta virtude e qual é o nosso grau de consciência da realidade. Examinemos qual é a reverência para com o sagrado que nos move, se somos capazes de reconhecer efetivamente a existência sobre nós de algo muito maior do que nós. Examinemos se esta reverência é capaz de nos mostrar a grandeza das coisas de Deus, e o quanto temos a aprender para nos aproximarmos dEle. Examinemos também se o desejo de aprender a que esta reverência nos move é suficientemente profundo para nos mover à busca do aprendizado ainda que não se nos ofereça nenhuma oportunidade para isto. Examinemos também se este desejo de aprender é suficientemente real para nos tornar alheios às querelas humanas que envolvem a busca de uma superioridade pela posição e pelo prestígio, fazendo-nos ver que somos todos igualmente essencialmente indigentes do espírito. Examinemos também qual é o grau de reverência que temos para com nosso semelhante, se somos capazes de tratá-lo com a dignidade com que se trata a um igual, seja ele quem for. Examinemos se não apenas somos capazes de nos governar para não destratá-lo, mas se também somos capazes de ouvi-lo, como se costuma fazer quando se considera a alguém como a um igual. Se formos capazes de ouvir qualquer irmão movidos pela dignidade que reconhecemos nele, com muito mais razão seremos capazes de ouvir com atenção reverencial a Deus quando Este nos fala, pelos múltiplos canais que Ele efetivamente disseminou na natureza e entre os homens para deles se poder fazer ouvir. Jamais caia em nosso esquecimento a radicalidade com que Jesus exige o respeito ao nosso próximo e, se não observamos em nós a habitualidade deste respeito, não procuremos apenas controlar as manifestações destes nossos maus impulsos, mas sobretudo procuremos renunciar ao pedestal imaginário sobre o qual nos colocamos e que nos move a tal atitude:

"Pensam erroneamente",
diz João Cassiano nas Instituições dos Cenobitas,

"os que julgam que basta
moderar a ira em seus efeitos,
e que não é necessário arrancá-la
do mais íntimo do coração.

Possuídos deste mau espírito,
como poderemos ser templos do Espírito Santo?
Os antigos pais não permitiam 
que esta paixão penetrasse um só instante
em seus corações 
e observavam em toda a sua plenitude
aquela palavra do Evangelho: 

`Quem se irar contra seu irmão
será réu de julgamento'.
Mt. 5, 22
Se, pois, desejamos obter
aquela plenitude das recompensas divinas 
das quais está escrito: 

`Bem aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus',
Mt. 5, 8
é necessário extirpar a ira
não apenas de nossos atos,
mas também das mais internas raízes da alma, 
crendo firmemente que de modo algum 
nos é permitido entregar-nos a este veneno mortífero,
pelo qual perderemos a luz do discernimento,
a firmeza do reto conselho, 
a honestidade e a moderação da justiça,
a perseverança na verdadeira luz espiritual,
e a participação na vida,
pois, conforme nos diz o Evangelho, 
somente pela ira e pelo ódio
já nos são prometidos 
pelo Juiz de todas as coisas
os suplícios eternos".
Inst. Cen. L. 8

"Apressemo-nos, pois, 
em aniquilar inteiramente este animal ferocíssimo 
que é o orgulho, 
devorador de todas as virtudes. 
Estejamos certos que enquanto habitar
este vício em nosso peito
não apenas careceremos de todas as virtudes
como também,
ainda que nos pareça possuir alguma delas, 
até mesmo destas aparências seremos espoliados
por causa deste veneno. 
O edifício das virtudes não pode
de modo algum ser levantado em nossa alma
se não tivermos levantado primeiro em nosso coração
o fundamento da verdadeira humildade, 
a única coisa que, 
firmemente estabelecida, 
é capaz de sustentar
os cimos da perfeição e da caridade. 
Exibamos, assim, em primeiro lugar, 
aos nossos irmãos,
o afeto de uma verdadeira humildade 
proveniente do íntimo do coração, 
jamais consentindo em amargurá-los
ou agredí-los em nada. 
Não se pode, porém, 
conseguir isto senão através da verdadeira renúncia,
do despojamento e da nudez de nossas faculdades, 
fundamentadas no amor de Cristo.
Depois disto, entretanto, 
poderemos reter firmissimamente
esta mesma humildade também para com Deus".
Inst. Cen. L. 12, 32-33







(Fonte: cristianismo.org.br)

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Pressupostos do Aprendizado 15



- Sexta Parte -



39. Relação entre humildade e contemplação, sob o aspecto da abrangência da multiplicidade.

Examinamos a contemplação sob o aspecto da tomada de consciência que ela envolve e verificamos que a humildade já continha, essencialmente, estas mesmas características que se encontram plenamente amadurecidas na contemplação.

A contemplação, porém, pode ser examinada também sob o aspecto de abarcar uma multidão ou mesmo a totalidade das coisas conhecidas, como o faz Hugo de São Vitor no Opúsculo sobre o Modo de Aprender. Segundo este texto, a contemplação

"Se estende à compreensão de muitas 
ou também de todas as coisas, 
a qual as abarca em uma visão
plenamente manifesta,
de tal maneira
que aquilo que a meditação busca,
a contemplação possui".

Pode-se deduzir, a partir destas palavras, que a contemplação é, sob este aspecto, a operação da inteligência da qual surgem as obras de síntese tais como a Summa Theologiae de Santo Tomás de Aquino.

Pode-se mostrar, ademais, que esta outra característica da contemplação também não apenas está essencialmente contida na humildade, como também é um desenvolvimento desta última, na medida em que o homem, consciente de ser apenas uma criatura como todos os demais homens e não um deus, respeito o seu próximo não por alguma qualidade circunstancial que se lhe atribua, mas incondicionalmente, seja o seu próximo quem for ou como se lhe apresente, apenas pela própria dignidade da natureza humana que não se adquire nem se abdica por nenhuma circunstancialidade.

O respeito incondicional do homem humilde pelo seu próximo contém virtualmente as características mais amadurecidas da contemplação pela qual esta abarca simultaneamente uma totalidade de objetos cognoscíveis porque o respeito do homem humilde pelo seu semelhante não consiste no autodomínio do homem que sabe conter seus impulsos agressivos. Isto não seria uma manifestação de humildade, mas de paciência ou mansidão. Não é por ser capaz de conter os seus próprios impulsos que o homem humilde não agride o seu semelhante, mas pelo profundo respeito que ele tem pelo outro. Por causa disto, o respeito que o homem humilde demonstra pelo seu semelhante vai muito além do simples propósito de não agredí-lo, fisica ou moralmente. O respeito do homem humilde é aquele pelo qual o outro é acolhido em sua dignidade, não só no trato exterior, como principalmente pela consideração interior.

Neste sentido, o comportamento do homem humilde difere radicalmente do comportamento do homem orgulhoso. O homem orgulhoso se comporta como se a visão que ele possui do mundo fosse dotada de atributos divinos, e despreza, pelo menos no seu íntimo, todos os homens que não são capazes de perceber este fato, como se, por causa desta circunstancialidade, eles fossem dotados de uma natureza inferior. Por este motivo, quando alguém conversa com um homem orgulhoso, o homem orgulhoso, em vez de ouvir o que se lhe diz, ouve na realidade fundamentalmente o seu próprio pensamento que compara o que diz o locutor com o que pensa o ouvinte que é ele próprio, para a seguir passar a criticar ou a elogiar o locutor não absolutamente falando, mas por comparação para consigo mesmo. Seja a atitude final do orgulhoso para com o locutor uma atitude de crítica ou de elogio, em ambos os casos ele nunca ouve verdadeiramente o outro, mas apenas a si próprio. Já o homem humilde, alguém verdadeiramente consciente de não ser um deus, ou uma criatura dotada de atributos essencialmente supra humanos, ouve sempre com atenção qualquer outro ser humano que se lhe dirija a palavra, independentemente de sua aparência ou de suas credenciais, estando sempre aberto para a possibilidade de que, seja quem for que lhe dirija a palavra, poderá vir a tratar de algum assunto mais importante do que tudo quanto ele até então conhecesse. E mesmo na hipótese de que, durante a conversa, fique claro que não era este o caso, e que o locutor nada acrescente de importante para o ouvinte, ainda assim o homem humilde irá ouví-lo e procurar entendê-lo com seriedade pelo fato de que, ainda que o assunto não seja importante para o ouvinte, deverá sê-lo pelo menos para o locutor. Apenas um motivo técnico de força maior pode fazer o homem humilde deixar de ouvir e procurar entender o seu semelhante, nunca uma disposição interior de desconsideração pelo outro a quem ele respeita como um ser humano limitado tanto quanto a si próprio.

Ora, a experiência tem mostrado que esta atitude do homem humilde conduz, com o tempo e o desenvolvimento, àquela outra pela qual o homem se torna capaz de prestar uma atenção desapaixonada e imparcial a uma multidão ou mesmo a todos os aspectos de qualquer realidade que se lhe venha a propor como tema de sua consideração, ao mesmo tempo em que se torna capaz de atribuir, a todos e a cada um destes aspectos um valor, tanto quanto é humanamente possível, objetivamente considerado.

Pode-se perceber, deste modo, que a humildade assim considerada é uma das fontes principais de onde jorrou a Summa Theologiae de Santo Tomás de Aquino. Nela observa-se uma extraordinária capacidade de síntese em que o autor demonstra ter desenvolvido uma finíssima sensibilidade em não deixar escapar nenhum aspecto relevante de questões de amplíssima natureza, tratando-as a todas com equilíbrio e isenção de ânimo e discernindo corretamente as conexões existentes entre elas.

Demonstra também ter sido capaz de utilizar, para emitir o seu próprio julgamento, do mais profundo respeito pelo pensamento dos autores que anteriormente a ele haviam tratado destes mesmos assuntos; sejam eles quem sejam, cristão, judeus, muçulmanos, pagãos, herejes ou mesmo possivelmente algum ilustre desconhecido que tivesse se apresentado diante dele, pessoalmente ou através de algum escrito, declarando ter algo a manifestar-lhe sobre o tema, Santo Tomás de Aquino os consulta a todos com verdadeiro interesse não apenas para citá-los em sua obra, mas para inteirar-se efetivamente do que dizem, e os interpreta, caso raro entre os filósofos, sem distorcer-lhes o pensamento. Vemos assim que apenas a inteligência não explica a Summa Theologiae; ela é, dentre outros fatores que concorrem para explicá-la, um dos mais eloqüentes testemunhos do grau de discernimento a que é capaz de ser conduzido o homem humilde.

É ainda sob esta perspectiva que deve ser interpretado um fato bastante conhecido ocorrido ainda na adolescência de Santo Tomás de Aquino. Conta-se que certa manhã, quando era jovem estudante entre os dominicanos, os colegas de Tomás, querendo colocá-lo em ridículo pelo seu hábito de falar muito pouco que transparecia entre eles como um sinal de imbecilidade, escolheram um deles para que se aproximasse do rapaz e lhe dissesse:

"Frei Tomás,
vinde para a janela; 
vinde ver um boi voando no céu!"

Calmamente, Tomás de Aquino se aproxima da janela, olha para o céu e afirma não estar vendo nada. Seus demais colegas, que contemplas estupefatos esta cena, não conseguem logo a seguir esconder uma explosão de riso. Estava demonstrado mais do que evidentemente que Tomás era de fato o idiota que eles sempre haviam suposto. Um deles então lhe dirige a palavra e pergunta:

"Que fazes, Tomás?
Que estás a procurar?
Quando é que já se ouviu falar alguma vez 
de um boi voando no céu? 
Era apenas uma brincadeira,
mas este teu modo de proceder 
é para nós agora 
causa de preocupação.
Dize sinceramente:
o que te leva a crer
que possa haver de fato 
um boi voando no céu?".

A resposta de Tomás já evidenciava, porém, o quanto estava enganada esta primeira avaliação de seus colegas:

"Julguei",
respondeu Tomás de Aquino,

"que seria mais fácil
ver um boi voando no céu 
do que um frade mentindo".

Este episódio da vida de Santo Tomás de Aquino, narrado o mais das vezes apenas como uma anedota, se transforma, porém, diante do que estivemos expondo, em algo que se reveste de uma transcendente seriedade. Somente uma pessoa capaz de,pelo impulso interior de não desconsiderar a um irmão, chegar a admitir a possibilidade de que um boi esteja efetivamente voando a ponto de, pelo menos, a hipótese merecer uma verificação ocular, é que poderia, um dia, vir a escrever uma obra como a Summa Theologiae.

Tudo isto que foi dito da Summa Theologiae pode ser aplicado também as obras de Hugo de S. Vitor, nas quais transparece um inconfundível sentido de equilíbrio que lhe é característico e que é fruto daquela contemplação que abarca em uma só visão uma multidão de aspectos que o comum dos homens usualmente só alcança de modo fragmentário e em que a apreensão de cada fragmento freqüentemente se realiza à custa da exclusão de outros.

O mesmo pode ser dito também da Regra de São Bento, a qual, não obstante o seu muito menor tamanho, é, porém, neste mesmo aspecto, não menos admirável do que a Summa Theologiae ou a obra de Hugo de S. Vitor. Dela vamos a seguir tecer alguns comentários, de cujo exame novamente se nos revela aquela mesma capacidade de

"estender-se a uma compreensão,
que abarca em uma visão plenamente manifesta,
muitas ou mesmo todas as coisas",

que Hugo de S. Vitor atribui à contemplação e que se origina a partir da virtude da humildade como de um desenvolvimento natural. É esta qualidade que brilha também de um modo especial na Regra de São Bento, um texto que mostra um profundo conhecimento da natureza humana e da vida monástica, em que o autor demonstra, diante destas realidades, uma delicada reverência incapaz de negligenciar uma justa atenção para com nenhum de seus múltiplos aspectos, sejam os seus grandes princípios ou os seus pequeninos detalhes, e a todos sabe inserir num conjunto cuja unidade é fruto de uma sabedoria tornada realidade vivente.

Esta delicadeza, que na contemplação não despreza e não nos cega para com nenhuma parte de um universo, é essencialmente a mesma que na humildade não despreza e não nos cega o entendimento diante da realidade de nosso semelhante. E, efetivamente, são estas mesmas características que também se encontram na Regra de São Bento todas as vezes que o santo patriarca ensina aos monges como tratar aos seus semelhantes.

São Bento pede ao abade "que não faça distinção de pessoas, que uns não sejam mais amados do que outros", "que o nascido livre não seja anteposto ao originário de condição servil", porque "somos todos um em Cristo, somente num ponto por eles distinguidos, se formos melhores do que os outros nas boas obras e humildes" (2, 16-21); pede também ao abade que ao ensinar "tempere o carinho com o rigor, mostrando a severidade de um mestre e o pio afeto de um pai" (2, 24), lembrando-lhe "que coisa difícil e árdua recebeu: reger as almas e servir ao temperamento de muitos, a este com carinho, àquele, porém, com repreensões, a outro com persuasão, segundo a maneira de ser e a inteligência de cada um, de tal modo que se conforme e adapte a todos" (2, 31-32).

Quanto tiverem que ser feitas coisas importantes no mosteiro, julgue o próprio abade o que for mais útil, não porém sem "convocar antes toda a comunidade e ouvir o conselho dos irmãos". Neste conselho, porém, São Bento insiste que não sejam chamados apenas os mais importantes ou os mais sábios, mas que todos sejam efetivamente ouvidos:

"Dissemos que todos 
sejam chamados a conselho",
diz São Bento,

"porque muitas vezes
o Senhor revela ao mais moço
o que é melhor".
Regra 3, 3

A Regra insiste também que o respeito e a atenção devem ser dados não apenas aos superiores, mas particularmente aos velhos e às crianças. Na lista dos preceitos do quarto capítulo pode-se ler:

"Fugir da vanglória; 
venerar os mais velhos, 
amar os mais moços".
Regra 4, 69-71

No trigésimo sétimo capítulo lemos também:

"Ainda que a natureza humana
seja levada à misericórdia
para com estas idades,
velhos e crianças,
no entanto que a autoridade da Regra 
olhe também por elas.
Considere-se sempre a fraqueza
que lhes é própria,
e haja em relação a elas 
uma pia consideração".
Regra 37, 1-3

Mais notável ainda é a passagem em que São Bento ensina como se devem acolher os hóspedes:

"Se chegar algum monge peregrino 
de longínquas províncias",
diz São Bento,

"e quiser habitar no mosteiro como hóspede,
e mostra-se contente com o costume
que encontrou neste lugar e,
porventura, não perturba o mosteiro
com suas exigências supérfluas,
mas simplesmente está contente com o que encontra,
seja recebido por quanto tempo quiser.
Se repreende ou faz ver alguma coisa 
razoavelmente
e com a humildade da caridade,
trate o abade prudentemente deste caso,
pois talvez por causa disso
Deus o tenha enviado".
Regra 61, 1-4

Esta passagem é particularmente notável por mostrar até que ponto deve ir a humildade para embasar verdadeiramente o edifício espiritual. São Bento não se limita a dizer que se o visitante quiser habitar no mosteiro como hóspede, isto é, sem ser admitido como membro da comunidade, deve "ser recebido por quanto tempo quiser". Não contente com isto, o legislador acrescenta que, se, além disto, o hóspede passar a repreender a conduta dos monges ou lhes fizer ver que algo vai mal no mosteiro, não devem os monges se aborrecer com isto julgando que o visitante esteja abusando da hospitalidade que lhe foi oferecida intrometendo-se em assuntos que não lhe dizem respeito. Muito ao contrário, São Bento pede ao próprio abade que vá ouví-lo com atenção e que "trate prudentemente deste caso". O mais impressionante, porém, é que São Bento não pede ao abade que ele faça isto porque pode ocorrer que o hóspede esteja com a razão, mas porque, e pondere-se quanta diferença vai nisto, ele deve considerar seriamente a hipótese de que

"pode ser que por causa disto
Deus o tenha enviado".

É muito difícil julgar o que é mais extraordinário, se ouvir São Bento legislar desta maneira ou ver Santo Tomás de Aquino procurar no céu um burro voando. O que é certo, porém, é que se ambos não tivessem sido capazes destas coisas, nem teriam alcançado a vida de contemplação, nem teriam escrito a Summa Theologiae ou legislado sobre a vida monástica.







(Fonte: cristianismo.org.br)