Aos Noviços Missionários do Espírito Santo
"Aprende onde se acha a virtude" (Baruc 3,14)
Filhos meus, muito amados em Jesus:
Na questão 55 da primeira parte da segunda seção da Suma,
São Tomás nos apresenta um duplo tratado em que considera, de forma geral,
virtudes e vícios.
Nas questões 55-60, o Santo Doutor trata da essência das
virtudes, de suas divisões, causas, conexões e igualdade. Depois, nas questões
61-89, estuda os vícios em sua natureza, diferenciando-os, comparando-os e
detendo-se em suas causas.
Até a questão 122, o Santo Doutor segue seu importantíssimo
estudo de cada virtude particular e, com ciência profunda e gênio incomparável,
trata da ciência das virtudes, tarefa árdua do ponto de vista teológico.
Este Tratado sobre as virtudes e os vícios, que estudareis
durante vosso noviciado, tem um caráter bem diferente. É, direta e
essencialmente, voltado para a prática. Todos os seus preciosos ensinamentos
são integralmente impregnados pelo espírito da Cruz. Isso não é de se
estranhar, pois este trabalho foi extraído, palavra por palavra, daquilo que,
em minhas conferências, chamo de "manuscritos da fundação".
O Tratado sobre virtudes e vícios brota do papel sem uma
ordem prévia, fruto de muita paciência, amor e interesse, para o benefício dos
noviços das Congregações.
Observando a semelhança de algumas virtudes, foi possível
dividi-las em doze famílias, sem que esse número tivesse sido escolhido
previamente. Vêm-nos à mente estas palavras do Apocalipse:
"No meio de sua praça e às duas margens do rio,
achava-se uma árvore da vida, que produz doze frutos, dando cada mês um fruto,
servindo as folhas da árvore para curar as nações" (Apocalipse 22, 2).
Depois das virtudes, fixamo-nos nos vícios correspondentes.
A esses também foi possível dividir em doze famílias.
Assim, ficou pronto o Tratado que apresento-vos agora.
Explicarei, prática e cuidadosamente, a cada mês do vosso noviciado, uma das
doze famílias de virtudes e de seus vícios contrários.
Quanto à ordem que escolhemos para trabalharmos as
diferentes virtudes, pensamos começar pelas Virtudes Gerais (cfr. São Francisco
de Sales, < Introdução à Vida Devota, 3ª parte, cap. I), isto é, pelas que
são de uso mais frequente e cuja influência tem mais efeito no conjunto do
comportamento humano. Pareceu-nos evidente que devêssemos começar pelas
virtudes que ocupam um lugar mais proeminente no dia a dia. São as mais
práticas. Portanto as mais importantes e essenciais.
É mais natural e lógico começar com as virtudes do
sacrifício, de nuance especial.
Vós estais aqui para "arrancar vícios e plantar
virtudes" [N.E.: expressão usada pela Beata Conchita]. Para que
aproveiteis melhor este estudo, parece-me necessário recordar brevemente alguns
dados teológicos sobre as virtudes e os vícios. Procurarei ser claro. Em
primeiro lugar, veremos o que é uma virtude, o que se entende por ato de
virtude e como se cultivam as virtudes.
Nos livros de moral e de espiritualidade, o termo virtus pode ter três significados:
Pode significar a prática do bem em geral: o homem pratica a
virtude quando realiza o bem sob todas as formas.
Pode significar a prática de um bem particular, e nesse
sentido inteiramente objetivo se distinguem várias virtudes diferentes, como é
o caso da virtude da fé, da esperança e da caridade, entre outras.
Por fim, em um sentido totalmente subjetivo, pode significar
aquela força pessoal com que fazemos o bem.
Essa última acepção da palavra 'virtude' corresponde à sua
etimologia. Virtude provém da palavra latina virtus, que significa força.
De fato, toda virtude é uma força, mas nem toda força é uma
virtude. Costuma-se aplicar o termo 'virtude apenas àquelas forças espirituais
permanentes que tornam o homem capaz de realizar o bem. Digo 'forças
espirituais, porque a virtude torna fortes não os corpos, mas as almas. A
virtude é uma força moral. Digo permanentes, porque essas forças não se
consomem nos atos que realizam e mantêm a capacidade de produzir novos atos. A
isso, em filosofia, dá-se o nome de hábito (cfr. Ami du Clergé, 1920, p. 33).
Por fim, digo forças que tornam o homem capaz de realizar o bem, pois esse é o
objeto da virtude, que é o oposto do vício. Virtude e vício são dois hábitos
contrários, um oposto ao outro, um inimigo do outro.
O padre Thomás Pegues, O. P., em seu último e admirável
Comentário à Suma de São Tomás (Tomo VII, p. 2), diz que, entre todas as
distinções que podemos fazer dos hábitos, a mais essencial é a que diferencia
em hábitos bons e hábitos maus.
Hábito é, essencialmente, uma disposição para aquilo que
convém ou que não convém. Toda disposição ao que convém, é boa; toda disposição
ao que não convém, é má. Disso segue que, ao estudar os hábitos segundo suas
duas espécies, a espécie dos hábitos bons e a dos hábitos maus, este Tratado
deverá conter duas grandes divisões: os hábitos bons que movem o homem virtuoso
e os hábitos maus que movem o homem corrupto.
São Tomás trata primeiro das virtudes (2a., 2ae. Q.55 a 67)
e, em seguida, dos vícios (ibid., q. q. sq.). Este Tratado coteja, frente a
frente, virtudes e vícios, dando ênfase à sua contraposição.
O Espírito Santo recomenda que aprendamos onde está a
virtude", a saber, em que ela consiste, de onde vem, como se põe em
prática e que vantagens oferece.
Há dois tipos de virtudes: as naturais e as sobrenaturais.
As virtudes naturais são virtudes puramente humanas. Às
vezes, o homem as recebe ao nascer. Mais frequentemente, adquire-as graças a
seus próprios esforços. Por isso, os teólogos as designam com o nome de
virtudes adquiridas. Essas virtudes são reguladas pela razão.
As virtudes sobrenaturais pertencem à ordem da graça.
Ninguém as possui ao nascer. Tampouco são adquiridas pelo esforço. Provêm
diretamente de Deus. Por isso, são chamadas de virtudes infusas. Santo
Agostinho diz que "a virtude é uma obra de Deus em nós. Virtus est bona qualitas quam I Deus in
nobis operantur" (Lib. II De lib. Arbitrio).
A graça santificante nos une a Deus, associa-nos à sua vida,
faz com que Deus viva em nós: "Se alguém me ama, meu Pai o amará, viremos
a ele, e nele faremos morada".
Todo ser vivo possui um organismo, isto é, um conjunto de
órgãos ou de faculdades com que se manifesta e produz atos para fora de si
mesmo. As virtudes sobrenaturais são os órgãos ou faculdades ativas próprias da
vida divina e humana, que recebemos pela graça. Constituem o modo, a forma,
pela qual Deus nos comunica sua força.
As obras nas quais empregamos as virtudes sobrenaturais são
como o indicativo da vida divina em nós. São atos divinos e humanos que possuem
um valor tão grande que só Deus pode ser sua recompensa.
Graças a essas considerações, compreendemos melhor como as
virtudes sobrenaturais, em razão de seu caráter, origem e poder, elevam-se
muito acima das virtudes naturais.
Existe uma correspondência entre virtudes naturais e
sobrenaturais. Dito de outro modo: toda virtude sobrenatural corresponde a uma
virtude natural, à qual pressupõe, completa e transforma. Também representa uma
energia divina que trabalha em simbiose com uma energia humana. As duas
virtudes correspondentes, a humana e a divina, têm o mesmo nome. Assim, existem
duas humildades, duas prudências, duas temperanças: as de cima e as de baixo.
Disso resulta que podemos praticar e, frequentemente, de fato praticamos, ao
mesmo tempo, as duas virtudes correspondentes.
A graça santificante é um princípio de vida. As virtudes
sobrenaturais são como que o organismo desse princípio de vida. Estão
intimamente unidas à graça santificante e não podem separar-se dela. Ao
recebermos a graça santificante, recebemos também as virtudes sobrenaturais.
Enquanto estamos com a graça santificante, conservamos essas virtudes. Ao
pecarmos gravemente, perdemos a graça santificante e, consequentemente, as
virtudes sobrenaturais. A fé e esperança são as únicas que podem permanecer na
alma sem a vida da graça. A alma em pecado mortal, porém, ao cair na
incredulidade e no desespero, perderá também as virtudes da fé e da esperança.
Deus pode devolver aos pecadores as virtudes perdidas, e de
fato as devolve, junto com a graça santificante, quando recebem Seu perdão.
Note-se que as virtudes naturais, à diferença das sobrenaturais, não morrem por
causa do pecado. Todo ato mau, obviamente, enfraquece-as, assim como todo ato
bom as fortalece. Entretanto o pecado não chega a destruí-las.
As virtudes sobrenaturais crescem ao crescer a união com
Deus. Tudo o que pode estreitar essa união (a oração, a comunhão) concorre para
o aumento das virtudes. Contudo, o caminho mais eficaz e prático de crescer nas
virtudes consiste no exercício efetivo e habitual das que se quer adquirir em
toda a sua plenitude. Quanto mais as praticarmos, tanto mais as fortaleceremos.
As forças naturais são bem distintas das forças
sobrenaturais. As primeiras se gastam pelo muito uso; as segundas se fortalecem
pela prática. As virtudes naturais se consomem; as virtudes sobrenaturais nunca
se esgotam.
Depois de ter dado uma ideia resumida do que seja a virtude,
diremos, brevemente, a seguir, o que seja o ato virtuoso.
Chama-se ato de virtude ou virtuoso o ato que põe em prática
a virtude, A iniciativa de um ato de virtude natural vem da razão. A razão
concebe as motivações do ato, as propõe ao espírito, e assim desperta as
exigências da consciência e determina as resoluções da vontade. As motivações
dessa espécie de ato são sempre naturais. Por isso, o homem pode descobri-las
pela luz da razão.
A iniciativa de um ato de virtude sobrenatural vem de Deus e
não de nós. Deus nos dá a ideia do ato de virtude por meio das suas inspirações
e toma parte na realização do ato por meio do que chamamos de graça atual. Essa
inspiração e participação divina sempre orientam o ato virtuoso a um fim
sobrenatural.
Em razão dos deveres de estado, dos afazeres do dia a dia,
das penas da vida, das relações com o próximo, das tentações e, sobretudo, da
ação do Espírito Santo na alma, nunca faltam oportunidades para o exercício dos
atos virtuosos. Isso deve nos alegrar, porque dos atos virtuosos surge o
merecimento, que é o direito a uma recompensa. O trabalho do operário merece um
salário. Os êxitos do estudante merecem louvores. Da mesma maneira, todo ato
virtuoso sobrenatural também merece uma recompensa. Esse direito provém das
promessas de Deus e da excelência do ato virtuoso em si mesmo. O ato virtuoso
sobrenatural é um ato de ordem divina que, por isso mesmo, possui um valor
divino.
O merecimento de um ato virtuoso pode variar. Seu valor pode
ser aumentado pelas circunstâncias nas quais é exercido. Entre as
circunstâncias que podem aumentar seu valor, temos: as dificuldades que é
necessário vencer para praticá-lo, o grau mais ou menos elevado da graça de
quem pratica o ato virtuoso, a estatura do amor devotado a Deus, a excelência
das intenções da pessoa virtuosa.
Se me perguntassem o que se deve fazer para que um ato de
virtude seja sobrenatural e tenha, por isso, mérito, lhes responderia que
depende da intenção ou vontade de exercer o ato virtuoso. Essa intenção pode
ser explícita, quando alguém se propõe, formalmente, a exercer tal ou qual
virtude sobrenatural. É implícita, quando, sem haver uma intenção expressa, o
ato virtuoso sobrenatural é exercido com a devida advertência, como o ato
religioso; ou quando oferecem-se a Deus atos não religiosos, como o trabalho,
os sofrimentos etc.
É importante adquirir muitos méritos pela prática das
virtudes sobrenaturais. O mérito é a moeda com a qual se compra os favores e as
recompensas divinas. Torna fecunda a existência e faz com que produza frutos
abundantes. Nos propicia crédito diante de Deus. Faz jus às suas graças e à
glória do céu. Poderíamos dizer que sem mérito não há salvação.
Conforme o convite da Sagrada Escritura, expliquei-vos aqui,
filhos que ridos, "onde está a virtude" e as vantagens proporcionadas
pelo ato virtuoso, para inspirar-vos o mais vivo desejo de estudá-las e o
propósito de adquiri-las mais facilmente. Diz o Espírito Santo que, quando
alguém sabe onde está a virtude, sabe "onde se encontram a vida longa e a
felicidade, o fulgor dos olhos e a paz" (Baruc 3,14).
Para ficar mais claro e ajudar a memória a rever mais
facilmente o conjunto de cada família, fiz um quadro sinótico de cada família
que encabeça o texto. Prestai muita atenção às notas que acompanham o primeiro
quadro (Virtudes de Sacrifício), necessárias para sua compreensão, e dos demais
quadros.
Sobre os vícios, aqui, tenho pouco a dizer. A seu tempo
terei ocasião de tratar amplamente de cada um deles. Talvez, mais do que no
estudo das virtudes, tereis modo de conhecer-vos profundamente no estudo dos
vícios. Há em cada parágrafo uma psicologia profunda, um conhecimento completo
do pobre coração humano, de suas misérias, debilidades e imensurável malícia.
Meus filhos amados, do estudo dos vícios advêm-nos uma forte
repulsa a tudo o que é mau, uma grande desconfiança das nossas forças, um maior
discernimento para defender-nos e desvendarmos as tentações do demônio.
Pelo estudo das belas virtudes celestiais, reflexos
vivíssimos da santíssima humanidade de Jesus, lograreis as mais firmes
resoluções de obter esses bons hábitos tão preciosos. Praticando as virtudes
sólidas, como a obediência, a caridade, a humildade e o sacrifício,
encontrareis o verdadeiro caminho da perfeição e da santidade.
Filhos amados, nunca percais de vista a obtenção da preciosa
"atenção amorosa em Deus", da qual mil vezes vos falei, e que é a
própria vida contemplativa. Ela vos ajudará na prática das virtudes mais
elevadas, unindo vossas vidas a Jesus e Maria, pela santíssima vontade do Pai e
a ação do Espírito Santo, o amado de vossas almas.
No estudo paralelo das virtudes e da vida de Nosso Senhor
Jesus Cristo, ao qual vos aplicais diariamente, por dois anos, vereis como, em
nosso modelo amabilíssimo, encontram-se as virtudes em seu grau mais perfeito.
Por intermédio desse estudo, unireis, assim, em vosso
coração, a teoria e a prática, o aprendizado técnico e o exemplo mais perfeito,
e vos conformareis à imagem do perfeito missionário do Espírito Santo.
Cada um, pelos inúmeros motivos que já lhe foram explicados,
sabe o valor de entrar na intimidade com Jesus, a fim de que o Divino Rei viva,
reine Le derrame suas graças no coração de seus filhos prediletos.
Vosso pai, que, verdadeiramente, vos quer santos e suplica a
Jesus, por intermédio do dolorosíssimo Coração de Maria, que vos torne santos
segundo a Sua vontade.
Noviciado do Espírito
Santo e do Coração de Maria.
Tlálpan, sexta-feira 18
de março de 1921.
Festa das Dores da
Santíssima Virgem Maria.
FÉLIX DE JESÚS ROUGIER,
Presbítero.
Mestre de noviços.
Amanhã publico a introdução...