sábado, 15 de abril de 2023

003TVV - INTRODUÇÃO

 



INTRODUÇÃO AO ESTUDO DAS VIRTUDES

Verdadeiramente, o Senhor é admirável em suas obras. Na região infinita do espírito, não existem palavras para expressar seu poder, sabedoria, ternura e amor! (CC 13,5)[1].

Há uma perfeita união entre todas as virtudes, cujas conexões, como numa corrente, se unem sem ruptura até alcançar o céu.

Bendito mil vezes o Senhor, que, em tudo e aqui, de maneira particular, comunica-se por meio do sopro divino do seu Santo Espírito! (CC 13,5).

É tão formoso o campo das virtudes! Contemplamo-las em suas luzes deslumbrantes, em seus múltiplos matizes, a ponto de a alma encantar-se maravilhada, louvando a Deus, que vive entre elas e desfruta de seus distintos aromas!

Ninguém pense que isso seja ilusão ou devaneio. Pelo contrário, é uma realidade encantadora, que, ao ser tocada, abrasa o peito com o fogo santo do divino amor. (CC 13,4).

Ali, sim, há paz, ordem, tranquilidade e segurança! Fica-se tão longe do ruído e agitação do mundo e das criaturas! Tão recôndita é essa morada onde vive o Espírito Santo, que a alma não a encontraria, se Ele mesmo não a introduzisse nesse lugar! (CC 13,8).

O campo das virtudes é regado com o Sangue de Jesus, por isso é tão fecundo e suas flores e frutos imortais. A sombra da Cruz o protege, tão fértil e cheio de graça.

Nesse divino campo, o Espírito Santo cultiva a simplicidade, a inocência, o sacrifício, o recolhimento, a humildade, a obediência, a mortificação, a constância, a compunção e outras mil preciosas virtudes.

O Espírito Santo as produz e as alimenta. Fá-las crescer, desenvolver e frutificar. Colhem-se aqui os frutos da caridade, do gozo espiritual, da paz e da paciência. Aqui, é o lugar que agracia as almas com seus dons preciosos. Aqui, são conhecidas as riquezas da Cruz, os tesouros da paixão, o inestimável valor do sacrifício oculto e desinteressado. Nessa região onde habita o Espírito Santo, a alma, escondida e pura, escuta seus gemidos delicados, sua dulcíssima voz. É esse o lugar onde se deleitam Jesus e a alma: no harmonioso conjunto de todas as virtudes, onde reina o silêncio interior imperturbável, a paz da alma esvaziada de todo o próprio querer, que já não pensa nem pode pensar outra coisa a não ser o amar e o sacrificar-se pelo Amado. Aqui, vive, penetrante e profunda, a presença de Deus em altíssimo grau. Respiram-se a modéstia, a solidão, o recolhimento, que, em sua intimidade, paz e formosura, recebem abrigo, alento e vida do Espírito Santo.

Nessa tranquila quietude do divino campo das virtudes, a alma, esvaziada de tudo o que não é Deus, inclina-se e une-se intimamente a Ele. O divino Espírito deixa-se sentir, escutar e tocar pelo contato puríssimo com as almas cândidas e virgens. Nesse profundo silêncio da alma pura, arrebatam-se e enlevam-se os divinos amores. Aqui é o santuário da comunicação divina, do mais alto cume da união com Deus. Aqui, a alma, por meio da santificação do amor, somente respira e aspira a Deus!

Nessas alturas, o Espírito Santo - ó incomparável bondade! -- unindo-se e estreitando-se à alma pura, enfeitada de todas as virtudes, faz com que esta não pense, nem ouça, nem sinta, nem fale senão do Amado, com o Amado, pelo Amado e no Amado... não podendo ter mais movimento ou vontade a não ser o movimento e a vontade do Amado! Aqui, a alma, absorvida pelo Espírito Santo, começa a ver, diante de sua atônita mirada, outra infinita região de admiráveis segredos, guardados na Cruz. Cai, diante dela, o véu dos sagrados mistérios. Pasma, contempla, na intimidade do amor, a essência divina, a geração eterna, a felicidade de Deus, a própria comunicação do amor! Seu entendimento se enche de luz; sua memória fica suspensa. Sua vontade... Oh! Sua vontade já não lhe pertence, separa-se, aliena-se, confunde-se dentro daquele eterno fogo de caridade, onipotência e bondade!

Terminam aqui os divinos favores, que alcançamos percorrendo o caminho das virtudes? Oh, não! Pois Deus é infinito e reserva-nos sempre novos e inesgotáveis tesouros. O Espírito Santo introduz a alma pura, padecente adornada de toda virtude e cheia de graça, a moradas mais íntimas, verdadeiras antessalas do céu. Ali, através de um ténue véu, a alma parece contemplar o próprio Deus, seu calor, seu olhar, e compreender a verdadeira vida! Ali, a própria Divindade acalenta a alma com seu eterno esplendor. Ali, com maior perfeição se crê, espera e ama, embora afinal, dessas três virtudes teologais, só permaneça absorvendo as demais a caridade amorosa! Ama, ama, a alma, e nada mais sabe fazer a não ser amar; amar e desejar ardentemente, mergulhada num abismo de amor... nada mais que amar, e mais amar, sem cansar-se, nem fartar-se... todavia saciando-se com o fervoroso ardor da união... da atração... da semelhança com seu Deus e seu tudo...

Até ali, as sublimes virtudes conduzem as almas profundamente humildes, imoladas, puras, desinteressadas, modestas e obedientes.

Entre as virtudes, umas arrastam a alma em direção a Deus; outras O atraem até a alma pura. Algumas têm duas faces ou aplicações opostas, como a condescendência santa e a culposa. Dividem-se em grupos, famílias ou matizes, mas o amor, a pureza e o sacrifício representam a substância e os matizes divinos de todas. A pureza levanta-se majestosa entre todas as suas companheiras, como lírio puríssimo, açucena divina. Com sua fragrância especial, impregna, feito bálsamo, todas as demais. (CC 13,5)

A dor da Cruz, essa riqueza desconhecida, também impregna todas as virtudes, conferindo-lhes valor e vida sobrenatural. Sem a Cruz, não há de existir virtude alguma: substância divina de todas as virtudes; substrato de toda santa alma; escada rumo ao céu; laço de indissolúvel união entre Deus e a alma pura. Fez-nos felizes Jesus pela dor, mas por uma dor inocente, pela dor na pureza virginal, pela dor santa e imaculada, que todos havemos de imitar pela constante prática das virtudes.

E o amor? Com esse amor que abraça o imenso campo das virtudes, dando-lhes o ser e a vida, inflama-se o peito divino de Jesus, que, louco de amor, opera prodígios de humilhação e sacrifício em favor do homem! Sua alma puríssima é a gema do amor imolado. É o amor antídoto de todo pecado, vicio, paixão desordenada.

A alma que ama transfunde-se em todas as virtudes e as possui, nelas compenetrada. A alma que ama aniquila-se, humilha-se, oculta-se, morre, para viver em Deus e para Deus. A prática constante das virtudes leva a esse cume de perfeição, à identificação com a vontade divina, que é o escopo deste Tratado: a glória de Deus e a salvação das almas. (CC 13,8 ss.).


 

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DOS VÍCIOS

Mundo, Demônio e Carne

O mundo é um dos maiores inimigos da alma. Arrasta-a a muitos e muito grandes vícios. O mundo, o demônio e a carne controlam todos os vícios, tentações e pecados que Me ofendem.

Sendo o chefe dos inimigos de Deus, Satanás mantém a alma humana dividida, partilhando o seu domínio com o mundo e a carne. O demônio, cheio de ódio e malícia, impele as almas para a região da carne e da impureza, por meio de ardis, ciladas, emboscadas. Por sua vez, a carne lança suas redes e seus laços a seduzir as almas, presas pelo demônio e pelo mundo.

Trata-se de inimigos poderosíssimos, que atuam contra Mim e contra o campo divino das virtudes. Suas armas são conhecidas. Cada um as tem bem afiadas, cheias de secretos mil e traiçoeiras. Disparam contra as almas tiros certeiros, por vezes sem alarde, com enganos atrativos.

Desvendarei, aqui, as abomináveis astúcias de Satanás contra o mundo espiritual, tão lastimosamente enganado de muitas graves maneiras.

Para matar as almas ou ao menos dividi-las, entretê-las ou desviá-las da graça, retirando-lhes a perfeição, e a Mim a glória, o mundo inspira os seguintes vícios: sensualidade, dissipação, escândalo, leviandade, ócio, comodidade, delicadeza, calúnia, murmuração, difamação, respeito humano, vaidade, fragilidade, fraqueza, debilidade, condescendência, adulação, exagero, curiosidade, precipitação, imprudência, frivolidade, imprevisão, sensibilidade, susceptibilidade, inconstância, instabilidade, infidelidade, indiscrição, veleidade, injustiça.

O demônio controla diretamente estes vícios: soberba, inveja, astúcia, escrúpulos, turbamento, perturbação, inquietude, dúvida, hesitação, indecisão, hipocrisia, egoísmo, mentira, duplicidade, falsidade, baixeza, lentidão, ociosidade, cansaço, ira, cólera, vingança, rancor, ódio, traição, perfídia, orgulho, amor-próprio, pretensão, presunção, ostentação, altivez, afetação, covardia, subterfugio, vileza, ocultação, premeditação, burla, sarcasmo, fingimento, ingratidão, falta de mortificação, impaciência, acrimônia, dureza, ruindade, desobediência, fraude.

A carne controla estes outros vícios: luxúria, impureza, malícia, volúpia, imodéstia, licenciosidade e suas consequências, obstinação, confusão, insensibilidade, insensatez, dúvida, ilusão, engano, frieza, tibieza, indiferença, desânimo, impenitência.

O vício da desordem abarca a todos os demais, porque habita no coração de Satanás, autor de todos os vícios.

Apesar dessa subdivisão, cada inimigo capital, a saber, o mundo, o demônio e a carne, não se limita a cuidar somente do seu reduto. Pelo contrário, os três, unida e separadamente, trabalham com o mesmo fim de perder as almas e roubar a Minha glória. Conhecem os efeitos que cada vício causa no coração. Sabem quantas almas arrasta consigo o mundo, por meio dos vícios de sua predileção. O mundo lança, em seu campo, redes chamativas multiformes com que cativa as almas desavisadas, as quais seduz e envenena, tornando-as suas.

O demônio e a carne, embora de distintas maneiras, agem juntos para um mesmo pérfido fim, que já expliquei e que as almas hão de conhecer para o próprio bem.

Felizes os corações que se preservam de tais males e que, abandonando os vícios, adentram no belo campo das virtudes, à sombra do sacrifício e da dor, isto é, da preciosa Cruz, que esconde em seu íntimo a doçura e as maiores delícias que pode desejar o coração humano. (CC 15,199-206).



[1] Beata Maria Concepción Cabrera de Armida (Conchita), Diário espiritual de uma mãe de família, São Paulo, Katechesis, 2020. A sigla CC refere-se ao título original dado por Conchita a seu Diário, Cuentas de Consciencia. (NdT)





Amanhã esclarecerei sobre a continuidade desse estudo somente pelo grupo de estudos.

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