INTRODUÇÃO AO ESTUDO DAS VIRTUDES
Verdadeiramente, o Senhor é admirável em suas obras. Na
região infinita do espírito, não existem palavras para expressar seu poder,
sabedoria, ternura e amor! (CC 13,5)[1].
Há uma perfeita união entre todas as virtudes, cujas
conexões, como numa corrente, se unem sem ruptura até alcançar o céu.
Bendito mil vezes o Senhor, que, em tudo e aqui, de maneira
particular, comunica-se por meio do sopro divino do seu Santo Espírito! (CC
13,5).
É tão formoso o campo das virtudes! Contemplamo-las em suas
luzes deslumbrantes, em seus múltiplos matizes, a ponto de a alma encantar-se
maravilhada, louvando a Deus, que vive entre elas e desfruta de seus distintos
aromas!
Ninguém pense que isso seja ilusão ou devaneio. Pelo
contrário, é uma realidade encantadora, que, ao ser tocada, abrasa o peito com
o fogo santo do divino amor. (CC 13,4).
Ali, sim, há paz, ordem, tranquilidade e segurança! Fica-se
tão longe do ruído e agitação do mundo e das criaturas! Tão recôndita é essa
morada onde vive o Espírito Santo, que a alma não a encontraria, se Ele mesmo
não a introduzisse nesse lugar! (CC 13,8).
O campo das virtudes é regado com o Sangue de Jesus, por
isso é tão fecundo e suas flores e frutos imortais. A sombra da Cruz o protege,
tão fértil e cheio de graça.
Nesse divino campo, o Espírito Santo cultiva a simplicidade,
a inocência, o sacrifício, o recolhimento, a humildade, a obediência, a
mortificação, a constância, a compunção e outras mil preciosas virtudes.
O Espírito Santo as produz e as alimenta. Fá-las crescer,
desenvolver e frutificar. Colhem-se aqui os frutos da caridade, do gozo
espiritual, da paz e da paciência. Aqui, é o lugar que agracia as almas com
seus dons preciosos. Aqui, são conhecidas as riquezas da Cruz, os tesouros da
paixão, o inestimável valor do sacrifício oculto e desinteressado. Nessa região
onde habita o Espírito Santo, a alma, escondida e pura, escuta seus gemidos
delicados, sua dulcíssima voz. É esse o lugar onde se deleitam Jesus e a alma:
no harmonioso conjunto de todas as virtudes, onde reina o silêncio interior
imperturbável, a paz da alma esvaziada de todo o próprio querer, que já não
pensa nem pode pensar outra coisa a não ser o amar e o sacrificar-se pelo
Amado. Aqui, vive, penetrante e profunda, a presença de Deus em altíssimo grau.
Respiram-se a modéstia, a solidão, o recolhimento, que, em sua intimidade, paz
e formosura, recebem abrigo, alento e vida do Espírito Santo.
Nessa tranquila quietude do divino campo das virtudes, a
alma, esvaziada de tudo o que não é Deus, inclina-se e une-se intimamente a
Ele. O divino Espírito deixa-se sentir, escutar e tocar pelo contato puríssimo
com as almas cândidas e virgens. Nesse profundo silêncio da alma pura,
arrebatam-se e enlevam-se os divinos amores. Aqui é o santuário da comunicação
divina, do mais alto cume da união com Deus. Aqui, a alma, por meio da
santificação do amor, somente respira e aspira a Deus!
Nessas alturas, o Espírito Santo - ó incomparável bondade!
-- unindo-se e estreitando-se à alma pura, enfeitada de todas as virtudes, faz
com que esta não pense, nem ouça, nem sinta, nem fale senão do Amado, com o
Amado, pelo Amado e no Amado... não podendo ter mais movimento ou vontade a não
ser o movimento e a vontade do Amado! Aqui, a alma, absorvida pelo Espírito
Santo, começa a ver, diante de sua atônita mirada, outra infinita região de
admiráveis segredos, guardados na Cruz. Cai, diante dela, o véu dos sagrados
mistérios. Pasma, contempla, na intimidade do amor, a essência divina, a
geração eterna, a felicidade de Deus, a própria comunicação do amor! Seu
entendimento se enche de luz; sua memória fica suspensa. Sua vontade... Oh! Sua
vontade já não lhe pertence, separa-se, aliena-se, confunde-se dentro daquele
eterno fogo de caridade, onipotência e bondade!
Terminam aqui os divinos favores, que alcançamos percorrendo
o caminho das virtudes? Oh, não! Pois Deus é infinito e reserva-nos sempre
novos e inesgotáveis tesouros. O Espírito Santo introduz a alma pura, padecente
adornada de toda virtude e cheia de graça, a moradas mais íntimas, verdadeiras
antessalas do céu. Ali, através de um ténue véu, a alma parece contemplar o
próprio Deus, seu calor, seu olhar, e compreender a verdadeira vida! Ali, a
própria Divindade acalenta a alma com seu eterno esplendor. Ali, com maior
perfeição se crê, espera e ama, embora afinal, dessas três virtudes teologais,
só permaneça absorvendo as demais a caridade amorosa! Ama, ama, a alma, e nada
mais sabe fazer a não ser amar; amar e desejar ardentemente, mergulhada num
abismo de amor... nada mais que amar, e mais amar, sem cansar-se, nem
fartar-se... todavia saciando-se com o fervoroso ardor da união... da
atração... da semelhança com seu Deus e seu tudo...
Até ali, as sublimes virtudes conduzem as almas
profundamente humildes, imoladas, puras, desinteressadas, modestas e
obedientes.
Entre as virtudes, umas arrastam a alma em direção a Deus;
outras O atraem até a alma pura. Algumas têm duas faces ou aplicações opostas,
como a condescendência santa e a culposa. Dividem-se em grupos, famílias ou
matizes, mas o amor, a pureza e o sacrifício representam a substância e os
matizes divinos de todas. A pureza levanta-se majestosa entre todas as suas
companheiras, como lírio puríssimo, açucena divina. Com sua fragrância
especial, impregna, feito bálsamo, todas as demais. (CC 13,5)
A dor da Cruz, essa riqueza desconhecida, também impregna
todas as virtudes, conferindo-lhes valor e vida sobrenatural. Sem a Cruz, não
há de existir virtude alguma: substância divina de todas as virtudes; substrato
de toda santa alma; escada rumo ao céu; laço de indissolúvel união entre Deus e
a alma pura. Fez-nos felizes Jesus pela dor, mas por uma dor inocente, pela dor
na pureza virginal, pela dor santa e imaculada, que todos havemos de imitar
pela constante prática das virtudes.
E o amor? Com esse amor que abraça o imenso campo das virtudes,
dando-lhes o ser e a vida, inflama-se o peito divino de Jesus, que, louco de
amor, opera prodígios de humilhação e sacrifício em favor do homem! Sua alma
puríssima é a gema do amor imolado. É o amor antídoto de todo pecado, vicio,
paixão desordenada.
A alma que ama transfunde-se em todas as virtudes e as
possui, nelas compenetrada. A alma que ama aniquila-se, humilha-se, oculta-se,
morre, para viver em Deus e para Deus. A prática constante das virtudes leva a
esse cume de perfeição, à identificação com a vontade divina, que é o escopo
deste Tratado: a glória de Deus e a salvação das almas. (CC 13,8 ss.).
INTRODUÇÃO AO ESTUDO DOS VÍCIOS
Mundo, Demônio e Carne
O mundo é um dos maiores inimigos da alma. Arrasta-a a
muitos e muito grandes vícios. O mundo, o demônio e a carne controlam todos os
vícios, tentações e pecados que Me ofendem.
Sendo o chefe dos inimigos de Deus, Satanás mantém a alma
humana dividida, partilhando o seu domínio com o mundo e a carne. O demônio,
cheio de ódio e malícia, impele as almas para a região da carne e da impureza,
por meio de ardis, ciladas, emboscadas. Por sua vez, a carne lança suas redes e
seus laços a seduzir as almas, presas pelo demônio e pelo mundo.
Trata-se de inimigos poderosíssimos, que atuam contra Mim e
contra o campo divino das virtudes. Suas armas são conhecidas. Cada um as tem
bem afiadas, cheias de secretos mil e traiçoeiras. Disparam contra as almas
tiros certeiros, por vezes sem alarde, com enganos atrativos.
Desvendarei, aqui, as abomináveis astúcias de Satanás contra
o mundo espiritual, tão lastimosamente enganado de muitas graves maneiras.
Para matar as almas ou ao menos dividi-las, entretê-las ou
desviá-las da graça, retirando-lhes a perfeição, e a Mim a glória, o mundo
inspira os seguintes vícios: sensualidade, dissipação, escândalo, leviandade,
ócio, comodidade, delicadeza, calúnia, murmuração, difamação, respeito humano,
vaidade, fragilidade, fraqueza, debilidade, condescendência, adulação, exagero,
curiosidade, precipitação, imprudência, frivolidade, imprevisão, sensibilidade,
susceptibilidade, inconstância, instabilidade, infidelidade, indiscrição,
veleidade, injustiça.
O demônio controla diretamente estes vícios: soberba,
inveja, astúcia, escrúpulos, turbamento, perturbação, inquietude, dúvida, hesitação,
indecisão, hipocrisia, egoísmo, mentira, duplicidade, falsidade, baixeza,
lentidão, ociosidade, cansaço, ira, cólera, vingança, rancor, ódio, traição, perfídia,
orgulho, amor-próprio, pretensão, presunção, ostentação, altivez, afetação,
covardia, subterfugio, vileza, ocultação, premeditação, burla, sarcasmo,
fingimento, ingratidão, falta de mortificação, impaciência, acrimônia, dureza,
ruindade, desobediência, fraude.
A carne controla estes outros vícios: luxúria, impureza,
malícia, volúpia, imodéstia, licenciosidade e suas consequências, obstinação,
confusão, insensibilidade, insensatez, dúvida, ilusão, engano, frieza, tibieza,
indiferença, desânimo, impenitência.
O vício da desordem abarca a todos os demais, porque habita
no coração de Satanás, autor de todos os vícios.
Apesar dessa subdivisão, cada inimigo capital, a saber, o
mundo, o demônio e a carne, não se limita a cuidar somente do seu reduto. Pelo
contrário, os três, unida e separadamente, trabalham com o mesmo fim de perder
as almas e roubar a Minha glória. Conhecem os efeitos que cada vício causa no
coração. Sabem quantas almas arrasta consigo o mundo, por meio dos vícios de
sua predileção. O mundo lança, em seu campo, redes chamativas multiformes com
que cativa as almas desavisadas, as quais seduz e envenena, tornando-as suas.
O demônio e a carne, embora de distintas maneiras, agem
juntos para um mesmo pérfido fim, que já expliquei e que as almas hão de
conhecer para o próprio bem.
Felizes os corações que se preservam de tais males e que, abandonando
os vícios, adentram no belo campo das virtudes, à sombra do sacrifício e da
dor, isto é, da preciosa Cruz, que esconde em seu íntimo a doçura e as maiores
delícias que pode desejar o coração humano. (CC 15,199-206).
[1] Beata
Maria Concepción Cabrera de Armida (Conchita), Diário espiritual de uma mãe de família,
São Paulo, Katechesis, 2020. A sigla CC refere-se ao título original dado por
Conchita a seu Diário, Cuentas de Consciencia. (NdT)
Amanhã esclarecerei sobre a continuidade desse estudo somente pelo grupo de estudos.
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