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sábado, 16 de janeiro de 2016

NORMAS PARA PROCEDER NO DISCERNIMENTO DE PRESUMÍVEIS APARIÇÕES E REVELAÇÕES



CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

NORMAS PARA PROCEDER NO DISCERNIMENTO
 DE PRESUMÍVEIS APARIÇÕES E REVELAÇÕES

PREFÁCIO

The Holy See1. A Congregação para a Doutrina da Fé ocupa-se das matérias relacionadas com a promoção e a tutela da doutrina da fé e da moral e, além disso, é competente para o exame de outros problemas ligados à disciplina da fé, como os casos de pseudo-misticismo, de aparições afirmadas, de visões e mensagens atribuídas a uma origem sobrenatural. Em conformidade com esta última delicada tarefa confiada ao Dicastério, há já   mais de trinta anos foram preparadas Normae de modo procedendi in diudicandis praesumptis apparitionibus ac revelationibuss. O Documento, deliberado pelos Padres da Sessão Plenária da Congregação, foi aprovado pelo Servo de Deus, Papa Paulo VI, no dia 24 de Fevereiro de 1978 e, consequentemente, emanado pelo Dicastério no dia 25 de Fevereiro de 1978. Nessa época, asNormas foram enviadas para conhecimento dos Bispos, sem proceder a uma sua publicação oficial, também em consideração do facto de que elas dizem respeito em primeira pessoa os Pastores da Igreja.

2. Como se sabe, com o passar do tempo o Documento foi publicado nalgumas obras sobre esta matéria, em mais de uma língua, mas sem a autorização prévia deste Dicastério competente. Hoje, é necessário reconhecer que os conteúdos principais desta importante medida normativa são de domínio público. Portanto, esta Congregação para a Doutrina da Fé considerou oportuno publicar as supramencionadas Normas, encarregando-se de uma tradução das mesmas nas principais línguas.

3. A actualidade da problemática de experiências relacionadas com os fenómenos sobrenaturais na vida e na missão da Igreja foi realçada também recentemente pela solicitude pastoral dos Bispos reunidos na XII Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bispos sobre a Palavra de Deus, em Outubro de 2008. Tal preocupação foi recolhida pelo Santo Padre Bento XVI, inserindo-a no horizonte global da economia da salvação, num trecho importante da Exortação Apostólica pós-sinodal Verbum Domini. Parece oportuno recordar aqui tal ensinamento do Pontífice, que se deve acolher como convite a prestar a conveniente atenção àqueles fenómenos sobrenaturais, aos quais se dirige também a presente publicação:

«A Igreja exprime a consciência de se encontrar com Jesus Cristo diante da Palavra definitiva de Deus; Ele é “o Primeiro e o Último” (Ap 1, 17). Ele concedeu à criação e à história o seu sentido  definitivo; por isso, somos chamados a viver o tempo, a habitar a criação de Deus no interior deste ritmo escatológico da Palavra; “Portanto, a economia cristã, como nova e definitiva aliança, jamais passará, e não se há-de esperar nenhuma outra revelação pública antes da gloriosa manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo (cf. 1 Tm 6, 14; Tt 2, 13)” (Dei Verbum, 4). Com efeito, como recordaram os Padres durante o Sínodo, a “especificidade do cristianismo manifesta-se no evento Jesus Cristo, ápice da Revelação, cumprimento das promessas de Deus e mediador do encontro entre o homem e Deus. Ele, ‘que nos revelou Deus’ (Jo 1, 18) é a Palavra singular e definitiva entregue à humanidade” (Propositio 4). São João da Cruz expressou esta verdade de modo admirável: “A partir do momento em que nos ofereceu o seu Filho, que é a sua Palavra singular e definitiva, disse-nos tudo de uma única vez nesta Palavra única, e nada mais tem a dizer...  Com efeito, aquilo que um dia dizia parcialmente aos profetas, disse-o inteiramente no seu Filho, doando-nos este tudo, que é o seu Filho. Por isso, quem ainda quisesse interrogar o Senhor e pedir-lhe visões ou revelações, não apenas cometeria uma insensatez, mas ofenderia a Deus, porque não fixa o seu olhar unicamente em Cristo e continua a procurar realidades diversas e novidades” (Subida ao Monte Carmelo, II, 22)».
Tendo presente quanto dissemos acima, o Santo Padre Bento XVI releva:

«O Sínodo recomendou que “se ajudassem os fiéis a bem distinguir a Palavra de Deus das revelações particulares” (Propositio47), cujo “papel não é... ‘completar’ a Revelação definitiva de Cristo, mas ajudar a vivê-la mais plenamente, numa determinada época da história” (Catecismo da Igreja Católica, n. 67). O valor das revelações privadas é essencialmente diverso do da única revelação pública: esta exige a nossa fé; de facto nela, por meio de palavras humanas e da mediação da comunidade viva da Igreja, fala-nos o próprio Deus. O critério da verdade de uma revelação privada é a sua orientação para o próprio Cristo. Quando ela nos afasta d’Ele, certamente não vem do Espírito Santo, que nos guia no âmbito do Evangelho e não fora dele. A revelação privada é uma ajuda para a fé, e manifesta-se como credível precisamente porque orienta para a única revelação pública. Por isso, a aprovação eclesiástica de uma revelação privada indica essencialmente que a respectiva mensagem não contém nada que contradiga a fé e os bons costumes; é lícito torná-la pública, e os fiéis são autorizados a prestar-lhe de forma prudente a sua adesão. Uma revelação privada pode introduzir novas acentuações, fazer surgir novas formas de piedade ou aprofundar antigas. Pode revestir-se de um certo carácter profético (cf. 1 Ts 5, 19-21) e ser uma válida ajuda para compreender e viver melhor o Evangelho na hora actual; por isso ela não deve ser descuidada. É uma ajuda, que é oferecida, mas da qual não é obrigatório fazer uso. Contudo, deve tratar-se de um alimento para a fé, a esperança e a caridade, que são o caminho permanente da salvação para todos (cf. Congregação para a Doutrina da Fé, A mensagem de Fátima, 26 de Junho de 2000: Ench. Vat. 19, nn. 974-1.021)». (1)

4.  A profunda esperança desta Congregação é que a publicação oficial das Normas para proceder no discernimento de presumíveis aparições e revelações possa contribuir para o compromisso dos Pastores da Igreja católica na tarefa exigente de discernimento das presumíveis aparições e revelações, mensagens e locuções ou, mais em geral, fenómenos extraordinários ou de presumível origem sobrenatural. Ao mesmo tempo, deseja-se que o texto possa ser útil também para os teólogos e peritos neste âmbito da experiência viva da Igreja, que hoje tem uma certa importância e necessita de uma reflexão cada vez  mais  aprofundada.

William Joseph Levada

Prefeito

Cidade do Vaticano, 14 de Dezembro de 2011, memória litúrgica de São João da Cruz.


1) Exortação Apostólica pós-sinodal Verbum Domini sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja, 30 de Setembro de 2010, n. 14: AAS 102 (2010), 695-696. A tal propósito, vejam-se também os trechos do Catecismo da Igreja Católica dedicados a este tema (cf. nn. 66-67).

Fonte:
http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20111214_prefazione-levada_po.html

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

NORMAS PARA PROCEDER NO DISCERNIMENTO DE PRESUMÍVEIS APARIÇÕES E REVELAÇÕES



SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

NORMAS PARA PROCEDER NO DISCERNIMENTO
 DE PRESUMÍVEIS APARIÇÕES E REVELAÇÕES

Nota Preliminar

Origem e carácter das Normas

Durante a Sessão Plenária anual de Novembro de 1974, os Padres desta Sagrada Congregação examinaram os problemas relativos às presumíveis aparições e às revelações, muitas vezes com elas relacionadas, e chegaram às seguintes conclusões:

1. Hoje, mais do que no passado, a notícia destas aparições difunde-se rapidamente entre os fiéis graças aos meios de informação (mass media). Além disso, a facilidade dos deslocamentos favorece e multiplica as peregrinações. Por isso, a Autoridade eclesiástica é chamada a pronunciar-se a este respeito sem demora.

2. Por outro lado, a mentalidade hodierna e as exigências científicas e aquelas próprias do inquérito crítico tornam mais difícil, se não quase impossível, emitir com a devida rapidez os juízos que no passado concluíam os inquéritos em matéria (constat de supernaturalitate, non constat de supernaturalitate) e que ofereciam aos Ordinários a possibilidade de autorizar ou proibir o culto público ou outras formas de devoção entre os fiéis.
Por estes motivos, a fim de que a devoção suscitada entre os fiéis por acontecimentos deste tipo possa manifestar-se no respeito da plena comunhão com a Igreja e dar frutos, dos quais a própria Igreja possa discernir em seguida a verdadeira natureza dos acontecimentos, os Padres julgaram que deviam promover em matéria o seguinte procedimento.
Quando a Autoridade eclesiástica for informada sobre uma presumível aparição ou revelação, será sua tarefa:
a) em primeiro lugar, julgar sobre o facto segundo critérios positivos e negativos (cf.infra, n. I);
b) em seguida, se este exame chegar a uma conclusão favorável, permitir algumas manifestações públicas de culto ou de devoção, prosseguindo na vigilância sobre elas com grande prudência (isto equivale à fórmula: «pro nunc nihil obstare»);
c) finalmente, à luz do tempo transcorrido e da experiência, com especial relação à fecundidade dos frutos espirituais gerados pela nova devoção, expressar um juízo de veritate et supernaturalitate, se o caso o exigir.

I. Critérios para julgar, pelo menos  com uma certa probabilidade,
 sobre o carácter das presumíveis aparições ou revelações

A) Critérios positivos:

a) Certeza moral, ou pelo menos grande probabilidade da existência do facto, adquirida por meio de uma investigação séria.
b) Circunstâncias particulares relativas à existência e à natureza do facto, ou seja:
1. qualidades pessoais do sujeito ou dos sujeitos (em particular, o equilíbrio psíquico, a honestidade e a rectidão da vida moral, a sinceridade e a docilidade habitual para com a autoridade eclesiástica, a predisposição para retomar um regime normal de vida de fé, etc.);
2. no que diz respeito à revelação, doutrina teológica e espiritual verdadeira e isenta de erro;
3. devoção sadia e frutos espirituais abundantes e constantes  (por exemplo, espírito de oração, conversões, testemunhos de caridade, etc.).

B) Critérios negativos:
a) Erro manifesto acerca do facto.
b) Erros doutrinais atribuídos ao próprio Deus, ou à Bem-Aventurada Virgem Maria, ou a algum santo nas suas manifestações, considerando todavia a possibilidade de que o sujeito tenha acrescentado – também inconscientemente – a uma autêntica revelação sobrenatural, elementos puramente humanos, ou então algum erro de ordem natural (cf. Santo Inácio,Exercícios, n. 336).
c) Uma procura evidente de lucro, ligada estritamente ao facto.
d) Actos gravemente imorais realizados no momento ou por ocasião do facto pelo sujeito ou pelos seus seguidores.
e) Doenças psíquicas ou tendências psicopáticas no sujeito, que com certeza tenham exercido uma influência sobre o presumível facto sobrenatural, ou então psicose, histeria colectiva ou outros elementos deste género.

Há que observar que estes critérios positivos e negativos são indicativos e não taxativos, e devem ser aplicados de modo cumulativo, ou seja, com uma sua convergência recíproca.

II. Intervenção da Autoridade eclesiástica competente

1. Se, por ocasião do presumível facto sobrenatural, nascem de modo quase espontâneo entre os fiéis um culto ou uma sua devoção, a Autoridade eclesiástica competente tem o grave dever de  se informar com tempestividade e de proceder com cuidado a uma investigação.

2. A Autoridade eclesiástica competente pode intervir com base num pedido  legítimo dos fiéis (em comunhão com os Pastores e não impelidos por espírito sectário) para autorizar e promover algumas formas de culto ou de devoção se, depois da aplicação dos critérios supramencionados, nada se lhe opuser. Contudo, prestar-se-á atenção a fim de que os fiéis não considerem este modo de agir como uma aprovação do carácter sobrenatural do facto por parte da Igreja (cf. Nota preliminar, c).

3. Em virtude da sua tarefa doutrinal e pastoral, a Autoridade competente pode intervir motu proprio; aliás, deve fazê-lo em circunstâncias graves, por exemplo para corrigir ou prevenir abusos no exercício do culto e da devoção, para condenar doutrinas erróneas, para evitar perigos de um  misticismo falso ou inconveniente, etc.

4. Nos casos duvidosos, que não apresentam risco algum para o bem da Igreja, a Autoridade eclesiástica competente abster-se-á de qualquer juízo e de toda a acção directa (porque pode acontecer também que, depois de um certo período de tempo, o presumível facto sobrenatural caia no esquecimento); no entanto, não deve deixar de ser vigilante para intervir, se for necessário, com rapidez e prudência.

III. Autoridades competentes para intervir

1. Compete antes de tudo ao Ordinário do lugar a tarefa de vigiar e intervir.
2. A Conferência Episcopal regional ou nacional pode intervir:
a) se o Ordinário do lugar, desempenhando a sua parte, recorrer a ela para discernir com maior segurança sobre o facto;
b) se o facto já pertence ao âmbito nacional ou regional, contudo sempre com o consenso prévio do Ordinário do lugar.
3. A Sé Apostólica pode intervir, quer a pedido do próprio Ordinário, quer de um grupo qualificado de fiéis, quer também directamente em razão da jurisdição universal do Sumo Pontífice (cf. infra, n. IV).

IV. Intervenção da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé

1. a) A intervenção da Sagrada Congregação pode ser pedida quer pelo Ordinário, desempenhada a própria parte, quer por um grupo qualificado de fiéis. Neste segundo caso, prestar-se-á atenção a fim de que o recurso à Sagrada Congregação não seja motivado por razões suspeitas (como, por exemplo, a vontade de constranger o Ordinário a modificar as suas legítimas decisões, a ratificar algum grupo sectário, etc.).

b) Compete à Sagrada Congregação intervir motu proprio nos casos mais graves, em particular quando o facto envolve uma parte consistente da Igreja, sempre depois de ter consultado o Ordinário e, se a situação o exigir, também a Conferência Episcopal.

2. Compete à Sagrada Congregação julgar e aprovar o modo de proceder do Ordinário ou, se julgar possível e conveniente, proceder a um novo exame do facto, distinto daquele realizado pelo Ordinário e levado a cabo pela própria Sagrada Congregação ou por uma Comissão especial.

As presentes Normas, deliberadas na Sessão Plenária desta Sagrada Congregação, foram aprovadas pelo Sumo Pontífice Paulo VI, felizmente reinante, a 24 de Fevereiro de 1978.

Roma, do Palácio da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, 25 de Fevereiro de 1978.

Franjo Cardinale ŠeperPrefeito
Jérôme Hamer, O.P.Secretário

Fonte:
http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19780225_norme-apparizioni_po.html


quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

A Igreja acredita em revelações e aparições?



Em síntese: A Igreja acredita na possibilidade de aparições e revelações particulares, pois estas ocorreram desde os tempos bíblicos (a São Paulo, a São Pedro, a Sto. Estevão…) através dos séculos até nossos tempos. Toda­via, como Mãe e Mestra, a igreja é prudente e não se precipita no julgamento dos fenômenos. Manda examiná-los por peritos; em alguns casos, o laudo daí  resultante é negativo (pois se verifica doença mental ou algum fator de ordem moral incompatível com uma intervenção do céu); em outras ocasiões, o laudo pode ser favorável ao culto da Virgem SS. como decorre dos fenômenos avali­ados (são os casos de Lourdes e Fátima); em outras situações ainda, não aparece por que condenar os fenômenos, como também não há por que lhes dar abono (ainda que indireto); em tais circunstâncias, a Igreja não interfere nas demonstrações de piedade ocorrentes nos lugares das supostas aparições, tendo em vista o aspecto pastoral ou os benefícios espirituais e físicos que resultam das peregrinações e celebrações ligadas a esses lugares.

Como quer que seja, o bom senso lembra que vivemos numa época de crise e desânimo, em que grande parte das populações é propensa a imaginar soluções extraordinárias e fenômenos raros, visto que os recursos convencionais do saber humano não resolvem os problemas da humanidade contemporânea. É de notar também que uma autêntica aparição não poderá senão confirmar as verdades do Evangelho; profecias muito minuciosas são suspeitas de inautenticidade. O que fica sempre, é a mensagem: oração e penitência, como resultado de uma genuína aparição.

Têm-se multiplicado, no Brasil e no estrangeiro, fenômenos de aparições atribuídas à Virgem SS.. As opiniões se acham divididas a respeito, pois, ao lado dos que crêem facilmente numa intervenção do céu, há aqueles que recusam ceticamente dar-lhes crédito. Em muitos casos perguntam o que a Igreja pensa a respeito deste ou daquele caso ou no tocante às aparições em geral.

Vamos, pois, nas páginas subseqüentes, apresentar as linhas-mestras da doutrina e da atitude da Igreja frente ao fenômeno “Aparições”, valendo-nos especialmente do opúsculo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil intitulado “Aparições e Revelações Particulares” (Coleção “Subsídios Doutrinais da CNBB”  nº 1).

Comecemos por descrever mais detidamente o problema.

1. OS  FATOS

Desde o século XVI tem-se notado, com maior freqüência do que antes, o fenômeno “aparições”. Assim em 1531 em Guadalupe a Virgem SS. terá apa­recido ao índio Juan Diego; em 1858 em Lourdes (França) a Sta. Bernadete Soubirous; em 1917 em Fatima (Portugal) a três pequenos pastores. No Brasil, a partir de 1960 registram-se os casos seguintes:

1. 1960 em diante: em Erechim, Rio Grande do Sul, Nossa Senhora da Santa Cruz se estaria manifestando a Dona Dorotéia.

2. 1967-1977: Nossa Senhora da Natividade teria aparecido ao Dr. Fausto Faria, em Natividade, Rio de Janeiro.

3. 1975 em diante: a imagem de Nossa Senhora do Senhor Morto estaria sangrando e transmitindo mensagens a Dona Hermínia Morais de Souza, em Itú, São Paulo.

4. 1987-1988: Alfredo Moreira teria visto Nossa Senhora da Obediência e dela recebido mensagens, em Congonhal, Minas Gerais.

5. 1988: um grupo de crianças estaria vendo Nossa Senhora e recebendo dela mensagens, em Taquari, Rio Grande do Sul.

6. Após 1988: até nossos dias numerosos são os casos que vão sendo registrados.

Além desses, citam-se no Brasil muitos outros relatos de fatos extraordinários, como o de Dona Edelmira de Paiva Nunes: o forro de sua casa desabou, deixando intacta a imagem de Nossa Senhora; vários romeiros teriam visto a imagem de Nossa Senhora da Penha lacrimejar, no Rio, 1984; a Igreja de Nossa Senhora, Rosa Mística, em Juiz de Fora, teria vertido água; o altar de Nossa Senhora, Rosa Mística, em Jacarezinho, no Paraná, também teria vertido água, em 1987; o mesmo teria acontecido em Oliveira Fortes; Minas Gerais, com três quaresmeiras. Fora do Brasil, um elenco de aparições no século XX encontra-se em PR 390/1994, pp. 508-510.

Vejamos o que pensar a respeito.

2.  QUE DIZER?

2.1. Atitude da Igreja

A Igreja crê na possibilidade de aparições do Senhor e de seus Santos, pois a própria Escritura atesta a ocorrência de autênticas aparições. Assim São Paulo, na estrada para Damasco, foi impressionado por uma visão do Senhor, que o chamava à conversão (cf. At 9, 3-9); São Pedro teve uma visão antes de ir à casa do centurião Cornélio (cf. At 10, 9-11); S. Estêvão, antes de morrer, viu a glória de Deus e Jesus à direita do Pai (cf. At 7,55s). – Todavia, antes de se pronunciar a respeito de alguma aparição, a Igreja é cautelosa; manda examinar cada caso criteriosamente, pois sabe que muitas vezes os fiéis, com toda a boa fé, podem imaginar estar vendo e ouvindo o que não passa de projeções de sua fantasia.

O  exame de determinado caso pode chegar a uma das três seguintes conclusões:

1) O laudo é negativo, pois se verifica que, da parte dos(as) videntes, há debilidade mental, fantasia exuberante, desonestidade, charlatanismo… Tal foi o caso das visões de Garabandal (Espanha). A Igreja também se pronunciou negativamente sobre as “revelações” do Senhor a Sta. Brígida.

2) O laudo registra frutos positivos no plano espiritual e físico (conversões, afervoramento, curas de doenças e outros benefícios…), ao passo que nada desabona a saúde mental e a honestidade de vida dos(as) videntes. Em tais casos, a Igreja não somente permite, mas favorece o culto ao Senhor ou ao(à) Santo(a) que se julga ter aparecido. Daí o culto a Nossa Senhora de La Salette, a Nossa Senhora de Lourdes, de Fátima…, havendo a festa respectiva no ca­lendário litúrgico da Igreja. Note-se bem: embora a Igreja favoreça o culto a Nossa Senhora em tal ou tal lugar, ela nunca diz, nem dirá, que a Virgem SS. Apareceu; o fenômeno “aparição” não pode ser definido pela Igreja como verda­de de fé. A revelação pública e de fé divina está encerrada com a geração dos Apóstolos; nenhumartigo pode ser acrescentado ao Credo. Assim escreve o Concílio do Vaticano II em sua Constituição Dei Verbum n0 4:

“A dispensação da graça cristã, como aliança nova e definitiva, jamais passará, e já não há que esperar alguma nova revelação pública antes da gloriosa manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. 1Tm 6, 14 e Tt 2, 13)”.

Por conseguinte, fica a critério dos fiéis julgar as razões pró e contra a autenticidade de cada “aparição” não condenada pela Igreja e daí tirar a conclusão que mais lógica lhes pareça; é-lhes lícito crer ou não crer nas aparições em foco.

O Papa Bento XIV (1740-1758) publicou as seguintes observações a respeito dos fenômenos extraordinários:

“A aprovação (de aparições) não é mais do que a permissão de as publi­car, para instrução e utilidade dos fiéis, depois de maduro exame. Pois estas revelações assim aprovadas, ainda que não se lhes dê nem possa dar um assentimento de fé católica, devem contudo ser recebidas com fé humana segundo as normas da prudência, que fazem de tais revelações objeto provável e piedosamente aceitável” (De Servorum Dei Beatificatione II, c. 32, 11).

O mesmo foi dito por um Concílio Provincial de Malnes (Bélgica) em 1938:

“O julgamento da Igreja não apresenta de modo nenhum essas coisas como obrigatórias para a fé do povo. Declara apenas que elas não estão em ponto algum em oposição a fé e aos bons costumes, e que nelas encontramos bons indícios que permitem uma adesão piedosa e prudente da fé humana” (Acta et Decreta Concili Provincialis  Mechlinensis Quinti. Malines 1938,  .p 6).

Com outras palavras: Bento XIV quer dizer que a dita “aprovação” da Igreja não é senão uma permissão; atesta que os fenômenos alegados não estão em desacordo com a fé, os costumes e a missão da Igreja. Não pedem adesão de fé divina ou católica¹, mas podem suscitar fé humana, fundamentada no tes­temunho fidedigno dos videntes ou na experiência pessoal (conversão à fé, afervoramento…) de quem aceita esse testemunho.

3) Pode também a Igreja abster-se, de modo geral, de qualquer pronunci­amento a respeito dos fenômenos e do culto prestado em decorrência dos mesmos. É o que acontece na maioria dos casos: não há motivos para conde­nar os fenômenos relatados; nem a saúde mental dos(as) videntes dá lugar a suspeitas nem as mensagens apresentadas por eles contêm alguma heresia ou erro na fé. A Igreja considera os frutos pastorais que decorrem de tais men­sagens: muitos fiéis se beneficiam peregrinando a tal ou tal lugar ou santuário; aí se convertem, recuperam ou adquirem o hábito da prática sacramental, da oração… Em consideração desses frutos, a Igreja deixa que a piedade se desenvolva até haver razões de ordem doutrinária ou moral que exijam algum pronunciamento.

Essa atitude da Igreja, que não aprova nem reprova (por falta de razões objetivas para tanto), mas que permite o culto no local das ditas aparições, é apregoada por mais de um documento da Santa Sé. Assim, por exemplo, es­crevia Pio IX aos 2/5/1877:

“Essas aparições ou revelações não foram aprovadas nem condenadas pela Santa Sé. Foram apenas aceitas como merecedoras de piedosa crença, com fé puramente humana, em vista da tradição de que gozam, também confirmada por testemunhas e documentos idôneos” (citado na encíclica Pascendi nº 57, do Papa Pio X).

Quando não incorrem em erro no tocante à fé ou á Moral, os fenômenos extraordinários têm alto potencial evangelizador, que merece respeito e não pode ser deixado de lado. Aos pastores compete, de um lado, confirmar os irmãos na fé, e, de outro lado, ajudar os fiéis a superar a demasiada credulida­de, para que esta não venha a ser um fator de descrédito da própria mensagem cristã.

Em consequência verifica-se que, enquanto a Igreja não se pronuncia em contrário, fica a critério de cada fiel optar pelo Sim ou pelo Não diante de um fenômeno maravilhoso. Não há por que acusarem  uns aos outros de credulida­de vã ou de incredulidade. Seja respeitada a liberdade de opção de cada um.

Todavia os teólogos propõem elementos que os fiéis devem levar em con­sideração para formar a sua consciência frente ao fenômeno contemporâneo das aparições.

2.2.  Sábias Ponderações

Verifica-se que várias das mensagens atribuídas a Nossa Senhora em nossos dias são marcadas por forte pessimismo. Descrevem a situação do mundo atual em termos apocalípticos: o demônio estaria solto, a corrupção generalizada, os castigos de Deus seriam iminentes, implicando catástrofes de âmbito mundial, condenação dos pecadores e salvação para os justos. São indicadas as datas dos flagelos, a sua duração, os meios de lhes escapar e outros pormenores estarrecedores… Sobre este pano de fundo pedem-se oração e penitência. Este pedido final é excelente, embora as práticas indicadas nem sempre pareçam as mais condizentes com a Tradição cristã. Todavia o teor pessimista da mensagem e as profecias respectivas, assim como a multiplicação de casos ditos de aparição, levam os teólogos e pensadores a propor algumas ponderações:

1) O mundo está vivendo uma situação de crise generalizada: fala-se de fim de uma era ou de uma civilização – o que suscita em muitas pessoas uma forte sensação de insegurança e medo. Tem-se a impressão de que os valores clássicos fracassaram, os recursos tradicionais da economia, da política, da sociologia, da pedagogia… estão gastos; muitos esperam espontaneamente uma solução milagrosa proveniente de fontes não convencionais (“só Deus dá um jeito”, diz-se popularmente).

2) O pessimismo e o desespero de muitos abrem o caminho para se crer no surto de novos Messias e messianismos, que prometem dias melhores, despertando esperança (ainda que pouco ou nada fundamentada). As mensa­gens alvissareiras, quanto mais exuberantes e radicais são, encontram tanto mais facilmente campo propício para se propagarem.

3) O Brasil é muito sacudido por correntes que dizem receber comunica­ções do além: alto e baixo espiritismo, religiões afro-brasileiras, ufologia de várias modalidades, Vale do Amanhecer, Trigueirinho… Os meios de comunicação social exploram o que nessas mensagens haja de fantasioso e sensacio­nalista, ampliando enormemente os efeitos da crença nessas mensagens exóticas.

4) Muitas pessoas se deixam levar pelo sentimentalismo e as emoções mais do que pelo raciocínio e a lógica no tocante à religião. O anti-intelectualismo, suscitado pelo existencialismo, penetrou na religiosidade de numerosos crentes, de modo que poucos pensam em pedir as credenciais ou os motivos de credibilidade das proposições “místicas” que lhes são oferecidas. Pode-se até dizer que, em muitos casos, quanto mais fantasiosa é uma proposição, mais ela chama a atenção e desperta curiosidade e interesse crédulos. Aliás, já diziam os antigos romanos: “Vulgus vult decipi. – A massa quer ser enganada” , o que significa que a verdade nua e crua tem menos poder de atração do que a mentira fantasiosa e colorida.

5) Em virtude dessa indisposição para usar o raciocínio no tocante à reli­gião, muita gente quer ser dirigida; espera um guru ou um líder privilegiado que lhe dite autoritariamente o que deve fazer. Assim há quem queira ser comanda­do, porque não sabe mais como se auto-orientar na sociedade confusa em que vive. Isto constitui autêntico paradoxo em relação aos anseios de independência que caracterizam grande parte dos homens e mulheres de hoje.

São estes alguns fatores que marcam a nossa época e podem estar pro­piciando, de um lado, o surto de muitas mensagens falsamente proféticas, terrificantes umas, alvissareiras outras, e, de outro lado, a rápida e estranha difusão das mesmas. Consciente disto, a Igreja usa sempre de grande cautela desde que se propague a notícia de algum fenômeno extraordinário. Examine­mos mais precisamente quais as normas ditadas por essa prudência.

3.  PRUDÊNCIA

Eis alguns traços que modelam a prudência da Igreja:

1) A Igreja, de um lado, se sente responsável pela conservação incólume da doutrina da fé, de acordo com o mandato de Jesus Cristo (cf. Mt 16, 16-19; Lc 22, 31s; Mt 28, 18-20). Doutro lado, ela sabe que o Espírito Santo pode falar por vias extraordinárias, de tal modo que não lhe é lícito extinguir o Espírito, como diz São Paulo em 1Ts 5,19s.

2) O extraordinário deve ficar sendo sempre extraordinário. Não é a via normal pela qual Deus guia os seus filhos; o normal é a via da fé… fé que se distingue de crendice, pois a fé supõe credenciais ou motivos para crer; a fé não diz Sim a qualquer notícia de portento, mas pergunta: por que deveria eu crer? Qual a autoridade de quem me transmite a notícia? Em que se baseia? Como fala?

3)  Disto se segue que

a) aparições e revelações não devem ser presumidas nem admitidas em primeira instância num juízo precipitado. Os fenômenos alegados hão de ser comprovados ou criteriosamente credenciados;

b) diante de um fenômeno tido como extraordinário, procurem-se, antes do mais, as explicações ordinárias ou naturais (físicas, psicológicas ou parapsicológicas);

c)  é preciso levar em conta a fragilidade humana, sujeita a engano, aluci­nações, sugestões coletivas… Facilmente quem conta um fato acrescenta-lhe ou subtrai-lhe um traço que pode ter importância; em conseqüência um acontecimento explicável por vias naturais pode tornar-se, na boca dos narradores, um fenômeno altamente portentoso. Daí o senso crítico, que deve começar por investigar aquilo de que realmente se trata, para depois procurar a explicação adequada. Leve-se em conta especialmente a tendência dos meios de comuni­cação social a provocar artificiosamente as emoções e o sensacionalismo, sem compromisso sério com a verdade.

4) Toda autêntica aparição há de ser coerente com as linhas e o espírito do Evangelho. Deve confirmar o que este ensina. Por isto

a) as muitas minúcias (quanto a datas, local, duração e tipo dos fenôme­nos preditos) merecem reservas, pois não são habituais na linguagem da Escritura Sagrada. O Senhor Jesus mesmo recusou-se, mais de uma vez, a revelar a data da sua segunda vinda e do fim dos tempos; cf. Mc 13, 32; At 1,7;

b) o que certamente se pode e deve depreender de toda genuína mensa­gem do céu, é a exortação à oração e á penitência; La Salette, Lourdes e Fátima clamam altamente por tais atitudes a ser assumidas pelos fiéis católicos. Dizia o Papa João XXIII, em sua Rádio-mensagem comemorativa do cente­nário de Lourdes, que os dons extraordinários são concedidos aos fieis “não para propor doutrinas novas, mas para guiar a nossa conduta” (18/2/1959).

Em conclusão podem-se citar as palavras de D. Boaventura Kloppenburg:

“Não devemos ter receio de faltar á reverência, ao respeito ou à piedade quando submetemos os fatos maravilhosos a uma crítica severa. A atitude oficial da Igreja sempre foi extremamente exigente e crítica nestas coisas. E as possíveis causas de engano provam a necessidade de sermos prudentes, cau­telosos e reservados. Um verdadeiro milagre e uma autêntica aparição nada têm a temer. Seria, pelo contrário, mau sinal se não quisessem submeter-se de bom grado, paciente e honradamente, a um simples exame crítico. Os gran­des místicos da Igreja não só não se negaram a tal exame, mas exigiram-no. Leia-se o que escreveram, por exemplo, São João da Cruz e Santa Teresa de Ávila” (O Espiritismo no Brasil, Petrópolis 1960,  p. 168).

¹ A fé divina e católica é a fé que há de ser prestada a Deus por todos os fiéis.

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb.
Nº 400 – Ano 1995 – Pág. 386

Fonte:
http://cleofas.com.br/aparicoes-e-revelacoes-eb/


quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

UM OPORTUNO ALERTA SOBRE “APARIÇÕES” E REVELAÇÕES PARTICULARES



O livrinho de perguntas e respostas de Vanderlei Lima com o título "UM OPORTUNO ALERTA SOBRE “APARIÇÕES” E REVELAÇÕES PARTICULARES" parece ser muito interessante. O encontrei na internet numa pesquisa simples. Quem quiser adquirir o livro clique aqui.

Pesquisando mais a fundo, encontrei o texto deste livrinho senão todo, pelo menos uma parte, no blog Refletindo 7. Devido a isso reproduzo aqui o texto completo que me parece ser muito interessante haja vista o livro ser apresentado pelas palavras de um Bispo. Segue abaixo o texto:

"
APRESENTAÇÃO

Tenho o grande prazer de apresentar a todos o presente opúsculo intitulado “Um oportuno alerta sobre ‘aparições’ e revelações particulares”, do caríssimo amigo Vanderlei de Lima, escritor e filósofo pela PUC de Campinas, com extensão universitária em Parapsicologia pelo CLAP/FEG.

Trata-se de um ensaio sobre um assunto que geralmente levanta muitas vezes dúvidas as quais, não resolvidas, podem causar perplexidades e perturbar a consciência de muita gente de bem. Baseado no Magistério da Igreja, critério de verdade para todo católico, o autor esclarece didaticamente o tema, em forma de questionário, distinguindo com precisão a Revelação (pública) e as revelações particulares, a Tradição e as tradições, explicando o grau de adesão que a Igreja exige ou não exige de nós.

A confusão sobre o assunto, em meios católicos, pode levar os inimigos da Igreja a ridicularizarem a nossa Fé. A Fé, na explicação de Santo Tomás de Aquino, é uma submissão racional da nossa inteligência à Palavra de Deus, a nós transmitida pela Igreja. Submissão ou adesão racional e não irracional ou ridícula. Fé não é superstição. Crer, no sentido católico, não é aderir a tudo o que aparece ou que se parece com o bem.

Com minha cordial bênção ao autor e a todos os leitores.
           
Dom Fernando Arêas Rifan
Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney

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INTRODUÇÃO

Prezado(a) irmão(ã), você tem em mãos, em forma de perguntas e respostas, um estudo sucinto e objetivo a respeito da posição da Igreja Católica, Apostólica, Romana sobre as chamadas “aparições" [1] de Nosso Senhor, da Virgem Maria, dos Santos, das Santas e dos Anjos ao longo da história.

Algumas dessas “aparições” vêm acompanhadas de revelações, chamadas de particulares para se distinguir da Revelação Pública oficial da Igreja – à qual devemos, obrigatoriamente, fé católica – que se encerrou com a geração apostólica, ou seja, com a morte do último Apóstolo, São João Evangelista, por volta do ano 100.

Pois bem, a fonte da fé católica é a Palavra de Deus a nós transmitida por dois canais: a Sagrada Tradição ou Tradição Oral, recebida diretamente pelos Apóstolos de Nosso Senhor, e a Tradição Escrita ou a Bíblia, que teve origem na Tradição Oral na qual foi gestada e pela qual é acompanhada.

Ambas, porém, são autenticamente interpretadas pelo Magistério da Igreja que não está acima, mas a serviço da Tradição e da Escritura. Só esse Magistério, assistido pelo Divino Espírito Santo desde o início da Igreja até o fim dos tempos (cf. Mt 28,20), pode, de modo correto, explanar tudo aquilo que se refere à fé e à moral da Igreja.

Portanto, é esse mesmo Magistério (não há nem pode haver outro) quem julga as chamadas “aparições” ou revelações particulares e, embora nunca possa impor à fé dos fiéis o conteúdo delas, diz – sem entrar no mérito da “aparição” ou da mensagem revelada em seus detalhes – se elas ferem ou não a fé católica.

a) Caso firam, a Igreja as desabona ou diz “Não”; b) caso não firam, mas ainda restem dúvidas, deixa correr para, a seu tempo, se for o caso, dizer algo; c) caso não firam a fé e preencham os critérios de avaliação propostos pelas autoridades eclesiásticas, com destaque para os requisitos propostos pelo Papa Bento XIV (1740-1758), a Igreja não só deixa correr os fatos, como também pode permitir a construção de uma igreja no local e até estabelecer uma festa litúrgica ao (à) santo(a) que ali se diz ter aparecido.

Note-se, porém, que nada do que aparece no item c obriga a fé do católico. Este permanece livre para aceitar ou não o que ali houve (“aparição”) ou foi dito (revelação) sem ter receio algum de cometer pecado, ainda que, evidentemente, possa, após a análise da Igreja e a declaração de um ou mais milagres, ficar seguro de que nenhuma fraude ou erro teológico ocorreu na referida “aparição” ou revelação.

Em suma, quem venera um (a) santo(a) ou um anjo, cuja devoção nasceu de uma “aparição” ou revelação particular está, em última análise, cultuando a Deus – sempre Ele é o centro de tudo – na pessoa daquele(a) santo(a). Nada mais! Daí não haver erro algum nesse culto piedoso. Assim, quem cultua a Virgem Maria, sob o título de Nossa Senhora de Fátima, nada mais faz do que venerar a mesma Mãe de Deus, Maria Santíssima, que é uma só, independentemente do título com que seja apresentada.

O mesmo se dá com quem gosta de ler livros nascidos de revelações particulares. Se a Igreja disse não haver erros na obra ou mesmo afirmou que ela nada contém de suspeito ou nocivo à fé católica, a pessoa pode lê-la como algo que a ajude chegar à edificação espiritual e a um consequente progresso ou aprofundamento na vida cristã por meio de estudos da fé, a começar pelo Catecismo da Igreja Católica. Progresso que já pode ser contado como fruto bom daquele fato que se julga ser uma intervenção do além neste mundo.

Atente, contudo, o (a) prezado(a) leitor(a) para um dado importante: toda “aparição” que pretenda transmitir uma mensagem de Deus aos homens deve estar em plena sintonia com aquilo que a Igreja ensina. Se começar a criticar a doutrina católica, os ministros da Igreja (Papa, Bispos, Sacerdotes, Diáconos) ou Religiosos(as), especialmente convidando os fiéis a se afastarem da paróquia e da prática dos Sacramentos, é altamente suspeita de ser fruto de ação diabólica ou de perturbação psíquica em quem transmite a mensagem que diz receber do além. Fique atentíssimo!

Lembramos aqui das palavras do estudioso francês Jean Guitton ao declarar que, em Lourdes, na França, o que houve foi uma grande confirmação das verdades de fé da Igreja Católica, Apostólica, Romana, ao escrever: “Admitir aquilo que a visão chama de Imaculada Conceição, significa admitir a maternidade divina, e, portanto, a divindade de Cristo e a Trindade. Significa admitir que a evolução religiosa, tal como é consumada na Tradição, presidida pelo Bispo de Roma, é legítima... Admitir a autenticidade de uma definição que tenha o Papa como Autor... A infalibilidade pontifícia” (La Vierge Maria, p. 125 apud L. Lochet. Teologia das aparições marianas. São Paulo: Paulinas, 1966, p. 75).

Caminhemos, pois, sempre com a Igreja, Mãe que nos gerou para a vida divina pelo Batismo, e nunca troquemos sua doutrina infalível, porta aberta para a nossa boa vivência neste mundo e a salvação eterna, por novidades passageiras. Não sejamos frios racionalistas que de tudo duvidam, porém não caiamos no oposto, ou seja, em uma credulidade infantil, julgando digna de crédito qualquer revelação que este ou aquele fiel (clérigo, religioso ou leigo(a)) diz receber. Tais revelações, mesmo se em nada contrariam a fé da Igreja, não são essenciais. Funcionam apenas como lembretes daquilo que a fé já nos ensina oficialmente em seu rico depósito contido na Tradição e na Escritura e explicitado pelo Magistério eclesiástico, de forma ordinária (os Bispos que ensinam, no dia a dia, em comunhão com o Papa) ou extraordinária (um Concílio Ecumênico ou uma definição ex cathedra dada pelo Papa, na condição de doutor da fé).

O verdadeiro devoto da Vigem Maria procura agradar-Lhe buscando, apesar de suas limitações, ser para Ela outro Jesus e d’Ela ouvir, a cada dia, a grande mensagem mariana de todos os tempos: “Fazei tudo o que ele [Jesus – nota nossa] vos disser” (Jo 2,5).

O autor

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1. Qual é a fonte da Doutrina Católica?

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

As Revelações Particulares em Nossos Dias




Em síntese: O Grupo "Pastorais et Sectes" filiado ao Episcopado Francês publicou um estudo sobre as revelações particulares apregoadas em nossos dias tanto dentro como fora da Igreja Católica. Esse documento, após enunciar as modalidades de tais visões e revelações, propõe critérios para discernir a autenticidade das mesmas:

1) critérios subjetivos (saúde psíquica do vidente, honestidade moral e, no caso de vidente católico, fidelidade ao magistério da Igreja);
2) critérios objetivos (mensagem consentânea com a doutrina católica, mensagem sóbria ou isenta de pormenores fantasiosos).

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Os novos Movimentos religiosos têm chamado continuamente a atenção do público pelo seu caráter proselitista, apoiado, às vezes, em "revelações" e "milagres". O Brasil tem grande experiência de tais fenômenos. . .

Existe na França um Grupo designado pelo Episcopado Francês para estudar sistematicamente as expressões e as causas de tais correntes religiosas. O Grupo ("Pastorale et Sectes") realizou seu primeiro encontro em 28/05/1990 na Secretaria Geral do Episcopado em Paris, estando presentes os PP. Jean Vernette, Pierre Le Cabellec, Norbert Gauderon, Yvon Le Mince, Damien Sicard, Claude Cesbron et a Sra. Yvonne Vitré. O Grupo elaborou e publicou um relatório sobre as Revelações particulares, ocorrentes tanto dentro como fora do Catolicismo. Visto que o texto pode ser útil ao público brasileiro, vai, a seguir, traduzido para o português a partir do Boletim SNOP (órgão do Episcopado Francês) datado de 22/06/1990.

1. O TEXTO

"As revelações particulares mobilizam de novo a atenção"

Para começar, falaremos indiferenciadamente de todas as revelações atualmente ocorrentes dentro e fora da Igreja, reconhecidas oficialmente por alguma instancia ou não. São uma das formas de expressão mais típicas da nova religiosidade. Interessam ao público por diversos motivos: mensagens tidas como provenientes do Alto; manifestações de contato com habitantes do Além; descrição estupenda de fenômenos maravilhosos; levitação; movimentação do sol; odores suaves; suor de óleo; insistência dos mensageiros sobre os perigos iminentes que o mundo corre se não se converter; atração espiritual e aliciamento coletivo, em conseqüência dos quais há peregrinações de devotos aos lugares ditos das aparições; fatos portentosos, em especial curas, tidos como sinais que autenticam a revelação; surto de grupos religiosos férvidos em torno do personagem ou do lugar ‘agraciado’.

Ligadas a esses sinais portentosos, há manifestações populares de fé ou de credulidade, de religião ou de religiosidade. Com efeito; encontram-se as mais diversas atitudes religiosas suscitadas pela crença no portentoso.

Para permanecer apenas no quadro da França e dos países vizinhos e da época atual, podem-se apontar os seguintes fenômenos maravilhosos:

  • Aparições da Virgem SS., devidamente reconhecidas pela Igreja;
  • Aparições de Jesus Cristo acompanhadas de revelações feitas, por exemplo, a Michel Potay, o profeta da 'Revelação de Ares' (atualmente em grande voga);
  • Locuções interiores, levando as mamães a redigir, por escrita automática, numerosas mensagens provenientes de seus filhos falecidos;
  • Contatos com indivíduos extra-terrestres nas religiões dependentes de OVNIs, tais como ocorrem com os grupos Appert e os Raelianos;
  • Relacionamento com entidades do Além por meio de canais próprios, como os descreve a atriz Shirley Mac Laine em seu livro best-seller, publicado em milhões de exemplares;
  • Visões de cenas do Evangelho relatadas em numerosas narrações por Maria Vàltorta;
  • 'Leitura no Astral' de episódios da Vida de Cristo em diversos grupos esotéricos;
  • Revelações não reconhecidas, mas ligadas a lugares aos quais se dirigem peregrinações constantes, como San Damiano, Garabandal, Kerizineo, Espis, Dozulé;
  • Grupos de New Age (Nova Era), como Vida Universal, oriunda da profetisa Gabriela Witeck;
  • Comunicações com os habitantes do céu, tais como os Diálogos com o Anjo de Gitta Mallasz, traduzidos para as principais línguas.
Entre os numerosos grupos, organizados ou não, que se formam em torno do maravilhoso, alguns dizem derivar-se do catolicismo; seriam, entre outros, o IVI, de Yvonne Trubert, e El de Joanna.

Alguns desses grupos dão origem a igrejas paralelas, como Le Frechou e Palmar de Troya. Há cristãos que querem ambiguamente pertencer tanto à Igreja Católica quanto à comunidade paralela.

Algumas mensagens têm provocado conversões, como as mensagens de Marta Robin e de Medjugorje. Outras, porém, desencadeiam violentos ataques contra a Igreja, como as de Michel Potay em Ares, ou querem transmitir lições à Igreja, como o Petit Caillou e Bayside.

Somos assim chamados a procurar discernir em cada nova 'revelação' o admirável e o inaceitável.
A multiplicação desses casos corresponde a uma necessidade, existente no público, de portentos e também de luz para guiar os passos dos homens. Por conseguinte, importa sempre analisar caso por caso (impressos, atividades, mensagem. . .).

Os elementos característicos das revelações particulares

Distinguem-se diversos parâmetros ou traços típicos nas revelações particulares:
—    Os videntes são de todas as idades, mas freqüentemente citam-se crianças e mulheres nas aparições em ambientes católicos. São discretos ou tagarelas, simples ou reivindicativos.
—    Nos mesmos ambientes, a pessoa que transmite a mensagem é geralmente a Virgem SS., às vezes um anjo (de preferência, São Miguel), ocasionalmente Jesus. Esses traços são convencionais ou prendem-se ao contexto sócio-cultural do vidente.
— Os ritmos e os lugares são os mais variados. Acompanham-nos símbolos extraordinários: um grande véu azul em Le Frechou; uma imensa cruz em Dozulé.

As mensagens têm seus pontos constantes (embora em dosagens diferentes): apelo à conversão, pregações, pedido de fundação de um santuário, um templo, profecias de sabor milenarista, ameaças de castigo, pedidos de práticas rituais precisas (O Milenarismo é a doutrina que professa a vinda de Jesus Cristo para reinar visivelmente durante mil anos sobre a terra em bonança e paz).

Por conseguinte, quando alguém começa a estudar uma revelação particular, encontra-se diante de elementos um tanto genéricos: manifestações físicas, luzes e cores; manifestações psicológicas (êxtases, visões, mensagens). . . Mas esses elementos são dispostos em sínteses bem diferentes umas das outras. Há, por exemplo, aparições que a Igreja reconhece porque as tem como humanamente sadias e espiritualmente aceitáveis, além de coerentes com a Grande Tradição cristã. Há também revelações duvidosas, se se leva em conta a saúde psíquica e espiritual dos videntes e as suas incoerências com os Livros Sagrados.

Critérios de discernimento

As pessoas agraciadas realmente com revelações ou vozes são geralmente sinceras e convictas. Alegam: 'Tendo visto o que vi e ouvido o que ouvi, eu não posso não falar'. Elas se sentem investidas de uma missão. Mas o sentimento subjetivo de certeza não garante por si a autenticidade de uma mensagem, assim como a sinceridade não é o equivalente de verdade. É necessário que pratiquemos o discernimento dos espíritos. Distingamos, pois, ulteriores critérios tanto no plano meramente humano e natural como no plano da fé:
— No plano humano: o equilíbrio e o bom senso do indivíduo, o apagamento do mensageiro diante da mensagem, a estrutura do grupo criado: A quem toca a autoridade? Como é esta exercida? Qual o funcionamento financeiro? Que margem de liberdade interior é deixada aos membros do grupo?
— No plano cristão: quais são os frutos de tal revelação particular? A mensagem é coerente com a Tradição cristã? Que traz de novo ao mundo e à Igreja? Qual o aspecto da Revelação cristã mais focalizado pela mensagem do vidente?
— Que controle a comunidade é capaz de exercer sobre si mesma? Tal carisma está voltado para servir ao bem comum?

Nesta época de florescimento de mensagens inspiradas, de novas religiões proselitistas e de fenômenos milagrosos, é importante fornecermos aos cristãos esses critérios de discernimento".

2. COMENTÁRIO

1. Vê-se que a multiplicidade de expressões religiosas de nossos dias atribuídas a intervenções do Além exige, da parte do estudioso, cautela para discernir, do fantasioso e talvez mórbido, o que possa ser autenticamente inspirado por Deus. Em vista disto, apontam-se critérios subjetivos e objetivos:

a) Critérios subjetivos:
— requer-se saúde psíquica da parte dos videntes ou mensageiros. Esta implica equilíbrio mental, capacidade de resistir a sugestionamentos e condicionamentos superficiais;
— honestidade ou retidão de vida, comportamento irrepreensível;
— fidelidade ou docilidade à Igreja e ao seu Magistério (no caso de visões ocorrentes dentro do Catolicismo).

b) Critérios objetivos:
—    a mensagem deve ter um conteúdo ortodoxo, isto é, consentâneo com as verdades da fé católica;
—    a mensagem seja sóbria, isto é, isenta de pormenores fantasiosos, mais aptos a satisfazer à curiosidade do que a edificar a fé. Tal é a diferença entre os Evangelhos canônicos e os apócrifos: enquanto aqueles são geralmente sóbrios e simples em seu estilo, os apócrifos são exuberantes e dados ao fantástico.

Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, em entrevista concedida a Vittorio Messori em 1985:

"Neste terreno, mais do que em qualquer outro, a paciência é um elemento fundamental da nossa Congregação. Nenhuma aparição é indispensável à fé; a Revelação chegou à sua plenitude em Jesus Cristo; Ele mesmo é a Revelação. Mas é certo que não podemos impedir que Deus fale ao nosso tempo através de pessoas simples e valendo-se de sinais extraordinários. . . As aparições que a Igreja aprovou oficialmente — Lourdes, antes do mais, e, posteriormente, Fátima —(1) ocupam um lugar preciso na história da Igreja do último século. Mostram, entre outras coisas, que a Revelação — mesmo sendo única, plena e, por conseguinte, irreformável — não é algo de morto; é viva e vital. Doutro lado, (...) um dos sinais dos nossos tempos é que as notícias de 'aparições' marianas se estão multiplicando no mundo".

(1) A aprovação oficial, no caso, quer dizer reconhecimento da legitimidade do culto a Nossa Senhora em Lourdes, Fátima, com festa própria no calendário litúrgico. Não significa, porém, que a Igreja professe as aparições de Nossa Senhora como artigo de fé. — De resto, a mensagem de tais revelações coincide com a do Evangelho e sintetiza-se na fórmula: "Oração e Penitencia!" (Nota do Tradutor).

3. CONCLUSÃO

A leitura do relatório do Grupo "Pastorale et Sectes" leva a crer que:

1) no mundo atual pode, sem dúvida, haver autênticas manifestações do Senhor Deus, especialmente através de Maria SS. Esta é a Estrela da Manhã e a Porta do Céu, pela qual Deus se digna de consolar os homens. Para averiguar a genuinidade das ditas aparições marianas, apliquem-se os critérios atrás recenseados.

2) Ao lado dessas possíveis manifestações autênticas, há também, e sem dúvida, muitas ditas "revelações" que não são a expressão senão do estado de ânimo ansioso e angustiado de parte da humanidade contemporânea; a procura emocional, quase irracional, de uma resposta para a problemática contemporânea leva muitos a imaginar seres extra-terrestres (corpóreos, luminosos, belos, ou meramente espirituais) transmitindo aos homens mensagens de reconforto, estímulo e orientação. O pulular de fenômenos ditos "sobrenaturais" em nossos dias se reduz, em boa parte, ao mecanismo da psique humana, que procura num falso Além a garantia e a segurança que o aquém (inclemente como é) não lhe fornece.

Na verdade, também o cristão sente a ingratidão dos tempos presentes, mas na fé (que o leva à oração, à leitura das Escrituras e aos Sacramentos dentro da Igreja) encontra paz e força, cheia de esperança para atravessar os tempos atuais. A exuberância do "extraordinário" de nossa época, oriunda do psiquismo humano desorientado, deveria ceder a um fortalecimento da fé cristã, remédio para tanto desatino contemporâneo. "O justo vive da fé", diz três vezes o Apóstolo (Rm 1,17; Gl 3,11; Hb 10,38), parafraseando o Profeta Habacuc (2,4).

Dom Estêvão Bettencourt


Fonte:
http://www.pr.gonet.biz/kb_read.php?num=557&head=0