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domingo, 16 de abril de 2023

1ª Família - Virtudes de Sacrifício

 


Nosso estudo será longo e abrangente.

Um verdadeiro itinerário de auto conhecimento e busca pela santidade.

Na foto acima está a estrutura da primeira família a ser estudada, meditada e posta em prática.

A partir daqui as postagens não estarão mais públicas, mas reservadas ao grupo de estudo.

Se quiser fazer parte, entre em contato com o Alessandro: t.me/alessandroger

Segue abaixo a lista das 12 famílias:

1ª Família Virtudes de Sacrifício

2ª Família Virtudes de Humildade

3ª Família Virtudes de Recolhimento

4ª Família Virtudes de Ingenuidade

5ª Família Virtudes de Pureza

6ª Família Virtudes de Caridade

7ª Família Virtudes de Paz

8ª Família Virtudes de Vencimento

9ª Família Virtudes Guerreiras

10ª Família Virtudes de Correspondência

11ª Família Virtudes de Ordem

12ª Família Virtudes Perfeitas




sábado, 15 de abril de 2023

003TVV - INTRODUÇÃO

 



INTRODUÇÃO AO ESTUDO DAS VIRTUDES

Verdadeiramente, o Senhor é admirável em suas obras. Na região infinita do espírito, não existem palavras para expressar seu poder, sabedoria, ternura e amor! (CC 13,5)[1].

Há uma perfeita união entre todas as virtudes, cujas conexões, como numa corrente, se unem sem ruptura até alcançar o céu.

Bendito mil vezes o Senhor, que, em tudo e aqui, de maneira particular, comunica-se por meio do sopro divino do seu Santo Espírito! (CC 13,5).

É tão formoso o campo das virtudes! Contemplamo-las em suas luzes deslumbrantes, em seus múltiplos matizes, a ponto de a alma encantar-se maravilhada, louvando a Deus, que vive entre elas e desfruta de seus distintos aromas!

Ninguém pense que isso seja ilusão ou devaneio. Pelo contrário, é uma realidade encantadora, que, ao ser tocada, abrasa o peito com o fogo santo do divino amor. (CC 13,4).

Ali, sim, há paz, ordem, tranquilidade e segurança! Fica-se tão longe do ruído e agitação do mundo e das criaturas! Tão recôndita é essa morada onde vive o Espírito Santo, que a alma não a encontraria, se Ele mesmo não a introduzisse nesse lugar! (CC 13,8).

O campo das virtudes é regado com o Sangue de Jesus, por isso é tão fecundo e suas flores e frutos imortais. A sombra da Cruz o protege, tão fértil e cheio de graça.

Nesse divino campo, o Espírito Santo cultiva a simplicidade, a inocência, o sacrifício, o recolhimento, a humildade, a obediência, a mortificação, a constância, a compunção e outras mil preciosas virtudes.

O Espírito Santo as produz e as alimenta. Fá-las crescer, desenvolver e frutificar. Colhem-se aqui os frutos da caridade, do gozo espiritual, da paz e da paciência. Aqui, é o lugar que agracia as almas com seus dons preciosos. Aqui, são conhecidas as riquezas da Cruz, os tesouros da paixão, o inestimável valor do sacrifício oculto e desinteressado. Nessa região onde habita o Espírito Santo, a alma, escondida e pura, escuta seus gemidos delicados, sua dulcíssima voz. É esse o lugar onde se deleitam Jesus e a alma: no harmonioso conjunto de todas as virtudes, onde reina o silêncio interior imperturbável, a paz da alma esvaziada de todo o próprio querer, que já não pensa nem pode pensar outra coisa a não ser o amar e o sacrificar-se pelo Amado. Aqui, vive, penetrante e profunda, a presença de Deus em altíssimo grau. Respiram-se a modéstia, a solidão, o recolhimento, que, em sua intimidade, paz e formosura, recebem abrigo, alento e vida do Espírito Santo.

Nessa tranquila quietude do divino campo das virtudes, a alma, esvaziada de tudo o que não é Deus, inclina-se e une-se intimamente a Ele. O divino Espírito deixa-se sentir, escutar e tocar pelo contato puríssimo com as almas cândidas e virgens. Nesse profundo silêncio da alma pura, arrebatam-se e enlevam-se os divinos amores. Aqui é o santuário da comunicação divina, do mais alto cume da união com Deus. Aqui, a alma, por meio da santificação do amor, somente respira e aspira a Deus!

Nessas alturas, o Espírito Santo - ó incomparável bondade! -- unindo-se e estreitando-se à alma pura, enfeitada de todas as virtudes, faz com que esta não pense, nem ouça, nem sinta, nem fale senão do Amado, com o Amado, pelo Amado e no Amado... não podendo ter mais movimento ou vontade a não ser o movimento e a vontade do Amado! Aqui, a alma, absorvida pelo Espírito Santo, começa a ver, diante de sua atônita mirada, outra infinita região de admiráveis segredos, guardados na Cruz. Cai, diante dela, o véu dos sagrados mistérios. Pasma, contempla, na intimidade do amor, a essência divina, a geração eterna, a felicidade de Deus, a própria comunicação do amor! Seu entendimento se enche de luz; sua memória fica suspensa. Sua vontade... Oh! Sua vontade já não lhe pertence, separa-se, aliena-se, confunde-se dentro daquele eterno fogo de caridade, onipotência e bondade!

Terminam aqui os divinos favores, que alcançamos percorrendo o caminho das virtudes? Oh, não! Pois Deus é infinito e reserva-nos sempre novos e inesgotáveis tesouros. O Espírito Santo introduz a alma pura, padecente adornada de toda virtude e cheia de graça, a moradas mais íntimas, verdadeiras antessalas do céu. Ali, através de um ténue véu, a alma parece contemplar o próprio Deus, seu calor, seu olhar, e compreender a verdadeira vida! Ali, a própria Divindade acalenta a alma com seu eterno esplendor. Ali, com maior perfeição se crê, espera e ama, embora afinal, dessas três virtudes teologais, só permaneça absorvendo as demais a caridade amorosa! Ama, ama, a alma, e nada mais sabe fazer a não ser amar; amar e desejar ardentemente, mergulhada num abismo de amor... nada mais que amar, e mais amar, sem cansar-se, nem fartar-se... todavia saciando-se com o fervoroso ardor da união... da atração... da semelhança com seu Deus e seu tudo...

Até ali, as sublimes virtudes conduzem as almas profundamente humildes, imoladas, puras, desinteressadas, modestas e obedientes.

Entre as virtudes, umas arrastam a alma em direção a Deus; outras O atraem até a alma pura. Algumas têm duas faces ou aplicações opostas, como a condescendência santa e a culposa. Dividem-se em grupos, famílias ou matizes, mas o amor, a pureza e o sacrifício representam a substância e os matizes divinos de todas. A pureza levanta-se majestosa entre todas as suas companheiras, como lírio puríssimo, açucena divina. Com sua fragrância especial, impregna, feito bálsamo, todas as demais. (CC 13,5)

A dor da Cruz, essa riqueza desconhecida, também impregna todas as virtudes, conferindo-lhes valor e vida sobrenatural. Sem a Cruz, não há de existir virtude alguma: substância divina de todas as virtudes; substrato de toda santa alma; escada rumo ao céu; laço de indissolúvel união entre Deus e a alma pura. Fez-nos felizes Jesus pela dor, mas por uma dor inocente, pela dor na pureza virginal, pela dor santa e imaculada, que todos havemos de imitar pela constante prática das virtudes.

E o amor? Com esse amor que abraça o imenso campo das virtudes, dando-lhes o ser e a vida, inflama-se o peito divino de Jesus, que, louco de amor, opera prodígios de humilhação e sacrifício em favor do homem! Sua alma puríssima é a gema do amor imolado. É o amor antídoto de todo pecado, vicio, paixão desordenada.

A alma que ama transfunde-se em todas as virtudes e as possui, nelas compenetrada. A alma que ama aniquila-se, humilha-se, oculta-se, morre, para viver em Deus e para Deus. A prática constante das virtudes leva a esse cume de perfeição, à identificação com a vontade divina, que é o escopo deste Tratado: a glória de Deus e a salvação das almas. (CC 13,8 ss.).


 

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DOS VÍCIOS

Mundo, Demônio e Carne

O mundo é um dos maiores inimigos da alma. Arrasta-a a muitos e muito grandes vícios. O mundo, o demônio e a carne controlam todos os vícios, tentações e pecados que Me ofendem.

Sendo o chefe dos inimigos de Deus, Satanás mantém a alma humana dividida, partilhando o seu domínio com o mundo e a carne. O demônio, cheio de ódio e malícia, impele as almas para a região da carne e da impureza, por meio de ardis, ciladas, emboscadas. Por sua vez, a carne lança suas redes e seus laços a seduzir as almas, presas pelo demônio e pelo mundo.

Trata-se de inimigos poderosíssimos, que atuam contra Mim e contra o campo divino das virtudes. Suas armas são conhecidas. Cada um as tem bem afiadas, cheias de secretos mil e traiçoeiras. Disparam contra as almas tiros certeiros, por vezes sem alarde, com enganos atrativos.

Desvendarei, aqui, as abomináveis astúcias de Satanás contra o mundo espiritual, tão lastimosamente enganado de muitas graves maneiras.

Para matar as almas ou ao menos dividi-las, entretê-las ou desviá-las da graça, retirando-lhes a perfeição, e a Mim a glória, o mundo inspira os seguintes vícios: sensualidade, dissipação, escândalo, leviandade, ócio, comodidade, delicadeza, calúnia, murmuração, difamação, respeito humano, vaidade, fragilidade, fraqueza, debilidade, condescendência, adulação, exagero, curiosidade, precipitação, imprudência, frivolidade, imprevisão, sensibilidade, susceptibilidade, inconstância, instabilidade, infidelidade, indiscrição, veleidade, injustiça.

O demônio controla diretamente estes vícios: soberba, inveja, astúcia, escrúpulos, turbamento, perturbação, inquietude, dúvida, hesitação, indecisão, hipocrisia, egoísmo, mentira, duplicidade, falsidade, baixeza, lentidão, ociosidade, cansaço, ira, cólera, vingança, rancor, ódio, traição, perfídia, orgulho, amor-próprio, pretensão, presunção, ostentação, altivez, afetação, covardia, subterfugio, vileza, ocultação, premeditação, burla, sarcasmo, fingimento, ingratidão, falta de mortificação, impaciência, acrimônia, dureza, ruindade, desobediência, fraude.

A carne controla estes outros vícios: luxúria, impureza, malícia, volúpia, imodéstia, licenciosidade e suas consequências, obstinação, confusão, insensibilidade, insensatez, dúvida, ilusão, engano, frieza, tibieza, indiferença, desânimo, impenitência.

O vício da desordem abarca a todos os demais, porque habita no coração de Satanás, autor de todos os vícios.

Apesar dessa subdivisão, cada inimigo capital, a saber, o mundo, o demônio e a carne, não se limita a cuidar somente do seu reduto. Pelo contrário, os três, unida e separadamente, trabalham com o mesmo fim de perder as almas e roubar a Minha glória. Conhecem os efeitos que cada vício causa no coração. Sabem quantas almas arrasta consigo o mundo, por meio dos vícios de sua predileção. O mundo lança, em seu campo, redes chamativas multiformes com que cativa as almas desavisadas, as quais seduz e envenena, tornando-as suas.

O demônio e a carne, embora de distintas maneiras, agem juntos para um mesmo pérfido fim, que já expliquei e que as almas hão de conhecer para o próprio bem.

Felizes os corações que se preservam de tais males e que, abandonando os vícios, adentram no belo campo das virtudes, à sombra do sacrifício e da dor, isto é, da preciosa Cruz, que esconde em seu íntimo a doçura e as maiores delícias que pode desejar o coração humano. (CC 15,199-206).



[1] Beata Maria Concepción Cabrera de Armida (Conchita), Diário espiritual de uma mãe de família, São Paulo, Katechesis, 2020. A sigla CC refere-se ao título original dado por Conchita a seu Diário, Cuentas de Consciencia. (NdT)





Amanhã esclarecerei sobre a continuidade desse estudo somente pelo grupo de estudos.

sexta-feira, 14 de abril de 2023

002TVV - PRÓLOGO

 




 

Aos Noviços Missionários do Espírito Santo

"Aprende onde se acha a virtude" (Baruc 3,14)

 

Filhos meus, muito amados em Jesus:

Na questão 55 da primeira parte da segunda seção da Suma, São Tomás nos apresenta um duplo tratado em que considera, de forma geral, virtudes e vícios.

Nas questões 55-60, o Santo Doutor trata da essência das virtudes, de suas divisões, causas, conexões e igualdade. Depois, nas questões 61-89, estuda os vícios em sua natureza, diferenciando-os, comparando-os e detendo-se em suas causas.

Até a questão 122, o Santo Doutor segue seu importantíssimo estudo de cada virtude particular e, com ciência profunda e gênio incomparável, trata da ciência das virtudes, tarefa árdua do ponto de vista teológico.

Este Tratado sobre as virtudes e os vícios, que estudareis durante vosso noviciado, tem um caráter bem diferente. É, direta e essencialmente, voltado para a prática. Todos os seus preciosos ensinamentos são integralmente impregnados pelo espírito da Cruz. Isso não é de se estranhar, pois este trabalho foi extraído, palavra por palavra, daquilo que, em minhas conferências, chamo de "manuscritos da fundação".

O Tratado sobre virtudes e vícios brota do papel sem uma ordem prévia, fruto de muita paciência, amor e interesse, para o benefício dos noviços das Congregações.

Observando a semelhança de algumas virtudes, foi possível dividi-las em doze famílias, sem que esse número tivesse sido escolhido previamente. Vêm-nos à mente estas palavras do Apocalipse:

"No meio de sua praça e às duas margens do rio, achava-se uma árvore da vida, que produz doze frutos, dando cada mês um fruto, servindo as folhas da árvore para curar as nações" (Apocalipse 22, 2).

Depois das virtudes, fixamo-nos nos vícios correspondentes. A esses também foi possível dividir em doze famílias.

Assim, ficou pronto o Tratado que apresento-vos agora. Explicarei, prática e cuidadosamente, a cada mês do vosso noviciado, uma das doze famílias de virtudes e de seus vícios contrários.

Quanto à ordem que escolhemos para trabalharmos as diferentes virtudes, pensamos começar pelas Virtudes Gerais (cfr. São Francisco de Sales, < Introdução à Vida Devota, 3ª parte, cap. I), isto é, pelas que são de uso mais frequente e cuja influência tem mais efeito no conjunto do comportamento humano. Pareceu-nos evidente que devêssemos começar pelas virtudes que ocupam um lugar mais proeminente no dia a dia. São as mais práticas. Portanto as mais importantes e essenciais.

É mais natural e lógico começar com as virtudes do sacrifício, de nuance especial.

Vós estais aqui para "arrancar vícios e plantar virtudes" [N.E.: expressão usada pela Beata Conchita]. Para que aproveiteis melhor este estudo, parece-me necessário recordar brevemente alguns dados teológicos sobre as virtudes e os vícios. Procurarei ser claro. Em primeiro lugar, veremos o que é uma virtude, o que se entende por ato de virtude e como se cultivam as virtudes.

Nos livros de moral e de espiritualidade, o termo virtus pode ter três significados:

Pode significar a prática do bem em geral: o homem pratica a virtude quando realiza o bem sob todas as formas.

Pode significar a prática de um bem particular, e nesse sentido inteiramente objetivo se distinguem várias virtudes diferentes, como é o caso da virtude da fé, da esperança e da caridade, entre outras.

Por fim, em um sentido totalmente subjetivo, pode significar aquela força pessoal com que fazemos o bem.

Essa última acepção da palavra 'virtude' corresponde à sua etimologia. Virtude provém da palavra latina virtus, que significa força.

De fato, toda virtude é uma força, mas nem toda força é uma virtude. Costuma-se aplicar o termo 'virtude apenas àquelas forças espirituais permanentes que tornam o homem capaz de realizar o bem. Digo 'forças espirituais, porque a virtude torna fortes não os corpos, mas as almas. A virtude é uma força moral. Digo permanentes, porque essas forças não se consomem nos atos que realizam e mantêm a capacidade de produzir novos atos. A isso, em filosofia, dá-se o nome de hábito (cfr. Ami du Clergé, 1920, p. 33). Por fim, digo forças que tornam o homem capaz de realizar o bem, pois esse é o objeto da virtude, que é o oposto do vício. Virtude e vício são dois hábitos contrários, um oposto ao outro, um inimigo do outro.

O padre Thomás Pegues, O. P., em seu último e admirável Comentário à Suma de São Tomás (Tomo VII, p. 2), diz que, entre todas as distinções que podemos fazer dos hábitos, a mais essencial é a que diferencia em hábitos bons e hábitos maus.

Hábito é, essencialmente, uma disposição para aquilo que convém ou que não convém. Toda disposição ao que convém, é boa; toda disposição ao que não convém, é má. Disso segue que, ao estudar os hábitos segundo suas duas espécies, a espécie dos hábitos bons e a dos hábitos maus, este Tratado deverá conter duas grandes divisões: os hábitos bons que movem o homem virtuoso e os hábitos maus que movem o homem corrupto.

São Tomás trata primeiro das virtudes (2a., 2ae. Q.55 a 67) e, em seguida, dos vícios (ibid., q. q. sq.). Este Tratado coteja, frente a frente, virtudes e vícios, dando ênfase à sua contraposição.

O Espírito Santo recomenda que aprendamos onde está a virtude", a saber, em que ela consiste, de onde vem, como se põe em prática e que vantagens oferece.

Há dois tipos de virtudes: as naturais e as sobrenaturais.

As virtudes naturais são virtudes puramente humanas. Às vezes, o homem as recebe ao nascer. Mais frequentemente, adquire-as graças a seus próprios esforços. Por isso, os teólogos as designam com o nome de virtudes adquiridas. Essas virtudes são reguladas pela razão.

As virtudes sobrenaturais pertencem à ordem da graça. Ninguém as possui ao nascer. Tampouco são adquiridas pelo esforço. Provêm diretamente de Deus. Por isso, são chamadas de virtudes infusas. Santo Agostinho diz que "a virtude é uma obra de Deus em nós. Virtus est bona qualitas quam I Deus in nobis operantur" (Lib. II De lib. Arbitrio).

A graça santificante nos une a Deus, associa-nos à sua vida, faz com que Deus viva em nós: "Se alguém me ama, meu Pai o amará, viremos a ele, e nele faremos morada".

Todo ser vivo possui um organismo, isto é, um conjunto de órgãos ou de faculdades com que se manifesta e produz atos para fora de si mesmo. As virtudes sobrenaturais são os órgãos ou faculdades ativas próprias da vida divina e humana, que recebemos pela graça. Constituem o modo, a forma, pela qual Deus nos comunica sua força.

As obras nas quais empregamos as virtudes sobrenaturais são como o indicativo da vida divina em nós. São atos divinos e humanos que possuem um valor tão grande que só Deus pode ser sua recompensa.

Graças a essas considerações, compreendemos melhor como as virtudes sobrenaturais, em razão de seu caráter, origem e poder, elevam-se muito acima das virtudes naturais.

Existe uma correspondência entre virtudes naturais e sobrenaturais. Dito de outro modo: toda virtude sobrenatural corresponde a uma virtude natural, à qual pressupõe, completa e transforma. Também representa uma energia divina que trabalha em simbiose com uma energia humana. As duas virtudes correspondentes, a humana e a divina, têm o mesmo nome. Assim, existem duas humildades, duas prudências, duas temperanças: as de cima e as de baixo. Disso resulta que podemos praticar e, frequentemente, de fato praticamos, ao mesmo tempo, as duas virtudes correspondentes.

A graça santificante é um princípio de vida. As virtudes sobrenaturais são como que o organismo desse princípio de vida. Estão intimamente unidas à graça santificante e não podem separar-se dela. Ao recebermos a graça santificante, recebemos também as virtudes sobrenaturais. Enquanto estamos com a graça santificante, conservamos essas virtudes. Ao pecarmos gravemente, perdemos a graça santificante e, consequentemente, as virtudes sobrenaturais. A fé e esperança são as únicas que podem permanecer na alma sem a vida da graça. A alma em pecado mortal, porém, ao cair na incredulidade e no desespero, perderá também as virtudes da fé e da esperança.

Deus pode devolver aos pecadores as virtudes perdidas, e de fato as devolve, junto com a graça santificante, quando recebem Seu perdão. Note-se que as virtudes naturais, à diferença das sobrenaturais, não morrem por causa do pecado. Todo ato mau, obviamente, enfraquece-as, assim como todo ato bom as fortalece. Entretanto o pecado não chega a destruí-las.

As virtudes sobrenaturais crescem ao crescer a união com Deus. Tudo o que pode estreitar essa união (a oração, a comunhão) concorre para o aumento das virtudes. Contudo, o caminho mais eficaz e prático de crescer nas virtudes consiste no exercício efetivo e habitual das que se quer adquirir em toda a sua plenitude. Quanto mais as praticarmos, tanto mais as fortaleceremos.

As forças naturais são bem distintas das forças sobrenaturais. As primeiras se gastam pelo muito uso; as segundas se fortalecem pela prática. As virtudes naturais se consomem; as virtudes sobrenaturais nunca se esgotam.

Depois de ter dado uma ideia resumida do que seja a virtude, diremos, brevemente, a seguir, o que seja o ato virtuoso.

Chama-se ato de virtude ou virtuoso o ato que põe em prática a virtude, A iniciativa de um ato de virtude natural vem da razão. A razão concebe as motivações do ato, as propõe ao espírito, e assim desperta as exigências da consciência e determina as resoluções da vontade. As motivações dessa espécie de ato são sempre naturais. Por isso, o homem pode descobri-las pela luz da razão.

A iniciativa de um ato de virtude sobrenatural vem de Deus e não de nós. Deus nos dá a ideia do ato de virtude por meio das suas inspirações e toma parte na realização do ato por meio do que chamamos de graça atual. Essa inspiração e participação divina sempre orientam o ato virtuoso a um fim sobrenatural.

Em razão dos deveres de estado, dos afazeres do dia a dia, das penas da vida, das relações com o próximo, das tentações e, sobretudo, da ação do Espírito Santo na alma, nunca faltam oportunidades para o exercício dos atos virtuosos. Isso deve nos alegrar, porque dos atos virtuosos surge o merecimento, que é o direito a uma recompensa. O trabalho do operário merece um salário. Os êxitos do estudante merecem louvores. Da mesma maneira, todo ato virtuoso sobrenatural também merece uma recompensa. Esse direito provém das promessas de Deus e da excelência do ato virtuoso em si mesmo. O ato virtuoso sobrenatural é um ato de ordem divina que, por isso mesmo, possui um valor divino.

O merecimento de um ato virtuoso pode variar. Seu valor pode ser aumentado pelas circunstâncias nas quais é exercido. Entre as circunstâncias que podem aumentar seu valor, temos: as dificuldades que é necessário vencer para praticá-lo, o grau mais ou menos elevado da graça de quem pratica o ato virtuoso, a estatura do amor devotado a Deus, a excelência das intenções da pessoa virtuosa.

Se me perguntassem o que se deve fazer para que um ato de virtude seja sobrenatural e tenha, por isso, mérito, lhes responderia que depende da intenção ou vontade de exercer o ato virtuoso. Essa intenção pode ser explícita, quando alguém se propõe, formalmente, a exercer tal ou qual virtude sobrenatural. É implícita, quando, sem haver uma intenção expressa, o ato virtuoso sobrenatural é exercido com a devida advertência, como o ato religioso; ou quando oferecem-se a Deus atos não religiosos, como o trabalho, os sofrimentos etc.

É importante adquirir muitos méritos pela prática das virtudes sobrenaturais. O mérito é a moeda com a qual se compra os favores e as recompensas divinas. Torna fecunda a existência e faz com que produza frutos abundantes. Nos propicia crédito diante de Deus. Faz jus às suas graças e à glória do céu. Poderíamos dizer que sem mérito não há salvação.

Conforme o convite da Sagrada Escritura, expliquei-vos aqui, filhos que ridos, "onde está a virtude" e as vantagens proporcionadas pelo ato virtuoso, para inspirar-vos o mais vivo desejo de estudá-las e o propósito de adquiri-las mais facilmente. Diz o Espírito Santo que, quando alguém sabe onde está a virtude, sabe "onde se encontram a vida longa e a felicidade, o fulgor dos olhos e a paz" (Baruc 3,14).

Para ficar mais claro e ajudar a memória a rever mais facilmente o conjunto de cada família, fiz um quadro sinótico de cada família que encabeça o texto. Prestai muita atenção às notas que acompanham o primeiro quadro (Virtudes de Sacrifício), necessárias para sua compreensão, e dos demais quadros.

Sobre os vícios, aqui, tenho pouco a dizer. A seu tempo terei ocasião de tratar amplamente de cada um deles. Talvez, mais do que no estudo das virtudes, tereis modo de conhecer-vos profundamente no estudo dos vícios. Há em cada parágrafo uma psicologia profunda, um conhecimento completo do pobre coração humano, de suas misérias, debilidades e imensurável malícia.

Meus filhos amados, do estudo dos vícios advêm-nos uma forte repulsa a tudo o que é mau, uma grande desconfiança das nossas forças, um maior discernimento para defender-nos e desvendarmos as tentações do demônio.

Pelo estudo das belas virtudes celestiais, reflexos vivíssimos da santíssima humanidade de Jesus, lograreis as mais firmes resoluções de obter esses bons hábitos tão preciosos. Praticando as virtudes sólidas, como a obediência, a caridade, a humildade e o sacrifício, encontrareis o verdadeiro caminho da perfeição e da santidade.

 

Filhos amados, nunca percais de vista a obtenção da preciosa "atenção amorosa em Deus", da qual mil vezes vos falei, e que é a própria vida contemplativa. Ela vos ajudará na prática das virtudes mais elevadas, unindo vossas vidas a Jesus e Maria, pela santíssima vontade do Pai e a ação do Espírito Santo, o amado de vossas almas.

No estudo paralelo das virtudes e da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, ao qual vos aplicais diariamente, por dois anos, vereis como, em nosso modelo amabilíssimo, encontram-se as virtudes em seu grau mais perfeito.

Por intermédio desse estudo, unireis, assim, em vosso coração, a teoria e a prática, o aprendizado técnico e o exemplo mais perfeito, e vos conformareis à imagem do perfeito missionário do Espírito Santo.

Cada um, pelos inúmeros motivos que já lhe foram explicados, sabe o valor de entrar na intimidade com Jesus, a fim de que o Divino Rei viva, reine Le derrame suas graças no coração de seus filhos prediletos.

Vosso pai, que, verdadeiramente, vos quer santos e suplica a Jesus, por intermédio do dolorosíssimo Coração de Maria, que vos torne santos segundo a Sua vontade.

Noviciado do Espírito Santo e do Coração de Maria.

Tlálpan, sexta-feira 18 de março de 1921.

Festa das Dores da Santíssima Virgem Maria.

 

FÉLIX DE JESÚS ROUGIER,

Presbítero.

Mestre de noviços.




Amanhã publico a introdução...

quinta-feira, 13 de abril de 2023

001TVV - TRATADO PRÁTICO DOS VÍCIOS E DAS VIRTUDES - Notas e Prefácio

 



Estou estudando de forma profunda esse livro usando o método da lectio divina.

É um tratado de santidade.

Todos deveriam fazê-lo. E com urgência.

Acompanhe fielmente e faça a sua leitura, meditação, resumo e propostas concretas de pôr em prática tudo o que o próprio Senhor ensina nesse livro à sua filha Beata Maria Concepción.

Faça uma profunda lectio divina com cada capítulo. Só assim para meditar com fruto e forçar-se a pôr em prática as virtudes. 

Sem lectio é perda de tempo conhecer tais riquezas...


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Começo com as notas introdutórias do livro:


NOTA DO EDITOR

Os textos contidos no presente Tratado sobre as virtudes e os vícios foram extraídos de escritos inéditos da Serva de Deus Concepción Cabrera de Armida, ordenados de forma sistemática e impressos pelo padre Félix de Jesús Rougier em edição privada de 1921.

Esta reedição contém levíssimas correções que deixam o texto original sem alterações substanciais, tal qual saiu das mãos e do coração de ambos os servos de Deus.

Acrescentaram-se citações a fim de facilitar o acesso aos escritos originais.

México, D. F., janeiro de 1976.

 

IMPRIMATUR

Maximus, Episc. Derbensis Vic. Gen. - Aux. Archiep. Mexican Die 15 martii 1921

 

ADVERTENCIAS PRELIMINARES

1. Este livro foi escrito pela Serva de Deus Concepción Cabrera de Armida. A maior parte autora passou foi redigida no ano de 1900, durante os seis meses em que a à cabeceira da filha gravemente enferma, com as interrupções que se fizeram necessárias. Apenas alguns trechos são de anos anteriores. A sistematização do livro foi realizada integralmente pelo Servo de Deus Félix de Jesús Rougier, a partir dos escritos inéditos de Concepción Cabrera de Armida.

2. A redação do livro tem a forma de um ditado de Nosso Senhor, que se comunicou de diferentes maneiras à sua Serva, mas não como o ditado de um mestre para com seus alunos nem como o ditado de um advogado para com sua secretária. (Cfr. Ignacio Navarro, Itinerario espiritual, Apêndice 1,

3. Se, nos autores dos livros bíblicos que escrevem sob a inspiração do Espírito Santo, de cada um ficam impressos a personalidade, o temperamento, o ambiente, a cultura, a época e as demais influências a que estão sujeitos, com maior razão o instrumento humano deixa sua marca visível em qualquer outro tipo de escritos, ainda que de origem divina.

4. A linguagem da Serva de Deus não é a linguagem técnica dos teólogos, mas a linguagem simples, por vezes imprecisa, que usamos em nossa conversação cotidiana. Por exemplo, quando a autora diz: "pode se converter em vício ou até em pecado", certamente um teólogo diria a mesma coisa de uma outra maneira.

5. Conchita escreve com grande simplicidade, não como uma professora que ensina, mas como uma mãe que se dirige a seus filhos. E é dessa forma que deve ser lida, até porque, de fato, todas estas páginas tiveram como destinatários imediatos suas filhas do Oasis e os futuros Sacerdotes de la Cruz.

6. O objetivo destas páginas é ajudar a progredir na vida espiritual aquelas almas desejosas de caminhar seriamente rumo à perfeição, revelando as insidias, os disfarces e as táticas enganosas do inimigo. Ao mesmo tempo, mostrar os remédios mais apropriados para combater vícios, pecados e defeitos, e os meios mais eficazes para avançar nas virtudes.

À primeira vista, esse projeto parece-nos demasiado complexo em razão dos muitos detalhes que o compõem. Contudo, o duodécimo e último grupo de virtudes perfeitas permite-nos enxergar a unidade e a sobriedade da vida espiritual centrada na caridade e nas virtudes teologais. Todo o resto está direcionado a remover obstáculos no caminho do amor ou a oferecer meios que, à luz da fé na Cruz de Cristo, adquirem uma eficácia divina.

Para tanto não é de se estranhar a linguagem por vezes severa com que se condenam alguns vícios, pecados ou imperfeições, pois, na realidade, são obstáculos muito sérios ao progresso espiritual. Tomar estes conselhos de perfeição num sentido apenas jurídico ou moralista de lícito ou ilícito, seria uma falta de apreço pela doutrina aqui exposta e um erro grave, fonte possível de escrúpulos e desânimo. Trata-se aqui, na verdade, de um caminho extremamente rico em pormenores, sutilezas e finuras e que nos eleva à santidade.


 

PREFÁCIO À PRIMEIRA EDIÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA

 

Tratado Prático dos Vícios e das Virtudes

Concepción Cabrera de Armida

 

O presente tratado foi escrito à três mãos (cf Advertências Preliminares): Nosso Senhor quem dita, Conchita que escreve e Pe. Félix que sistematiza conforme a teologia católica de sempre. E esse movimento é que, junto à causa canonisationis, que é um fato dogmático, faz perceber a autenticidade dos escritos e a veracidade dos dons místicos de Concepción Cabrera de Armida: em nada colidem entre si essas duas vias a da alma privilegiada e a da autoridade da Igreja, antes, elas se confirmam e se iluminam mutuamente.

Conchita, como era conhecida por todos, foi uma leiga mexicana e mãe de nove filhos. Nasceu em San Luis Potosí em 8 de dezembro de 1862 e morreu na Cidade do México em 3 de março de 1937. Além de esposa, mãe e viúva, fundou as Obras da Cruz, fruto, além dos pedidos de Nosso Senhor, de sua espiritualidade profundamente devotada aos sacerdotes. As obras da Cruz, que constam inclusive de congregações masculina e feminina, tem por fim rezar pelos sacerdotes e auxiliá-los de todas as formas possíveis.

Podemos dizer que esta é a razão mais profunda deste tratado: a santificação dos sacerdotes - mas não sem os leigos, como o próprio testemunho de Conchita deixa claro. E aqui é necessário remontar ao providencial encontro de Conchita com o Padre Félix Rougier (1859-1938). Tão marcante e determinante foi esse encontro que o confessionário onde ele ocorreu encontra-se conservado como relíquia. Dali por diante se fortalecerá uma amizade espiritual entre ele e Conchita, própria das almas chamadas à uma graça particular de santificação.

Padre Félix, um sacerdote que buscava a perfeição, ao encontrar-se com Conchita tem sua vida ainda mais elevada. E, além da fundação dos Missionários do Espírito Santo, terá o privilégio de organizar os escritos de Conchita, ditados por Nosso Senhor, de modo que fossem instrumento de formação para os noviços da nova congregação. Mas não podemos esquecer que isso é fruto de um encontro entre ambos, uma leiga e um sacerdote, ambos chamados a um alto grau de perfeição. Assim fica claro que o presente tratado, como será possível perceber também na sua leitura, não é destinado apenas aos sacerdotes, mas também aos leigos chamados à perfeição.

Os fundadores, em vista do carisma da paternidade espiritual, não têm outro desejo senão que seus filhos espirituais progridam na perfeição cristã, e essa é a razão dos escritos de Conchita para além do privilégio das graças místicas que ela abundantemente e extraordinariamente recebeu.

Pe. Félix teve a delicadeza de no Prólogo, dirigido aos noviços, elaborar uma excelente síntese sobre as virtudes tratadas por Conchita e dizer que ali estava um programa para o noviciado, programa este banhado no carisma da "ordem" da Cruz. Aliás, muitas das virtudes terão uma união perfeita e fonte no Mistério da Cruz. As virtudes, dirá o sacerdote, são as "riquezas da Cruz. A Cruz desmascara os vícios. É uma trincheira que Satanás jamais traspassa. De modo que relacionar as virtudes ao mistério da Cruz significa dizer que toda virtude tem sempre qualquer coisa de sacrifício, como que a dar-lhe o quilate, e elevá-la ao sobrenatural pela via da Paixão. A Cruz é o fio de ouro que traspassa todo este Tratado das Virtudes.

Aspectos que convém destacar acerca das virtudes e dos vícios

O Tratado não apenas explica o que seja cada virtude, mas a sua raiz e correlação com outras virtudes, mostra ainda suas consequências nesta vida e na outra. As virtudes estão agrupadas em famílias que também são chamadas constelações a fim de se entender melhor o quanto estão relacionadas, por isso, a primeira virtude de cada família, pode ser entendida como um astro em torno ao qual orbitam satélites. Isso mostra que uma virtude nunca está ou se desenvolve sozinha. Algumas inclusive se entrelaçam tão fortemente que só podem ser distinguidas por um ou outro detalhe.

O mesmo é possível constatar a respeito dos vícios, cujas famílias ou constelações antagônicas são postas após a descrição das respectivas virtudes: suas raízes, desenvolvimento e consequências, a que virtudes se opõem bem como o remédio para saná-los. Conchita não se detém às consequências dos vícios nesta vida, que já são terríveis, mas anuncia as consequências na outra vida. Cito apenas como exemplo o castigo denominado especial" para um vício tão comum nos dias atuais que é o respeito humano. Disse Nosso Senhor:

"Tenho um castigo especial para o respeito humano. Satanás lança num fogo voraz as almas que no mundo arrebatou dos Meus braços, fazendo com que, afastando-as do Meu Coração, se envergonhassem de Mim, começando pelo respeito humano até chegarem ao ódio e à malícia extrema contra Mim (p.95).

A precisão de Conchita, como não seria menos, é cirúrgica em relação ao modo como se manifestam as virtudes e vícios, no modo como se relacionam e ao ponto que podem chegar. Há virtudes (assim como vícios) ligados distintamente à alma e ao corpo como é o caso das virtudes da pobreza e da mortificação, elas encontram ressonância interior e exterior.

Há virtudes mais refinadas, são as que ela denomina espirituais. O termo "espiritual" é utilizado ao lado de uma virtude ou vício para fazer notar uma sua sutileza ou cristalização, sendo que no caso da virtude espiritual", será sempre mais enraizada e elevada, e já referente ao vício "espiritual", apesar de também, ao seu modo, enraizado, será sutil e dissimulado, aninhado e escondido.

Aos vícios, portanto, ela desmascara todas as artimanhas possíveis de sua introdução numa alma começando da psicologia diabólica: Satanás, diz ela, colore os vícios "menores" ou mais discretos para levar a outros maiores e escandalosos. Conchita descreve várias vezes o ciclo vicioso que se forma entre o vício, o corpo e a alma. E mesmo agindo nas potências inferiores da alma, o Diabo visa, através do vício, o espiritual, não só por ser ele uma criatura espiritual, mas porque é o que mais glória a Deus dá, quando está devidamente ordenado a Ele. Por isso o vício é um engano de si mesmo em relação à realidade e a Deus.

Perigosíssimos, alguns vícios chegam até mesmo a formar o que ela chama de segunda natureza, isto é, infectam todas as operações como se lhes fossem conaturais. Por isso há vícios que precisam do auxílio da graça não só para serem desaninhados e vencidos, mas inclusive, descobertos; há vícios que perdurarão até o fim, como a vaidade que perseguirá o homem "até o túmulo” (p. 102). Em ambos os casos, requer-se auxílio especial da graça para vencer ou combater até o fim. Serão justamente as virtudes descritas por Nosso Senhor a pôr luz e contrastar toda psicologia maliciosa por detrás dos vícios, e colocar à disposição do homem chamado à perfeição um arsenal de graças seja para a vitória que para o combate até o fim.

É impressionante notar a ordem pedagógica com a qual as famílias de virtudes e de vícios aparecem dispostas. Primeiro as de sacrifício, como que a dizer que não há virtude sem sacrifício assim como a destruição dos vícios exige sacrifício. Já as de humildade vão encontrar seu brilho no Mistério da Encarnação, com o qual, apesar do chamamento à Cruz, Conchita teve uma estreita relação. E o que é a Encarnação senão o caminho da Cruz! É a Encarnação que dá o quilate da família da humildade, cujas virtudes que são divinizadas ao unirem-se no Coração do Verbo Encarnado. Nessas virtudes o sobrenatural chega a parecer natural quando trata-se de um grau eminente sublime de virtude. E assim sucessivamente para cada família como que a construir um edifício sólido e robusto para as virtudes e podar ou cortar pela raiz os vícios.

O impacto da leitura deste Tratado na vida

Ao elevar seus filhos a honra dos altares a Igreja está dizendo que não são mais patrimônio particular desta ou daquela família, apesar de serem a sua herança, mas passam a ser uma riqueza a qual podem e devem ter acesso todos os fiéis. Assim sendo o Tratado das Virtudes torna-se um tesouro inestimável a todos os que dele quiserem se enriquecer na batalha contra os vícios e no desenvolvimento das virtudes. Por isso gostaria de dizer algumas coisas importantes dado belíssimo trabalho da editora Katechesis ao colocar em todas as mãos possíveis uma obra como esta:

1. Trata-se de uma leitura indispensável aos que se sentem chamados à perfeição cristã. Conchita escreve para quem deseja estreita vida de perfeição e se lançar em tal progresso, não obstante a marca da Cruz, isto é, dos sacrifícios e dificuldades. A leitura deste Tratado é, portanto, um chamado de Deus, um dom da graça. E o leitor esteja preparado para uma verdadeira "tomografia" do seu estado de alma e da vida passada assim como para um verdadeiro derramamento de luzes para a vida futura.

2. Este Tratado é uma abundante despensa para a meditação quotidiana. O número 12 no qual se agrupam as famílias de virtudes é ainda mais sugestivo, dado que pode se estabelecer a leitura, a meditação e o estudo de cada família para cada mês do ano. O que é facilitado pelos quadros das famílias de virtudes e vícios conforme cada capítulo. Da meditação, Conchita escreve ser: o para raio do pecado, princípio para ordenar a vida e defesa dos ataques do Inimigo. E unida à oração, a meditação se torna uma torrente de bênçãos, pois quem não para de rezar não para de receber graças. Eis o caminho da contemplação mística.

3. Um instrumento formidável para a educação para as virtudes. Sacerdotes, religiosos e leigos, casados ou celibatários, educadores (pais, catequistas, professores) tem ao seu dispor um formidável arsenal para educar-se nas virtudes e educar a outros nesse caminho tão indispensável e para o qual fomos criados, pois o fim mais excelente da educação da vontade é a sua identificação.com a vontade divina.

4. Um excelente exame de consciência. O progresso nas virtudes não está apenas em amar o bem, mas em odiar ao mal. A virtude precisa ser conhecida para ser amada, assim como o vício precisa ser manifesto na sua malícia para ser odiado e combatido. Ora, uma leitura atenta e meditativa deste Tratado, além de dar um conhecimento das virtudes e dos vícios, pode tornar-se num minucioso exame de consciência seja para auxiliar no Sacramento da Reconciliação, seja para a direção espiritual. E, como não poderia deixar de ser, também servirá para a análise das graças de Deus, pois já o fato de sentir-se chamado a uma vida mais perfeita não pode ser outra coisa senão um manancial de graças dispostas por Deus a fim de ajudar a alma que assim deseja. Este tratado será uma "tomografia" da alma ao que dele souber dispor.

5. Um instrumento que não pode prescindir da graça. A graça tem papel primordial no progresso das virtudes e no quebrantamento dos vícios. Por isso, à medida que a leitura avança é muito importante que ela se transforme em oração, vida sacramental e propósitos.

Por fim, mas não menos importante, e sim como um coroamento, o leitor notará que a Santíssima Virgem estará presente tanto nas virtudes mais simples quanto nas mais elevadas. Isto significa que Ela está no começo e no fim, isto é, com os iniciantes e os avançados. Ambas as categorias de almas precisam dEla, porque Nossa Senhora não só possui todas as virtudes em elevadíssimo grau, mas as tem para distribuí-las e ornar seus devotos. E Nossa Senhora as quer distribuir. Mas é necessário pedir!

Certamente as disposições de alma que forem surgindo durante a leitura deste Tratado e que forem sendo transformadas em pedidos à Virgem Santíssima, e falo com toda segurança: as letras desse Tratado, das folhas de papel serão impressas nas almas que assim o fizerem: lendo e rezando, rezando e lendo. E foi justamente para esse fim Nosso Senhor ditou, que a Beata Conchita escreveu e o Venerável Pe. Félix organizou este belíssimo Tratado. E que agora a Editora Katechesis, por sua vez, faz chegar até o leitor de língua portuguesa.

Deus abençoe sua leitura e o faça progredir nas virtudes cada vez mais!

Pe. Alexandre L. Alessio, CR

Março de 2021.





Amanhã publico a continuação...