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segunda-feira, 16 de abril de 2018

Pressupostos do Aprendizado 17



- Oitava Parte -



41. A humildade, considerada em si e nas Escrituras.

Discorremos até aqui sobre o que é a humildade examinando-a em si mesmo, procurando deduzir o que ela seja partindo de considerações de sua própria essência, à luz das indicações que nos foram deixadas como linhas mestras nos escritos de Hugo de S. Vitor. Dissemos que é uma disposição da mente proveniente da consciência de sermos uma criatura e não um deus. Se esta disposição é verdadeiramente habitual, algo que não surge apenas quando pensamos no assunto de modo abstrato, afastados da interferência de nossos sentimentos, de nossas ações ou mesmo de outras considerações teóricas que poderiam contradizê-la, de modo que não apenas saibamos ser criatura nestes momentos especiais, mas continuamos conscientes de sê-lo em todas as circunstâncias de nossa vida e de modo que nossas ações, sentimentos e demais pensamentos não só sejam coerentes com esta consciência mas também derivem dela, então podemos dizer que somos humildes.

Considerada em si mesmo, portanto, a humildade não é algo que se pratique mediante a obediência a determinadas regras de conduta. Ela não consiste em algum determinado modo de agir, mas é, em sua essência, apenas a posse habitual da clara consciência de sermos uma criatura e das conseqüências que isto implica. A humildade não é, em sua essência, uma regra de conduta ou um hábito de conduta, mas a consciência permanente de uma verdade.

A consciência desta verdade, porém, irá se manifestar de uma inumerável multiplicidade de maneiras conforme o meio ou as circunstâncias em que o indivíduo que a possui vier a se encontrar. As manifestações da humildade são, pois, impossíveis de serem enumeradas porque são tão infinitas quantas são as circunstâncias possíveis do agir e do viver dos homens. Ela se manifesta de modo diverso no cientista, em sua constante procura pela verdade científica; no juiz, ao dever sentenciar com autoridade sobre a aplicação da lei, ou em um advogado, ao aceitar a defesa de seu cliente; no professor, ao ter que posicionar-se sobre como e para onde estará conduzindo seus alunos; no médico, de cujo proceder depende a vida e a morte dos que lhe são confiados; no sacerdote, diretamente imerso no sagrado; na mãe de família, que tem diante de si a lhe exigir uma resposta, na pessoa de seus filhos, uma realidade muito mais complexa do que a que lhe seria apresentada por qualquer outro estranho e adulto. A humildade também se manifestará de modo diverso no cristão, diante do qual a graça e a Revelação descortinam realidades mais profundas do que as que podem ser apreendidas apenas pela luz natural da razão. Diante de todas estas circunstâncias podemos nos posicionar agindo como se fossemos dotados de atributos divinos ou com a clara consciência de sermos apenas uma criatura finita, inferior aos deuses, igual a nossos semelhantes, carentes de virtude e conhecimento, e também da graça.

Sejam quais forem, porém, as realidades específicas com que qualquer homem possa se defrontar, ele não poderá, todavia, esquivar-se de ter que responder com uma posição pessoal sobre como irá se colocar diante de Deus, ou pelo menos diante do cosmos que lhe revela a existência de uma ordem superior a sim próprio dentro da qual ele está inserido; diante do seu semelhante, por ser impossível que um homem passe uma vida sem ter convivido com outros homens; e diante de si mesmo. Daí as três manifestações mínimas e necessárias da humildade a que nos referimos anteriormente, o reconhecimento e a reverência para com o sagrado ou o superior a si próprio, o respeito para com o próximo reconhecido incondicionalmente como um igual, e a consciência da própria indigência da graça, virtude e conhecimento que conduz ao desejo profundo de aprender.

Queremos agora mostrar que esta doutrina sobre a natureza da humildade e do seu caráter de princípio da virtude e do aprendizado, deduzido por um exame da humildade considerada em si mesma, pode também ser deduzido ou encontrado nos ensinamentos contidos nas Sagradas Escrituras.




42. As manifestações da humildade segundo a doutrina contida nas Sagradas Escrituras.

Consideremos, em primeiro lugar, o texto das bem aventuranças, uma das mais belas passagens do Evangelho:

"Vendo Jesus as multidões,
subiu ao monte e sentou-se. 

Rodearam-no os discípulos,
e ele pôs-se a ensiná-los, dizendo: 

Bem aventurados os pobres de espírito,
porque deles é o Reino dos Céus. 

Bem aventurados os mansos, 
porque possuirão a terra. 

Bem aventurados os que choram, 
porque serão consolados. 

Bem aventurados os que tem 
fome e sede de justiça,
porque serão saciados. 

Bem aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia. 

Bem aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus. 

Bem aventurados os pacíficos, 
porque serão chamados filhos de Deus".
Mt. 5, 1-9

Estas sete bem aventuranças não são elogios dispostos ao acaso. Ao contrário, a tradição cristã tem visto nelas uma descrição de todo o itinerário da vida espiritual. Diz, neste sentido, São Gregório de Nissa:

"Aquilo que foi ensinado ao patriarca Jacó
por meio da visão de uma escada que, 
subindo da terra, alcançava as alturas do céu,
e em cujo topo via-se a Deus,
é-nos agora ensinado pela doutrina das bem aventuranças. 
Sob as aparências de uma escada 
foi ensinado ao santo patriarca
que não pode subir até Deus
senão aquele que tenha as vistas sempre voltadas
para algo mais alto,
e não se contente em permanecer 
nas que já alcançou. 
A altura das bem aventuranças 
umas para com as outras 
faz com que aqueles que já receberam 
algumas delas possam se aproximar de Deus,
que é verdadeiramente feliz,
constituído e estabelecido
acima de toda bem aventurança".
De Beatitudinibus
PG 44, 1247-9

Neste sentido, as duas últimas bem aventuranças descrevem a vida contemplativa; a sexta se refere ao início da contemplação, a sétima à sua plena posse. As três primeiras bem aventuranças descrevem as disposições iniciais daqueles que hão de chegar à vida contemplativa.

O Reino dos Céus é daqueles que são pobres de espírito, diz a primeira bem aventurança. Acrescentando à palavra pobre a expressão `de espírito', Jesus quer dizer com isto que não está se referindo àquela pobreza constituída pela falta de posses materiais. Os bens materiais e o dinheiro são bens corporais, não são riquezas do espírito; o espírito é rico pela virtude, pelo conhecimento e pela graça, coisas que, no mais das vezes, a maioria dos homens julga já possuí-los suficientemente e por isso não se preocupa em buscá-las.

Com as riquezas materiais costuma acontecer o contrário. A maioria dos homens, ainda que possua grandes fortunas, geralmente se julga ainda carente de bens materiais e procura avidamente obtê-las em maior abundância. Por mais pobres, porém, que sejam na alma, agem como se se julgassem suficientemente ricos de espírito.

Os pobres de espírito, portanto, aos quais a primeira bem aventurança promete o Reino dos Céus, são aqueles que se reconhecem como tais. Não podem ser aqueles que são apenas de fato pobres de espírito, pois a indigência dos bens da alma é algo que, depois da queda do primeiro homem, se abateu sobre toda a humanidade:

"É muito importante",
dizia Santo Antão aos primeiros monges do deserto,

"que vos interrogueis acerca da natureza espiritual, 
na qual não há mais nem homem nem mulher, 
mas somente uma essência imortal 
que tem um começo e jamais terá fim. 
Será uma obrigação para vós conhecê-la,
e como decaíu totalmente a este ponto 
de tamanha humilhação e imensa confusão, 
num trânsito que não poupou a nenhum de vós, 
obrigando ao próprio Deus, 
por causa desta praga irremediável 
e que aumentava prodigiosamente, 
a visitar em sua clemência as suas criaturas".

São, pois, pobres de espírito todos aqueles que, à diferença da maioria dos homens, conseguem reconhecer-se a si mesmos nestas palavras. São pessoas que conhecem verdadeiramente a sua indigência espiritual e que, ademais, não podem ser facilmente convencidos do contrário pelas ilusões de que o mundo está repleto. Este conhecimento os impele à busca das riquezas do espírito de que sabem que carecem e, conseqüentemente, causa-lhes o desejo de aprender, com uma força que pode, pelas circunstâncias, ser impedida mas não apagada. Neste sentido, a primeira bem aventurança, o ponto onde se inicia a vida espiritual e o primeiro princípio da vida contemplativa descrita pelas últimas bem aventuranças, é um dos aspectos pelos quais anteriormente dissemos que se manifesta a humildade, e assim tem sido interpretada pela tradição cristã:

"Bem aventurados os pobres de espírito,
porque deles é o Reino dos Céus",
escreve Hugo de São Vítor nas Allegoriae Utriusque Testamenti.

"Quem são os pobres de espírito?",
continua ele.

"Há os que são ricos de espírito 
e há os que são pobres de espírito.
Os ricos de espírito são os soberbos; 
os pobres de espírito são os humildes".
PL 175, 763

Santo Agostinho também interpreta a primeira bem aventurança como se referindo à humildade no De Sermone in Monte, PL 34, 1234, e Santo Tomás de Aquino faz o mesmo na Summa Theologiae IIa IIae Q.19 a.12. Ora, sendo a primeira bem aventurança o princípio de todas as outras e, com elas, o princípio de toda a vida espiritual, deve-se concluir daqui que, segundo a doutrina das bem aventuranças, a humildade também é o princípio das virtudes e de toda a vida espiritual.

A tradição cristã, porém, tem reconhecido também um paralelo entre as sete bem aventuranças e os sete dons do Espírito Santo descritos em Isaías 11,2. Os dons do Espírito Santo, enumerados em sua ordem, são:


  1. Temor do Senhor,
  2. Piedade,
  3. Ciência,
  4. Fortaleza,
  5. Conselho,
  6. Entendimento,
  7. Sabedoria.


A cada um destes dons corresponde uma das bem aventuranças, de tal modo que ao dom de temor corresponde a primeira bem aventurança e assim sucessivamente, até os dons de entendimento e sabedoria que correspondem, respectivamente, à sexta e sétima bem aventurança dos puros de coração que verão a Deus e dos pacíficos que serão chamados filhos de Deus. A doutrina cristã ensina que todos os homens ao serem justificados pela graça recebem simultaneamente todos os setes dons do Espírito Santo. Ocorre, porém, que o desenvolvimento da vida espiritual é tal que o primeiro dom, o espírito de temor do Senhor, manifesta-se em seu início de modo mais acentuado e característico; à medida em que com o dom de temor amadurecem todos os demais dons, passa-se a manifestar de modo predominante o dom de piedade, e isto faz com que se eleve, juntamente com o dom de piedade, a vivência de todos os demais dons a um plano superior; assim continua ocorrendo, sucessivamente, até manifestar-se a predominância do dom de sabedoria, com o qual todos os demais dons alcançam também a sua maior plenitude. Com isto, porém, o desenvolvimento da vida espiritual pode ser descrito tanto segundo a seqüência das bem aventuranças como segundo a seqüência dos sete dons do Espírito. Os últimos dons do Espírito Santo, entendimento e sabedoria, descrevem, respectivamente, assim como as duas últimas bem aventuranças, os princípios e a consumação da vida contemplativa. O dom de temor do Senhor designa o seu primeiro princípio.

Se, porém, a primeira bem aventurança, a dos pobres de espírito, deve ser interpretada, como o faz Agostinho, Tomás de Aquino e de modo categórico principalmente Hugo de São Vitor, como sendo a humildade, a coerência obriga-nos a interpretar o dom de temor do Senhor também do mesmo modo.

Pobreza de espírito e temor do Senhor terão que ser, ambos, iguais a humildade. Efetivamente, os pobres de espírito são aqueles que, conscientes da própria indigência espiritual, buscam avidamente as verdadeiras riquezas de espírito; os que são movidos pelo espírito de temor do Senhor são aqueles que, com o auxílio da graça do Espírito Santo, possuem aquela reverência profunda pelo sagrado, pelas coisas mais elevadas e por Deus. Ambas estas coisas, porém, segundo estivemos deduzindo por outro caminho em todas estas notas, são duas manifestações de uma mesma virtude à qual chamamos de humildade.

A Sagrada Escritura ainda nos afirma que

"O temor do Senhor 
é o princípio da sabedoria".
Prov. 1, 7

Ao dizer isto ela nos declara que a reverência para com as coisas divinas é o primeiro princípio que conduz à contemplação, que é o principal efeito produzido pela vivência eminente do dom de sabedoria. Esta afirmação não acrescenta propriamente algo novo ao já explicado anteriormente sobre os dons do Espírito Santo, se não houvesse, no livro da Sabedoria, uma outra afirmação em parte igual e em parte diversa desta. Efetivamente, está escrito no livro da Sabedoria que

"O princípio da sabedoria
é um desejo sincero de instrução".
Sab. 7, 18

Temos então as Sagradas Escrituras afirmando em dois lugares distintos duas coisas diversas serem o princípio da sabedoria. Em Provérbios elas nos dizem que este princípio é o temor do Senhor; no livro da Sabedoria elas nos dizem que este princípio é o desejo sincero de instrução. Se partirmos do pressuposto, o qual, ademais, corresponde à realidade, segundo que as Sagradas Escrituras nos oferecem um corpo coerente de doutrina, temos que concluir daqui que as Escrituras nos ensinam que o temor do Senhor e o desejo sincero de instrução são dois aspectos diversos de uma mesma atitude.

Segundo o que estivemos deduzindo por outra via nestas notas sobre o Opúsculo sobre o Modo de Aprender, são elas, efetivamente, duas das três manifestações fundamentais de uma mesma virtude da humildade.

Pode-se, ainda, nas Sagradas Escrituras, encontrar-se uma descrição do que é o homem humilde, do que seja a primeira bem aventurança ou o que seja o dom do temor dom Senhor no Salmo 13 quando ele afirma:

"O Senhor se inclinou do céu
sobre os filhos dos homens, 
para ver se havia alguém 
que tivesse entendimento 
e que buscasse a Deus".
Salmo 13, 2

Desta passagem pode-se perceber que a atitude fundamental que faz o Senhor inclinar-se sobre os homens, a humildade, a pobreza de espírito ou o temor do Senhor, é algo que os leva, conforme diz o Salmo, a "ter entendimento" e a "buscar a Deus". Daqui pode-se inferir como a humildade tanto é princípio não apenas da sabedoria, ou da contemplação causada por ela, mas também do aprendizado, designado indiretamente no salmo por "ter entendimento", como das virtudes, designadas no salmo pela expressão "buscar a Deus", as duas vertentes que conduzem, por sua vez, à contemplação.


43. A dificuldade da prática da humildade.

Dissemos que as pessoas humildes são aquelas que manifestam verdadeira reverência para com as coisas divinas ou, pelo menos, para com aquelas que reconhecem como sendo superiores a si mesmas, que são movidas por um desejo profundo de aprender e que respeitam incondicionalmente o seu próximo tratando-o, em qualquer circunstância, sempre como a um igual.

Haverá alguns para quem esta virtude assim descrita poderá parecer algo cuja prática implicaria dificuldades tão inacessíveis que a tornariam impossível para o comum dos mortais. No entanto, contrariamente aos que pensam desta forma, já tivemos a oportunidade de mencionar que esta humildade não é a consumação da santidade, mas apenas o primeiro, o mais elementar dos requisitos exigidos para se poder trilhar o caminho que conduz a ela.

Este aparente paradoxo, poderá, na maioria dos casos, ter sua origem na errônea identificação entre a humildade e a prática das suas manifestações que acabamos de descrever. A humildade, efetivamente, não é a prática destas que são as suas manifestações fundamentais. Ela não se pratica forçando-nos a nós mesmos a não desrespeitarmos o próximo quando somos tentados a fazê-lo, nem obrigando-nos a aprender quando temos preguiça de o fazer. Às vezes poderá acontecer inclusive que tenhamos o dever de fazer estas coisas, mas fazer isto será a prática da virtude da paciência ou do estudo, e não da humildade. A humildade, em vez disso, consiste na consciência de determinadas verdades que, uma vez alcançada, produz espontaneamente as manifestações que enumeramos. A humildade não se alcança, portanto, através do exercício destas condutas, mas pela consciência de determinadas verdades.

Se não somos de todo capazes, ou se nos é muito difícil a prática das manifestações da humildade, isto decorre do fato de termos construído em nossa mente uma visão do mundo ilusória e falsa, que nos engana e à qual nos apegamos, dentro da qual nós mesmos despontamos, como em uma decorrência lógica, como seres dotados de atributos ou direitos que somente seriam compatíveis com entidades superiores às de natureza humana. Para se praticar a humildade, pois, devemos identificar primeiro qual é a visão de mundo e de nós mesmos que construímos, renunciar a ela, descermos do pedestal em que nos colocamos e nos igualarmos em natureza com nossos semelhantes que nos circundam. Não se pratica a humildade, portanto, exercitando a paciência, mas renunciando e reformulando nossos pensamentos. Devemos estar sinceramente dispostos a identificar os pontos de vista que agiam como pressupostos de nossa conduta e, verificando a sua incoerência, termos o discernimento e a decisão de renunciar a eles.

Esta prática, em vez de traumática ou destrutiva para o homem, é, em vez disso, bem ao contrário, altamente benéfica para ele e inclusive parte integrante de seu desenvolvimento normal. A primeira imagem que o homem faz do mundo e de si mesmo não é baseada na apreensão da inteligência, mas nos dados provenientes das paixões sensíveis. Isto ocorre porque as paixões humanas provém da vida sensorial, a qual se desenvolve no homem antes do uso da inteligência, já que a inteligência, para desenvolver-se em seu uso, necessita ela própria dos dados provenientes da apreensão dos sentidos, sendo-lhes, portanto, neste sentido, algo de posterior. As paixões humanas, provindo, portanto, dos sentidos, tendem a formar-se antes que se forme uma mais plena vida da inteligência. Seguindo este raciocínio, seria de se esperar que esta primeira visão que o homem forma do mundo e de si mesmo fosse em seguida gradualmente substituída pela que passa a ser oferecida pela apreensão da inteligência, à medida em que esta vai se desenvolvendo. No entanto, a experiência mostra que só na minoria dos casos isto acontece presentemente com os homens. O trabalho da inteligência, na maioria dos homens, no lugar de trazer a si a obediência das paixões, em vez disso coloca-se ele próprio a serviço destas paixões e da visão do mundo e de si mesmo que foi construída a partir delas, em uma verdadeira inversão dos papéis de súdito e senhor. O homem efetivamente diz e faz coisas inteligentes, mas trata-se de uma inteligência inteiramente dominada e a serviço de entidades que lhe são inferiores. A disposição à humildade marca, neste sentido, no homem, a retomada consciente de seu desenvolvimento psicológico normal e a renúncia que ela implica pode ser, para muitos, o início de um processo de abertura intelectual sem precedentes, o princípio do aprendizado, da virtude e da santidade.

Para sermos humildes devemos, pois, através do trabalho da inteligência, identificar a visão fantástica e passional que temos de nós e do mundo. "Julgá-la", como foi pedido ao profeta Ezequiel, "e declarar-lhe as suas maldades" (Ez. 23, 36). Renunciarmos a ela de modo explícito e aceitarmos, em seu lugar, a verdadeira como sendo a real. Sem esta disposição nada mais será possível aprender, como o declara Jesus ao dizer que quem quiser seguí-lo,

"Renuncie primeiro a si mesmo".
Mt. 16, 24

O si mesmo a que Jesus de refere são as inumeráveis mentiras que nós mesmos nos contamos a nós mesmos sobre nós mesmos. De fato, a tais coisas como à verdade, à luz da inteligência, à sua condição de criatura, à sua relação para com o Criador, nenhum homem, por mais que o queira, pode renunciar mais do que poderia impedir que o Sol brilhasse sobre o horizonte.







(Fonte: cristianismo.org.br)


sexta-feira, 13 de abril de 2018

Pressupostos do Aprendizado 16



- Sétima Parte -



40. A Evangelização.

Antes de prosseguirmos em nossa exposição, vamos, ainda que brevemente, relembrar o motivo ou a finalidade destas explicações. Pois o homem prudente sempre
"faz tudo com conselho",
diz o livro de Provérbios (Prov. 13,16), e o primeiro de todos os conselhos é a constante recordação do fim a que eles se ordenam (Lam. 1, 9).

O fim que tem nos norteado em nossas considerações é a busca da verdade. Estamos em busca da verdade, não da verdade entendida de um modo qualquer, mas daquela verdade à qual se ordena o Evangelho, aquela da qual Jesus afirma ter vindo ao mundo para dela dar testemunho, e da qual Jesus também ensina ser aquilo que pode tornar o homem livre. Esta verdade é algo que por sua natureza se ordena a Deus e se alcança pela contemplação, conforme o atesta o profeta Baruc, quando diz:

"Deus é quem vos alimenta, 
e Jerusalém é vossa nutriz".
Baruc 4, 8

Ora, diz Santo Tomás de Aquino que o trabalho de governar e ordenar as coisas ao seu fim compete àqueles a quem comumente se dá o nome de sábios. Para fazer isto, a principal consideração do sábio, seu principal estudo,

"o mais perfeito, o mais sublime, 
útil e feliz de todos os estudos
a que o homem pode se dedicar",

ao qual chama-se simplesmente de sabedoria, deve dizer respeito ao fim do qual devem derivar as regras pelas quais todas as demais coisas deverão ordenar-se e serem governadas (Summa contra Gentiles, L.1, l. 1-3).

Deste modo, sendo a verdade aquilo para o qual tende o Evangelho, pode-se dizer que ela é também a fonte de onde se origina o autêntico trabalho de evangelização, no qual está inserido o cumprimento do preceito de ensinar, que Jesus Cristo pediu como prova de amor aos seus discípulos. A verdade, porém, à qual se ordena o Evangelho é algo que não possui este nome num sentido metafórico.

Chama-se à mesma simplesmente de a verdade porque é algo que possui mais plenamente tudo aquilo que também possuem em grau menor todas aquelas coisas às quais usualmente damos o nome de verdade. Neste sentido a verdade é, em primeiro lugar, algo que prima por converter-se com a realidade, e significa, para o homem, uma tomada de consciência do real no seu sentido mais pleno possível.

Sendo tudo isto assim, porém, a evangelização difere dos trabalhos a que estamos habituados a observar serem empreendidos pelos homens porque estes últimos dependem, em sua maior parte, principalmente de condições estruturais que em si são inconscientes e que, em sua relação com os homens, dependem de graus de consciência muito pequenos por parte daqueles que deles se utilizam.

São exemplos destas condições estruturais os recursos materiais, a boa propaganda, a disponibilidade de recursos humanos utilizados, porém, de um modo não essencialmente diverso de como se utilizam os próprios recursos materiais. A evangelização difere profundamente de todos estes trabalhos porque, se deve ser entendida como algo capaz de apresentar aos homens e de conduzí-los ao fim que lhes é proposto por Cristo, subsiste fundamentalmente em função de altíssimos níveis de consciência do real daqueles ou pelo menos de uma parte daqueles pelos quais é empreendido. O caminho pelo qual se alcançam estes níveis de consciência foge completamente ao padrão a que o mundo está habituado a seguir quando decide empreender qualquer atividade; eles não podem ser comprados com dinheiro, e não há nenhum programa de investimento de recursos econômicos que possam ser capazes de desenvolvê-los. O mais freqüentemente os recursos econômicos, em vez de ajudar, costumam impedir a obtenção do fim que se deseja. De qualquer forma, uma coisa não depende de outra e o fato de se pensar seriamente o contrário já costuma ser indício da ausência deste bem que se busca.

Outra ilusão possível ainda é o pensamento de que o trabalho de evangelização depende fundamentalmente de boa legislação ou da existência de regras promulgadas com sabedoria. Há, efetivamente, uma relação entre a evangelização e ambas estas coisas que não existia no caso dos recursos materiais, mas, mesmo aqui, a legislação sábia só funciona se, para além dela, houver sido providenciado o modo pelo qual possam sempre subsistir um certo número de pessoas, tantas quantas forem verdadeiramente possíveis, que detenham em si mesmas estes elevados níveis de consciência do real. Disto é testemunha o próprio Deus quando Ele mesmo declara, no Antigo testamento, que realizaria no futuro uma nova aliança com os homens, diversa da anterior por não estar mais escrita em tábuas de pedra, "aliança que os homens violaram" (Jer. 31, 32), e não puderam cumprir. Em vez disso, diz o Senhor,

"Farei uma nova aliança
com a casa de Israel e com a casa de Judá, 
não como a aliança que eu fiz com os seus pais 
no dia em que os tomei pela mão 
para os tirar da terra do Egito. 
Imprimirei, depois daqueles dias, 
diz o Senhor, 
a minha lei nas suas mentes, 
e a escreverei nos seus corações".
Jer. 31, 31-33

Quando isto acontecer, profetiza ainda Jeremias,

"Eu vos darei pastores segundo o meu coração, 
os quais vos apascentarão
com a ciência e com a doutrina. 
Naquele tempo chamarão a Jerusalém 
de o trono do Senhor, 
e todas as nações se reunirão em Jerusalém
em nome do Senhor, 
e não andarão mais após a maldade 
de seu péssimo coração".
Jer. 3, 15-17

Naquele tempo, lemos ainda em Isaías,

"A terra estará cheia 
da ciência do Senhor, 
assim como as águas do mar
que a cobrem".
Is. 11, 9

"Não se dará mais ao insensato
o nome de príncipe, 
nem ao fraudulento
o nome de grande. 
Não se ofuscarão os olhos
dos que vêem, 
e o coração dos insensatos 
entenderá a ciência".
Is. 32, 3-5

O Messias, responsável por estas maravilhas, será alguém que

"Não julgará
segundo as aparências, 
nem condenará 
somente pelo que ouve dizer".
Is. 11, 3

Estas palavras, utilizadas por Isaías para descrever a pessoa do Messias, são muito mais impressionantes do que parecem ao seu primeiro exame. Pois nós, efetivamente, estamos tão submersos na prática oposta àquela que se quer descrever com estas expressões que ela se torna para nós uma segunda natureza. Nós julgamos tudo segundo as aparências, num grau muito maior do que usualmente temos o discernimento de alcançar, e tudo quanto fazemos é movido pelo que ouvimos dizer. Poucos são os que se dão conta da luta que significa até mesmo principiar a agir guiados pela luz do entendimento, muito menos pela luz da revelação e da graça. Supõe-se que o entendimento seja aquilo que é capaz de penetrar na realidade por trás das aparências; mas, se a realidade é diversa do que ouvimos dizer, na maioria das vezes só este fato nos torna cegos à realidade. Não é a busca da realidade ou da verdade que dita nosso comportamento, muito menos o fundamento sobre o qual se constrói a nossa vida, e se alguém principia a agir à luz destas coisas, assim que percebe que sua conduta difere da que ouve dizer, apaga-se como que por uma condenação a própria luz que nele o guiava. Do Reino do Messias, porém, alicerçado sobre o fundamento oposto, Isaías também nos diz:

"O seu reino se estenderá cada vez mais, 
e a paz não terá fim".
Is. 9, 7

Vemos, assim, que nas profecias do Antigo Testamento está descrito o modo pelo qual se realizaria o trabalho de evangelização, que se iniciou efetivamente no dia de Pentecostes, quando Deus imprimiu sua lei nas mentes dos Apóstolos e a escreveu em seus corações, através do Espírito Santo, o qual, cumprindo a promessa de Cristo, "ensinou-lhes toda a verdade" (Jo. 16, 13). Não há no Evangelho nenhum registro de que Jesus tenha se preocupado com a organização de recursos materiais, nem com a promulgação de uma legislação explícita para dar início ao trabalho de salvação dos homens. Este se iniciou, ao contrário, conforme acabamos de ver, através do conhecimento da verdade, num grau tão alto que, antes da paixão de Cristo, no próprio dizer de Jesus, os apóstolos ainda "não o teriam sido capazes de suportar" (Jo. 16, 12).

Não é, portanto, pelo investimento econômico nem pela legislação que se alcançam os níveis de consciência do real de que depende o trabalho de evangelização. O primeiro de todos os requisitos para isto é a vocação evidente para a consciência das pequenas realidades, assim como para se buscar uma grande verdade é preciso demonstrar-se habilidoso em alcançar primeiro as pequenas verdades.

Ora, o primeiro de todos os movimentos de tomada de consciência do real por parte do homem é precisamente aquilo a que denominamos de humildade. Quem não é capaz da humildade está inteiramente fora da realidade; ainda que seja tido como homem inteligente pelos seus semelhantes, possuidor de uma extensa cultura e capaz de associar idéias com brilhantismo, não passa de um iludido que imagina ser e age como se fosse um deus.

A pedagogia vitorina, ao pretender conduzir o homem à contemplação e com ela a um plano mais elevado de consciência do real, afirma que a realização deste objetivo consiste essencialmente em ampliar, com o auxílio da graça, aquilo que já estava presente na virtude da humildade. Se o homem não estiver disposto, conseqüentemente, a abraçar primeiramente esta virtude, nada pode ser feito por ele neste sentido, pois a verdade a que se refere a humildade é a primeira e a menor de todas as verdades que se convertem com a realidade e que implica, por parte do homem, em uma queda na mesma. A humildade é, neste sentido, um grãozinho de contemplação, a menor parte psicologicamente possível daquilo que se chama de contemplação. Aquele que, persistentemente, se mostra incapaz dela, obviamente será incapaz da contemplação em toda a sua extensão.

Examinemos, pois, mediante os três sinais com que descrevemos as manifestações fundamentais da humildade, qual é o nosso grau de vivência desta virtude e qual é o nosso grau de consciência da realidade. Examinemos qual é a reverência para com o sagrado que nos move, se somos capazes de reconhecer efetivamente a existência sobre nós de algo muito maior do que nós. Examinemos se esta reverência é capaz de nos mostrar a grandeza das coisas de Deus, e o quanto temos a aprender para nos aproximarmos dEle. Examinemos também se o desejo de aprender a que esta reverência nos move é suficientemente profundo para nos mover à busca do aprendizado ainda que não se nos ofereça nenhuma oportunidade para isto. Examinemos também se este desejo de aprender é suficientemente real para nos tornar alheios às querelas humanas que envolvem a busca de uma superioridade pela posição e pelo prestígio, fazendo-nos ver que somos todos igualmente essencialmente indigentes do espírito. Examinemos também qual é o grau de reverência que temos para com nosso semelhante, se somos capazes de tratá-lo com a dignidade com que se trata a um igual, seja ele quem for. Examinemos se não apenas somos capazes de nos governar para não destratá-lo, mas se também somos capazes de ouvi-lo, como se costuma fazer quando se considera a alguém como a um igual. Se formos capazes de ouvir qualquer irmão movidos pela dignidade que reconhecemos nele, com muito mais razão seremos capazes de ouvir com atenção reverencial a Deus quando Este nos fala, pelos múltiplos canais que Ele efetivamente disseminou na natureza e entre os homens para deles se poder fazer ouvir. Jamais caia em nosso esquecimento a radicalidade com que Jesus exige o respeito ao nosso próximo e, se não observamos em nós a habitualidade deste respeito, não procuremos apenas controlar as manifestações destes nossos maus impulsos, mas sobretudo procuremos renunciar ao pedestal imaginário sobre o qual nos colocamos e que nos move a tal atitude:

"Pensam erroneamente",
diz João Cassiano nas Instituições dos Cenobitas,

"os que julgam que basta
moderar a ira em seus efeitos,
e que não é necessário arrancá-la
do mais íntimo do coração.

Possuídos deste mau espírito,
como poderemos ser templos do Espírito Santo?
Os antigos pais não permitiam 
que esta paixão penetrasse um só instante
em seus corações 
e observavam em toda a sua plenitude
aquela palavra do Evangelho: 

`Quem se irar contra seu irmão
será réu de julgamento'.
Mt. 5, 22
Se, pois, desejamos obter
aquela plenitude das recompensas divinas 
das quais está escrito: 

`Bem aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus',
Mt. 5, 8
é necessário extirpar a ira
não apenas de nossos atos,
mas também das mais internas raízes da alma, 
crendo firmemente que de modo algum 
nos é permitido entregar-nos a este veneno mortífero,
pelo qual perderemos a luz do discernimento,
a firmeza do reto conselho, 
a honestidade e a moderação da justiça,
a perseverança na verdadeira luz espiritual,
e a participação na vida,
pois, conforme nos diz o Evangelho, 
somente pela ira e pelo ódio
já nos são prometidos 
pelo Juiz de todas as coisas
os suplícios eternos".
Inst. Cen. L. 8

"Apressemo-nos, pois, 
em aniquilar inteiramente este animal ferocíssimo 
que é o orgulho, 
devorador de todas as virtudes. 
Estejamos certos que enquanto habitar
este vício em nosso peito
não apenas careceremos de todas as virtudes
como também,
ainda que nos pareça possuir alguma delas, 
até mesmo destas aparências seremos espoliados
por causa deste veneno. 
O edifício das virtudes não pode
de modo algum ser levantado em nossa alma
se não tivermos levantado primeiro em nosso coração
o fundamento da verdadeira humildade, 
a única coisa que, 
firmemente estabelecida, 
é capaz de sustentar
os cimos da perfeição e da caridade. 
Exibamos, assim, em primeiro lugar, 
aos nossos irmãos,
o afeto de uma verdadeira humildade 
proveniente do íntimo do coração, 
jamais consentindo em amargurá-los
ou agredí-los em nada. 
Não se pode, porém, 
conseguir isto senão através da verdadeira renúncia,
do despojamento e da nudez de nossas faculdades, 
fundamentadas no amor de Cristo.
Depois disto, entretanto, 
poderemos reter firmissimamente
esta mesma humildade também para com Deus".
Inst. Cen. L. 12, 32-33







(Fonte: cristianismo.org.br)

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Pressupostos do Aprendizado 15



- Sexta Parte -



39. Relação entre humildade e contemplação, sob o aspecto da abrangência da multiplicidade.

Examinamos a contemplação sob o aspecto da tomada de consciência que ela envolve e verificamos que a humildade já continha, essencialmente, estas mesmas características que se encontram plenamente amadurecidas na contemplação.

A contemplação, porém, pode ser examinada também sob o aspecto de abarcar uma multidão ou mesmo a totalidade das coisas conhecidas, como o faz Hugo de São Vitor no Opúsculo sobre o Modo de Aprender. Segundo este texto, a contemplação

"Se estende à compreensão de muitas 
ou também de todas as coisas, 
a qual as abarca em uma visão
plenamente manifesta,
de tal maneira
que aquilo que a meditação busca,
a contemplação possui".

Pode-se deduzir, a partir destas palavras, que a contemplação é, sob este aspecto, a operação da inteligência da qual surgem as obras de síntese tais como a Summa Theologiae de Santo Tomás de Aquino.

Pode-se mostrar, ademais, que esta outra característica da contemplação também não apenas está essencialmente contida na humildade, como também é um desenvolvimento desta última, na medida em que o homem, consciente de ser apenas uma criatura como todos os demais homens e não um deus, respeito o seu próximo não por alguma qualidade circunstancial que se lhe atribua, mas incondicionalmente, seja o seu próximo quem for ou como se lhe apresente, apenas pela própria dignidade da natureza humana que não se adquire nem se abdica por nenhuma circunstancialidade.

O respeito incondicional do homem humilde pelo seu próximo contém virtualmente as características mais amadurecidas da contemplação pela qual esta abarca simultaneamente uma totalidade de objetos cognoscíveis porque o respeito do homem humilde pelo seu semelhante não consiste no autodomínio do homem que sabe conter seus impulsos agressivos. Isto não seria uma manifestação de humildade, mas de paciência ou mansidão. Não é por ser capaz de conter os seus próprios impulsos que o homem humilde não agride o seu semelhante, mas pelo profundo respeito que ele tem pelo outro. Por causa disto, o respeito que o homem humilde demonstra pelo seu semelhante vai muito além do simples propósito de não agredí-lo, fisica ou moralmente. O respeito do homem humilde é aquele pelo qual o outro é acolhido em sua dignidade, não só no trato exterior, como principalmente pela consideração interior.

Neste sentido, o comportamento do homem humilde difere radicalmente do comportamento do homem orgulhoso. O homem orgulhoso se comporta como se a visão que ele possui do mundo fosse dotada de atributos divinos, e despreza, pelo menos no seu íntimo, todos os homens que não são capazes de perceber este fato, como se, por causa desta circunstancialidade, eles fossem dotados de uma natureza inferior. Por este motivo, quando alguém conversa com um homem orgulhoso, o homem orgulhoso, em vez de ouvir o que se lhe diz, ouve na realidade fundamentalmente o seu próprio pensamento que compara o que diz o locutor com o que pensa o ouvinte que é ele próprio, para a seguir passar a criticar ou a elogiar o locutor não absolutamente falando, mas por comparação para consigo mesmo. Seja a atitude final do orgulhoso para com o locutor uma atitude de crítica ou de elogio, em ambos os casos ele nunca ouve verdadeiramente o outro, mas apenas a si próprio. Já o homem humilde, alguém verdadeiramente consciente de não ser um deus, ou uma criatura dotada de atributos essencialmente supra humanos, ouve sempre com atenção qualquer outro ser humano que se lhe dirija a palavra, independentemente de sua aparência ou de suas credenciais, estando sempre aberto para a possibilidade de que, seja quem for que lhe dirija a palavra, poderá vir a tratar de algum assunto mais importante do que tudo quanto ele até então conhecesse. E mesmo na hipótese de que, durante a conversa, fique claro que não era este o caso, e que o locutor nada acrescente de importante para o ouvinte, ainda assim o homem humilde irá ouví-lo e procurar entendê-lo com seriedade pelo fato de que, ainda que o assunto não seja importante para o ouvinte, deverá sê-lo pelo menos para o locutor. Apenas um motivo técnico de força maior pode fazer o homem humilde deixar de ouvir e procurar entender o seu semelhante, nunca uma disposição interior de desconsideração pelo outro a quem ele respeita como um ser humano limitado tanto quanto a si próprio.

Ora, a experiência tem mostrado que esta atitude do homem humilde conduz, com o tempo e o desenvolvimento, àquela outra pela qual o homem se torna capaz de prestar uma atenção desapaixonada e imparcial a uma multidão ou mesmo a todos os aspectos de qualquer realidade que se lhe venha a propor como tema de sua consideração, ao mesmo tempo em que se torna capaz de atribuir, a todos e a cada um destes aspectos um valor, tanto quanto é humanamente possível, objetivamente considerado.

Pode-se perceber, deste modo, que a humildade assim considerada é uma das fontes principais de onde jorrou a Summa Theologiae de Santo Tomás de Aquino. Nela observa-se uma extraordinária capacidade de síntese em que o autor demonstra ter desenvolvido uma finíssima sensibilidade em não deixar escapar nenhum aspecto relevante de questões de amplíssima natureza, tratando-as a todas com equilíbrio e isenção de ânimo e discernindo corretamente as conexões existentes entre elas.

Demonstra também ter sido capaz de utilizar, para emitir o seu próprio julgamento, do mais profundo respeito pelo pensamento dos autores que anteriormente a ele haviam tratado destes mesmos assuntos; sejam eles quem sejam, cristão, judeus, muçulmanos, pagãos, herejes ou mesmo possivelmente algum ilustre desconhecido que tivesse se apresentado diante dele, pessoalmente ou através de algum escrito, declarando ter algo a manifestar-lhe sobre o tema, Santo Tomás de Aquino os consulta a todos com verdadeiro interesse não apenas para citá-los em sua obra, mas para inteirar-se efetivamente do que dizem, e os interpreta, caso raro entre os filósofos, sem distorcer-lhes o pensamento. Vemos assim que apenas a inteligência não explica a Summa Theologiae; ela é, dentre outros fatores que concorrem para explicá-la, um dos mais eloqüentes testemunhos do grau de discernimento a que é capaz de ser conduzido o homem humilde.

É ainda sob esta perspectiva que deve ser interpretado um fato bastante conhecido ocorrido ainda na adolescência de Santo Tomás de Aquino. Conta-se que certa manhã, quando era jovem estudante entre os dominicanos, os colegas de Tomás, querendo colocá-lo em ridículo pelo seu hábito de falar muito pouco que transparecia entre eles como um sinal de imbecilidade, escolheram um deles para que se aproximasse do rapaz e lhe dissesse:

"Frei Tomás,
vinde para a janela; 
vinde ver um boi voando no céu!"

Calmamente, Tomás de Aquino se aproxima da janela, olha para o céu e afirma não estar vendo nada. Seus demais colegas, que contemplas estupefatos esta cena, não conseguem logo a seguir esconder uma explosão de riso. Estava demonstrado mais do que evidentemente que Tomás era de fato o idiota que eles sempre haviam suposto. Um deles então lhe dirige a palavra e pergunta:

"Que fazes, Tomás?
Que estás a procurar?
Quando é que já se ouviu falar alguma vez 
de um boi voando no céu? 
Era apenas uma brincadeira,
mas este teu modo de proceder 
é para nós agora 
causa de preocupação.
Dize sinceramente:
o que te leva a crer
que possa haver de fato 
um boi voando no céu?".

A resposta de Tomás já evidenciava, porém, o quanto estava enganada esta primeira avaliação de seus colegas:

"Julguei",
respondeu Tomás de Aquino,

"que seria mais fácil
ver um boi voando no céu 
do que um frade mentindo".

Este episódio da vida de Santo Tomás de Aquino, narrado o mais das vezes apenas como uma anedota, se transforma, porém, diante do que estivemos expondo, em algo que se reveste de uma transcendente seriedade. Somente uma pessoa capaz de,pelo impulso interior de não desconsiderar a um irmão, chegar a admitir a possibilidade de que um boi esteja efetivamente voando a ponto de, pelo menos, a hipótese merecer uma verificação ocular, é que poderia, um dia, vir a escrever uma obra como a Summa Theologiae.

Tudo isto que foi dito da Summa Theologiae pode ser aplicado também as obras de Hugo de S. Vitor, nas quais transparece um inconfundível sentido de equilíbrio que lhe é característico e que é fruto daquela contemplação que abarca em uma só visão uma multidão de aspectos que o comum dos homens usualmente só alcança de modo fragmentário e em que a apreensão de cada fragmento freqüentemente se realiza à custa da exclusão de outros.

O mesmo pode ser dito também da Regra de São Bento, a qual, não obstante o seu muito menor tamanho, é, porém, neste mesmo aspecto, não menos admirável do que a Summa Theologiae ou a obra de Hugo de S. Vitor. Dela vamos a seguir tecer alguns comentários, de cujo exame novamente se nos revela aquela mesma capacidade de

"estender-se a uma compreensão,
que abarca em uma visão plenamente manifesta,
muitas ou mesmo todas as coisas",

que Hugo de S. Vitor atribui à contemplação e que se origina a partir da virtude da humildade como de um desenvolvimento natural. É esta qualidade que brilha também de um modo especial na Regra de São Bento, um texto que mostra um profundo conhecimento da natureza humana e da vida monástica, em que o autor demonstra, diante destas realidades, uma delicada reverência incapaz de negligenciar uma justa atenção para com nenhum de seus múltiplos aspectos, sejam os seus grandes princípios ou os seus pequeninos detalhes, e a todos sabe inserir num conjunto cuja unidade é fruto de uma sabedoria tornada realidade vivente.

Esta delicadeza, que na contemplação não despreza e não nos cega para com nenhuma parte de um universo, é essencialmente a mesma que na humildade não despreza e não nos cega o entendimento diante da realidade de nosso semelhante. E, efetivamente, são estas mesmas características que também se encontram na Regra de São Bento todas as vezes que o santo patriarca ensina aos monges como tratar aos seus semelhantes.

São Bento pede ao abade "que não faça distinção de pessoas, que uns não sejam mais amados do que outros", "que o nascido livre não seja anteposto ao originário de condição servil", porque "somos todos um em Cristo, somente num ponto por eles distinguidos, se formos melhores do que os outros nas boas obras e humildes" (2, 16-21); pede também ao abade que ao ensinar "tempere o carinho com o rigor, mostrando a severidade de um mestre e o pio afeto de um pai" (2, 24), lembrando-lhe "que coisa difícil e árdua recebeu: reger as almas e servir ao temperamento de muitos, a este com carinho, àquele, porém, com repreensões, a outro com persuasão, segundo a maneira de ser e a inteligência de cada um, de tal modo que se conforme e adapte a todos" (2, 31-32).

Quanto tiverem que ser feitas coisas importantes no mosteiro, julgue o próprio abade o que for mais útil, não porém sem "convocar antes toda a comunidade e ouvir o conselho dos irmãos". Neste conselho, porém, São Bento insiste que não sejam chamados apenas os mais importantes ou os mais sábios, mas que todos sejam efetivamente ouvidos:

"Dissemos que todos 
sejam chamados a conselho",
diz São Bento,

"porque muitas vezes
o Senhor revela ao mais moço
o que é melhor".
Regra 3, 3

A Regra insiste também que o respeito e a atenção devem ser dados não apenas aos superiores, mas particularmente aos velhos e às crianças. Na lista dos preceitos do quarto capítulo pode-se ler:

"Fugir da vanglória; 
venerar os mais velhos, 
amar os mais moços".
Regra 4, 69-71

No trigésimo sétimo capítulo lemos também:

"Ainda que a natureza humana
seja levada à misericórdia
para com estas idades,
velhos e crianças,
no entanto que a autoridade da Regra 
olhe também por elas.
Considere-se sempre a fraqueza
que lhes é própria,
e haja em relação a elas 
uma pia consideração".
Regra 37, 1-3

Mais notável ainda é a passagem em que São Bento ensina como se devem acolher os hóspedes:

"Se chegar algum monge peregrino 
de longínquas províncias",
diz São Bento,

"e quiser habitar no mosteiro como hóspede,
e mostra-se contente com o costume
que encontrou neste lugar e,
porventura, não perturba o mosteiro
com suas exigências supérfluas,
mas simplesmente está contente com o que encontra,
seja recebido por quanto tempo quiser.
Se repreende ou faz ver alguma coisa 
razoavelmente
e com a humildade da caridade,
trate o abade prudentemente deste caso,
pois talvez por causa disso
Deus o tenha enviado".
Regra 61, 1-4

Esta passagem é particularmente notável por mostrar até que ponto deve ir a humildade para embasar verdadeiramente o edifício espiritual. São Bento não se limita a dizer que se o visitante quiser habitar no mosteiro como hóspede, isto é, sem ser admitido como membro da comunidade, deve "ser recebido por quanto tempo quiser". Não contente com isto, o legislador acrescenta que, se, além disto, o hóspede passar a repreender a conduta dos monges ou lhes fizer ver que algo vai mal no mosteiro, não devem os monges se aborrecer com isto julgando que o visitante esteja abusando da hospitalidade que lhe foi oferecida intrometendo-se em assuntos que não lhe dizem respeito. Muito ao contrário, São Bento pede ao próprio abade que vá ouví-lo com atenção e que "trate prudentemente deste caso". O mais impressionante, porém, é que São Bento não pede ao abade que ele faça isto porque pode ocorrer que o hóspede esteja com a razão, mas porque, e pondere-se quanta diferença vai nisto, ele deve considerar seriamente a hipótese de que

"pode ser que por causa disto
Deus o tenha enviado".

É muito difícil julgar o que é mais extraordinário, se ouvir São Bento legislar desta maneira ou ver Santo Tomás de Aquino procurar no céu um burro voando. O que é certo, porém, é que se ambos não tivessem sido capazes destas coisas, nem teriam alcançado a vida de contemplação, nem teriam escrito a Summa Theologiae ou legislado sobre a vida monástica.







(Fonte: cristianismo.org.br)


quarta-feira, 11 de abril de 2018

Pressupostos do Aprendizado 14


- Quinta Parte -



38. Consciência e virtude.

Nos tópicos imediatamente precedentes interrompemos nossa exposição sobre a humildade e, mais precisamente, a exposição sobre a relação existente entre a humildade e a contemplação, para mostrar que a Escritura reconhece a realidade significada pelo nome de contemplação e os efeitos que dela decorrem. Vimos também que as Escrituras insistem continuamente em que os homens façam uso da mesma, e nos dizem que, através da contemplação, os homens podem verdadeiramente ouvir ao Criador.

Ouvindo a sua palavra, ademais, os homens preparam-se para acolher ao próprio Cristo, que as Escrituras afirmam ser a Palavra de Deus que se fêz homem:

"Nós vimos com os nossos olhos",
diz o Apóstolo João,

"nossas mãos apalparam 
a Palavra da Vida,
e isto vo-lo anunciamos".
I Jo. 1, 1-3

A conclusão é clara: aquele que tiver sabido inclinar o seu ouvido para acolher a palavra de Deus saberá também acolher esta mesma Palavra quando ela se manifestar como homem. "Eu sou o bom pastor", diz Jesus de si mesmo, "conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem, elas ouvem a minha voz e eu chamo cada uma pelo seu próprio nome. Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará e ele viremos e nele estabeleceremos morada" (Jo. 10/14). A conclusão novamente é do Apóstolo João:

"E nós vos anunciamos 
a vida eterna",
termina João,

"que estava com o Pai 
e apareceu em nós, 
para que estejais em comunhão conosco,
pois a nossa comunhão é com o Pai
e com seu Filho Jesus Cristo".
I Jo. 1

Antes, porém, de interrompermos a nossa exposição para tratarmos da Sagrada Escritura dissemos que a contemplação, sendo uma realidade muito rica, pode ser apreendida sob diversos aspectos.

Pode-se mostrar, porém, que seja qual for o aspecto apreendido, sob este mesmo aspecto, a humildade será a própria contemplação em embrião.

Um dos aspectos sob o qual a contemplação pode ser apreendida é o de uma operação para a qual culmina um processo de uma progressiva tomada de consciência e de queda na realidade. Tomada a contemplação sob este aspecto, a humildade é o primeiro passo necessário da longa caminhada que conduz à contemplação e que já contém, em sua essência, aquilo mesmo que estará presente mais plenamente nesta última.

Vimos também que o fim para o qual tendem todas as formas de espiritualidade é a consecução da contemplação; consideradas todas estas coisas, fica claro por que, sendo a espiritualidade vitorina um modo de ascese que se utiliza do estudo e da escola como parte integrante da vida espiritual, no Opúsculo sobre o modo de Aprender Hugo de São Vitor coloca já de partida que o primeiro requisito de que devem estar imbuídos os alunos da escola de São Vitor é a humildade ou então nenhum aprendizado será possível. Na realidade, qualquer corrente de espiritualidade terá que afirmar que a humildade é o seu ponto de partida, empregue ela ou não o estudo e a pedagogia como parte integrante de seu modo de ascese; o que o Opúsculo sobre o Modo de Aprender faz é apenas enquadrar este requisito dentro do quadro mais específico de uma escola.

Tudo isto decorre, como vimos, do fato de que a humildade é a própria contemplação em embrião. Aqueles que são humildes já possuem, em sua essência, aquela realidade que a contemplação é; só lhes falta ser alimentados e crescer à luz da graça, e este é o objetivo da vida espiritual.

Vimos também que, conforme Hugo de S. Vitor, o aprendizado e a virtude são duas vertentes simultâneas deste crescimento da humildade em direção à contemplação. Embora esta afirmação tenha, nos escritos dos vitorinos, um colorido característico inconfundível, ela é uma verdade de valor objetivo presente nos mais diversos autores da tradição cristã e da filosofia grega. Assim, conforme encontramos comentado no início do capítulo 5 da Educação segundo a Filosofia Perene, no livro VII da Política Aristóteles afirma que os fatos confirmam que a felicidade, que o filósofo afirma consistir na contemplação, encontra-se

"entre aqueles que cultivam até à excelência 
as virtudes e a inteligência 
e se moderam na aquisição
dos bens exteriores".

Cultivar até à excelência a virtude e a inteligência são, pois, para Aristóteles, os requisitos ou o caminho para se alcançar a contemplação. Expressões equivalentes podem ser encontradas nas obras de Santo Tomás de Aquino e nas de muitos outros autores.

Vimos também que, assim como Hugo de São Vitor diz no Opúsculo sobre o Modo de Aprender que a humildade é o princípio do aprendizado, no Opúsculo sobre os Frutos da Carne e do Espírito ele afirma que ela é também o princípio de todas as virtudes. A humildade, pois, é o princípio tanto do aprendizado como das virtudes, as duas vertentes simultâneas de seu crescimento em direção à contemplação.

Destas afirmações decorre que, se a contemplação é uma tomada de consciência em grau elevadíssimo, um cair na realidade levado à sua totalidade, uma operação da inteligência para a qual convergem todas as demais operações da alma e na qual todas as suas faculdades se integram à apreensão da inteligência, as virtudes deverão, assim como a humildade, possuir também estas mesmas características de um modo parcial. Elas deverão possuir, de um modo imperfeito, aquilo que a contemplação possui de um modo perfeito.

Não é difícil mostrar que efetivamente é isto o que ocorre. Examinando-se debaixo do aspecto da consciência, que na contemplação é total ou pelo menos tende para a totalidade, verifica-se que as virtudes estão relacionadas com um aspecto parcial da consciência à qual denominamos de consciência moral. As virtudes não são a consciência moral, mas têm uma relação intrínseca para com ela; não se pode conceber o desenvolvimento da virtude sem um progressivo desenvolvimento da consciência moral. A consciência moral, por sua vez, é um aspecto parcial daquela mais ampla consciência que é a verdade prometida por Jesus que trará a liberdade aos homens, verdade que é objeto da contemplação.

É muito freqüente, porém, no modo usual de falar dos homens, esquecer ou mesmo ignorar que a consciência é muito mais do que a consciência moral e chamar-se a consciência moral simplesmente de a consciência. A maioria das pessoas faz isto a maior parte do tempo ou mesmo todo o tempo, e isto não é nelas um êrro de apreciação, mas, ainda que estas mesmas pessoas não o saibam, provém de uma consideração objetiva da realidade. Segundo o modo mais comum de falar, chama-se usualmente a consciência moral simplesmente de consciência porque, devido a uma especial particularidade da psicologia humana, a consciência moral é um aspecto da consciência que possui uma importância tão grande para o homem que merece, com razão, de poder ser chamada simplesmente de a consciência. Ela é, normalmente, o aspecto mais sadio e menos adormecido no homem daquilo que se deveria chamar simplesmente de consciência.

A psicologia humana trabalha de um modo que pode compreender este aspecto da consciência a que chamamos de consciência moral mais facilmente e mais rapidamente do que praticamente todos os demais. Para o homem cair na real em relação a uma questão que envolva moral não é, muitas vezes, necessária uma aula de filosofia nem o uso da contemplação. Às vezes é suficiente uma repreensão sem qualquer fundamentação metafísica; freqüentemente nem as palavras se fazem necessárias, basta uma surra ou uma lágrima. Outras vezes nem mesmo isto será necessário; um fenômeno chamado de remorso perseguirá o indivíduo mesmo contra todas as suas idéias preconcebidas e contra todo o seu entendimento, até que ele se veja obrigado a cair na real. Fenômenos como estes, que denotam uma predisposição singularíssima para se cair na realidade, só ocorrem com esta facilidade naquele aspecto da consciência a que chamamos de consciência moral. Para ocorrerem nos demais setores da consciência são necessárias a oração e o estudo profundo, e muitas vezes serão possíveis apenas e tão somente pela contemplação. Mas, por algum mistério da natureza, no que diz respeito às questões morais, a maioria dos homens tem uma propensão, uma inclinação particularíssima toda especial para caírem na real.

Ocorre, porém, que a psicologia humana é uma só e um todo interligado. Por este motivo uma forte e contínua tomada de consciência no aspecto moral, principalmente se se dá de um modo metódico e na totalidade da área abarcada pela matéria moral, acabará por produzir um fortíssimo impulso para a elevação da consciência no seu sentido mais amplo. É assim, por exemplo, que vemos o testemunho do abade Teodoro, narrado nas Instituições de João Cassiano:

"Alguns irmãos",
diz Cassiano,

"manifestavam a sua admiração
ao abade Teodoro 
por tanta ciência e tantas luzes, 
e o interrogavam sobre o sentido
de certas passagens da Escritura. 
Disse-lhes então o santo abade: 

`O monge que deseja penetrar 
no sentido das Escrituras
não deve se fatigar, 
lendo os comentadores. 
Deve antes dirigir toda a sua solicitude 
em aplicar com amor o espírito e o coração 
no cuidado de se purificar dos vícios carnais. 
Logo que os suprimimos, 
o véu das paixões é retirado 
dos olhos de nosso coração 
e podemos então contemplar 
como que naturalmente
os mistérios das Escrituras. 
Pois a graça do Espírito Santo não as inspirou 
para que permanecessem obscuras e incompreensíveis a nós. 
Somos nós que as tornamos obscuras por nossa culpa,
quando o véu dos nossos pecados
forma como que uma nuvem 
diante do olhar do nosso coração. 
Uma vez sanada a nossa vista,
a leitura das Escrituras é suficiente,
em abundância,
para que se contemple a verdadeira ciência, 
sem a ajuda dos comentadores. 
É o que acontece 
com os olhos do nosso corpo. 
Não é necessário ensinar-lhes a ver, 
se não sofrerem de catarata ou de cegueira'".
Instituições 5, 34

Quando as Escrituras nos preceituam, portanto, a observância de determinadas leis morais, e não apenas as preceituam como também nos chamam a atenção e nos repreeendem se não as observamos, e se dirigem a nós com palavras mais insistentes se continuamos a nos julgar no direito de escolher o não obedecê-las, não estão fazendo isto por um desejo mórbido de despertar e nós a dor do remorso ou o desconforto do sentimento de culpa. Ao contrário, elas conhecem a nossa natureza e estão nos prestando um inestimável favor; querem elas nos elevar para um plano de superior de existência, a plenitude da filiação divina onde é possível a contemplação, e sabem elas que se não cairmos na real primeiramente no que diz respeito à vida das virtudes não cairemos nela por nenhum outro caminho.

Disto provém em grande parte a importância que a ascese cristã atribui à prática regular da confissão. À parte o fato de que a confissão seja um sacramento e, por este motivo, conferir efetivamente a graça e o perdão dos pecados a quem a recebe dignamente, um de seus principais efeitos, que se verificaria em boa medida também na hipótese de que não se tratasse de um Sacramento, consiste precisamente na queda na realidade experimentada de modo quase imediato por todos aqueles que se aproximam regular e corretamente da mesma. Neste sentido, a confissão não é uma terapia para sentimentos de culpa, mas um processo de elevação da consciência. A pessoa que se confessa deve declarar todos os pecados graves cometidos, tenha ou não em relação a eles sentimentos de culpa que o angustiem, e a gravidade destes pecados deve ser avaliada pelo penitente não segundo a impressão subjetiva que eles lhe causam, mas pelos critérios da moral cristã que são em si mesmos objetivos e independentes da pessoa do penitente, embora levem em conta suas circunstâncias pessoais.

Ademais, a confissão só poderá ser válida se o penitente puder sinceramente declarar-se arrependido de todos os pecados cometidos de que se acusa; se os declarar a todos, sem exagerá-los nem diminuí-los, objetivamente em número e espécie, e de viva voz ao sacerdote que ouve a confissão; e se puder fazer o propósito de não voltar a cometê-los. Assim, na medida em que a confissão implica em um crescimento da tomada de consciência da realidade, ela está estreitamente relacionada com o desenvolvimento da virtude, da qual se torna um fortíssimo motor, e a qual supõe sempre uma elevação da consciência moral. Na medida em que, como Sacramento, a confissão confere a graça, ela está também intimamente relacionada com a vida das virtudes, pois no homem uma prática integral das mesmas é impossível sem o auxílio da graça.

Mesmo assim, porém, anteriormente ao benefício que a confissão pode trazer ao homem sob o aspecto da elevação do grau de consciência da realidade, benefício que a prática das virtudes também realiza e com a qual a confissão está relacionada, anteriormente a tudo isto está situada a virtude da humildade, que é, conforme vimos, a primeira raíz de todas as demais virtudes. Sem ela não há aprendizado possível, nem virtude possível, pela mesma razão pela qual para uma gravidez seguir adiante é preciso primeiro haver a fecundação.




(Fonte: cristianismo.org.br)

terça-feira, 10 de abril de 2018

Pressupostos do Aprendizado 13


- Quarta Parte -



37. A contemplação nas Sagradas Escrituras.

Acabamos de afirmar que existe uma operação da inteligência, à qual chamamos de contemplação, que produz efeitos visíveis no homem, transformando aquele que se familiariza com ela num exemplo vivo de sabedoria, efeito que se torna perceptível aos demais homens, parecendo-lhes como se se houvesse personificado uma sabedoria superior. Na medida em que, o mais das vezes, esta operação não se alcança sem o auxílio da graça, e sua manifestação mais plena não se alcança nunca sem a graça, estes são aqueles dos quais Jesus afirma que

"serão chamados filhos de Deus",
Mt. 5, 9

dos quais Santo Tomás de Aquino também diz que

"participam da semelhança
do Filho de Deus unigênito, 
os quais Deus na sua presciência 
predestinou para serem conformes 
à imagem de seu Filho (Rom. 8, 29),
o qual é a Sabedoria gerada".
Summa Theologiae
IIa IIae, Q. a.

A Sagrada Escritura atesta a existência de uma operação da inteligência capaz de produzir tais efeitos no homem. Às vezes não nos damos conta deste fato porque no mundo latino esta realidade veio a ser conhecida pelo nome de contemplação, um termo que reflete uma concepção derivada da tradição grega pela qual tenta-se descrever esta operação da alma por meio de uma analogia com a faculdade da visão:

"Por ela chegamos 
às próprias fronteiras do inteligível",
diz o filósofo grego Platão;

"embora sendo unicamente do intelecto, 
é imitada pela faculdade da vista 
ao procurar contemplar os animais, 
as estrelas e o próprio Sol".
República, L. VII

Por causa de nos termos acostumado a este nome sem nem sempre conhecer bem a realidade à qual ele se refere, não nos damos conta do número imenso de vezes em que as Escrituras nos descrevem esta mesma realidade por meio de uma analogia com a faculdade do ouvir.

De fato, é muito freqüente no Velho Testamento que as exortações de Moisés e os oráculos dos profetas se iniciem com um pedido para que os homens as ouçam. Uma leitura menos atenta dará a impressão que com estas palavras os profetas estão apenas fazendo uma chamada para reunir o povo, nada que em si pudesse ter um valor maior do que uma interjeição mais elaborada. Outras vezes parecerá que o pedido de que os homens ouçam estas exortações significa uma maneira mais delicada de dizer que as obedeçam; segundo esta interpretação, ao pedir aos homens que as ouvissem, os profetas queriam dizer que as obedecessem, só indiretamente estando eles interessados em que fossem ouvidas, na medida em que para obedecê-las os homens deveriam primeiro tomar conhecimento dos seus conteúdos. Efetivamente, em algumas passagens esta é a interpretação correta, mas em uma grande multidão de outras a extrema freqüência com que aparecem estas expressões, como se estivessem querendo chamar a nossa atenção também para o próprio ato do ouvir, e o contexto em que são usadas, nos mostram que estes pedidos para que ouçamos, mais do que simples interjeições ou expressões sinônimas para significarem a obediência, designam, na realidade, um verdadeiro chamado à contemplação descrita por analogia com o ouvir e tendo o ouvir como seu ponto de partida.

Vejamos alguns exemplos destas expressões:

"Se ouvirdes atentamente a minha voz,
e guardardes a minha aliança, 
diz o Senhor,
constituireis para mim um reino de sacerdotes, 
e uma nação santa".
Ex. 19, 5-6

"Ouvi a palavra do Senhor,
ó príncipes; 
escuta a lei de nosso Deus,
ó povo".
Is. 1, 10

"Aplicai os ouvidos, 
diz o Senhor, 
e ouvi a minha voz; 
atendei e ouvi as minhas palavras".
Is. 28, 23

"Eis que (naquele dia)
um rei, (isto é, o Messias), 
reinará com justiça, 
e os seus príncipes governarão com retidão. 
Não se ofuscarão os olhos dos que vêem,
e os ouvidos dos que ouvem 
escutarão atentamente".
Is. 32, 1-3

"Vinde cá, ó nação, e ouvi;
povos, estai atentos;
ouça a terra, e o que ela contém;
o mundo, e tudo o que ele produz".
Is. 34, 1

"Farei vir sobre este povo
o que eles temiam,
diz o Senhor,
porque eu chamei, 
e não houve quem me respondesse; 
falei, e não me deram ouvidos, 
e fizeram o mal diante de meus olhos, 
e escolheram o que eu não queria".
Is. 66, 4

"A quem falarei eu?",
diz Jeremias.

"A quem conjurarei que me ouça?
Os seus ouvidos estão incircuncidados, 
e não podem ouvir;
a palavra do Senhor tornou-se para eles
um motivos opróbrio, 
e não a receberão".
Jer. 6, 10

"Isto diz o Senhor: 
o dia em que eu tirei os vossos pais
da terra do Egito, 
não lhes mandei coisa alguma
acerca dos holocaustos.
Eis o que eu lhes mandei: 
ouvi a minha voz,
e eu serei vosso Deus, 
e vós sereis meu povo, 
e andai por todo o caminho
que vos prescrevi,
para serdes felizes. 
E não me ouviram, 
nem prestaram atenção,
mas foram atrás de seus apetites 
e a depravação de seu malvado coração. 
E eu vos enviei todos os meus servos e os profetas, 
cada dia me apressava a enviá-los;
e não me ouviram, 
nem prestaram atenção, 
mas endureceram a sua cerviz, 
e obraram pior do que os seus pais. 
E tu também, Jeremias, 
lhes dirás todas estas palavras,
e não te ouvirão; 
e chama-los-ás, 
e não te responderão".
Jer. 7, 22-27

"Ouvi a minha voz, 
e fazei todas as coisas que eu vos mando,
e sereis o meu povo,
e eu serei o vosso Deus, 
para que eu renove o juramento
que fiz a vossos pai 
de lhes dar uma terra
que manasse leite e mel.
Ouvi as palavras desta aliança e observai-as,
porque eu conjurei com instância os vossos pais 
desde o dia em que os tirei da terra do Egito 
até hoje,
admoestando-os, 
e dizendo-lhes continuamente:
ouvi a minha voz.
E não ouviram, 
nem prestaram ouvidos, 
mas cada um seguiu a depravação
de seu coração maligno".
Jer. 11, 4-8

Nestas exortações podemos entrever que o ouvir de que falam os profetas é uma atividade do espírito à qual o homem deveria-se dedicar constantemente para que, deste modo, desviasse o pêndulo que inclina a sua atenção para a "depravação de seu maligno coração", isto é, a atividade de sua imaginação movida pelos vícios e pelas paixões dos sentidos, para uma outra região da alma, de onde pode-se ouvir a palavra de Deus. De fato, pergunta Jeremias:

"Quem considerou 
a palavra do Senhor 
e a ouviu?"
Jer. 23, 18

Se o tivessem feito, responde o profeta, Deus

"certamente os teria desviado
de seu mau caminho 
e de seus tão depravados pensamentos".
Jer. 23, 22

Porém, continua Jeremias,

"Este povo é um povo perversíssimo, 
porque não quer ouvir as palavras do Senhor; 
em vez disso anda",

(ou poderia dizer "ouve",
ou ainda,
"está constantemente com a atenção 
voltada para a")

"maldade do seu coração".
Jer. 13, 10

Deus quer, portanto, através destas exortações, acostumar-nos a ouvir a sua palavra para com isto desacostumar-nos a ouvir nossos próprios pensamentos, que não são, na maior parte das vezes, verdadeiros pensamentos, isto é, expressões da faculdade da inteligência que se caracteriza pela apreensão da verdade, mas simples movimentos da imaginação, prolongamentos muito pouco conscientes da atividade dos cinco sentidos, impulsionados sem cessar pelas paixões sensíveis. É isto o que Deus nos quer também ensinar, quando, através de Isaías, assim nos exorta:

"Deixe o homem iníquo
os seus pensamentos,
e volte-se para o Senhor, 
(inclinando o seu ouvido),
o qual terá piedade dele, 
porque os meus pensamentos
não são os vossos pensamentos,
diz o Senhor.
Tanto quanto os céus estão elevados
acima da terra,
assim se acham elevados 
os meus pensamentos
acima dos vossos pensamentos,
diz o Senhor".
Is. 55, 7-9

Conforme veremos melhor mais adiante, Isaías está exortando os homens para que abandonem os seus pensamentos através do "voltar-se para o Senhor", o que, no contexto deste capítulo 55, significa "inclinando-lhe os ouvidos" (Is. 55, 3).

O Deuteronômio parece, em certas passagens, utilizar- se de expressões diversas para designar estas mesmas realidades. A atividade que Isaías descreve no capítulo 55 de sua profecia pelo "inclinar dos ouvidos" parece às vezes descrita por Moisés no Deuteronômio pelo termo "meditação", a mesma expressão que Hugo de São Vitor utiliza para designar a atividade que precede a contemplação.

Conforme veremos, porém, a meditação de que fala o Deuteronômio não é a mesma realidade que os profetas muitas vezes expressam pelo "inclinar dos ouvidos"; o contexto do Velho Testamento é tal que subentende-se que o meditar do Deuteronômio é um meditar que conduz espontaneamente a um ouvir. A passagem mais conhecida onde ocorre esta expressão é aquela onde se preceitua o mandamento do amor a Deus:

"Ouve, Israel",
diz Moisés ao povo judeu,

"estas palavras que eu hoje vos intimo 
estarão gravadas no teu coração. 
Tu as ensinarás aos teus filhos, 
e as meditarás sentado em tua casa, 
e andando pelo caminho, 
e estando no leito 
e ao levantar-te".
Deut. 6, 6-7

Encontramos no Salmo 118 a voz de alguém que cumpria com esta exortação de Moisés:

"Quanto eu amo a vossa lei, 
Senhor. 
Ela é objeto de minhas meditações 
o dia todo. 
Mais sábio do que os meus inimigos 
me tornou o teu mandamento, 
porque ele está sempre comigo. 
Sou mais prudente 
do que todos os meus mestres, 
porque os teus mandamentos 
são a minha meditação. 
Quão doces são as tuas palavras 
ao meu paladar! 
São mais doces do que o mel
à minha boca".
Salmo 118, 97-9/103

Ora, esta atitude preceituada por Moisés e descrita pelo salmista conduz à contemplação de que falam os profetas. Ela nos é descrita, por exemplo, quando Isaías faz uma profecia a respeito do Messias que haveria de vir, dizendo que ele teria uma língua erudita para ensinar porque todas as manhãs ouviria o Senhor como a um mestre:

"O Senhor me deu 
uma língua erudita",
diz o futuro Messias por meio de Isaías,

"para eu saber sustentar com a palavra
o que está cansado. 
Ele me chama pela manhã, 
pela manhã chama aos meus ouvidos 
para que eu o ouça como a um mestre.
O Senhor Deus abriu-me o ouvido,
e eu não o contradigo; 
não me retirei para trás".
Is. 50, 4-5

Esta mesma atitude que haveria de ser encontrada em toda a sua perfeição no Messias é encontrada também no profeta Jeremias, que diz aí ter encontrado o seu alimento, e apresenta este fato diante de Deus como prova de seu amor para com Ele:

"Tu sabes tudo, Senhor",
diz Jeremias dirigindo-se a Deus,

"lembra-te de mim e visita-me,
e defende-me dos que me perseguem, 
pois é por amor de ti
que tenho sofrido afrontas. 
Achei a tua palavra, 
e alimentei-me com ela; 
e a tua palavra foi para mim 
o prazer e a alegria do meu coração".
Jer. 15, 15-16

Neste mesmo sentido, depois de quarenta dias de jejum, quando foi tentado pelo demônio no deserto para que transformasse algumas pedras em pão, Jesus respondeu-lhe dizendo que não precisava disto, pois seu alimento consistia em bem outra coisa. Citando Moisés, e à semelhança de Jeremias, Jesus responde ao demônio dizendo:

"Não só de pão vive o homem,
mas de toda a palavra 
que sai da boca de Deus".
Mt. 4, 4

Com isto cumpria-se a profecia de Is. 50. Porém, é igualmente de grande interesse saber a respeito da proveniência desta citação que Jesus faz de Moisés. Ela está em Deuteronômio 8, onde Moisés pede ao povo judeu que não se esqueça de que Deus havia libertado o povo do Egito, símbolo da escravidão, por conseqüência símbolo dos vícios e do pecado, para passar quarenta anos no deserto antes de entrar na terra prometida, alimentando-se durante estes longos anos unicamente do maná que descia diariamente do céu,

"para te mostrar",
diz Moisés,

"que o homem não vive só de pão,
mas de toda a palavra que sai
da boca de Deus".
Deut. 8, 3

O maná com que Deus alimentava os judeus no deserto antes de entrarem na terra prometida era, deste modo, uma figura da própria palavra de Deus, com que o Senhor quer que nos alimentemos. O deserto é, por sua vez, a figura do silêncio interior com que Deus quer que deixemos de escutar e inclinar nossa atenção aos nossos próprios pensamentos e às paixões da nossa alma, para poder passar a nos alimentar de sua palavra, conforme nos diz o Eclesiastes:

"As palavras dos sábios
são ouvidas em silêncio, 
mais do que o clamor do príncipe
entre os insensatos".
Ec. 9, 17

Esta é, por sua vez, a mesma atitude que Jesus elogiou em Maria, irmã de Marta, a qual, sentada aos pés de Jesus, ouvia-lhe as suas palavras. É de se notar nesta passagem que, ao contrário do que muitos supõem por inadvertência, o Evangelho não diz que Maria estava rezando aos pés de Jesus, mas apenas que o ouvia. No entanto, mesmo assim, Jesus a elogia e diz dela que

"uma só coisa é necessária,
e Maria escolheu a melhor parte,
que não lhe será tirada".
Lc. 10, 41-2

Ao elogiar Maria dizendo que ela havia escolhido a melhor parte, Jesus reconhece e elogia em Maria aquilo mesmo que o profeta Isaías havia visto realizar-se no próprio Jesus, quando diz que toda manhã Ele "ouviria o Senhor como a um mestre". Como se estivesse entrevendo as muitas Marias que haveria na história, Isaías também se pergunta, logo a seguir:

"E qual de vós teme o Senhor,
qual de vós ouve a voz do seu Servo?"
Is. 50, 10

Vemos assim que Jesus e Jeremias dizem de si mesmos que se alimentavam da palavra de Deus. A mesma coisa também o diz Isaías, convidando a todos os homens a que façam o mesmo, isto é, que abandonem os seus próprios pensamentos, inclinem o seu ouvido e se alimentem da palavra de Deus, a qual ele compara com um manjar substancioso. Pode-se notar, no capítulo 55 de sua profecia, que ao chamar os homens, ele os está exortando fundamentalmente ao ouvir a Deus com atenção:

"Todos vós que tendes sede",
diz o Senhor por meio de Isaías,

"vinde às águas;
e os que não tendes dinheiro,
apressai-vos,
comprai e comei;
vinde,
comprai sem dinheiro
e sem nenhuma troca,
vinho e leite. 
Por que motivo empregais o dinheiro 
em coisas que não são alimento,
e o vosso trabalho 
no que não pode saciar-vos?
Ouvi-me com atenção,
e comei do bom alimento,
e a vossa alma se deleitará 
com manjares substanciosos.
Inclinai o vosso ouvido 
e vinde a mim; 
ouvi,
e a vossa alma viverá,
e farei convosco um pacto eterno,
concedendo-vos as misericórdias
que prometi a Davi".
Is. 55, 1-3

Nesta passagem Isaías nos indica o modo pelo qual é possível ao homem abandonar seus próprios pensamentos, que não são pensamentos. O homem pode fazer isto passando a uma forma de pensamento mais elevada, à qual Isaías chama de "inclinar o ouvido". Inclinando o ouvido, Isaías pede ao homem que abandone seus próprios pensamentos e se volte para o Senhor.

Vemos esta mesma doutrina ser ensinada pelo próprio Deus ao profeta Jeremias quando este pediu que o Senhor se lembrasse dele, pois o profeta havia achado sua palavra e se alimentado com ela. Deus então lhe responde:

"Se te converteres,
eu te converterei,
e estarás diante de minha face.
Se afastares o precioso do vil,
serás como a minha boca,
e voltar-se-ão eles para ti
e não tu para eles".
Jer. 15, 19

"Se te converteres", ou "se te voltares para Deus", significa aqui o mesmo que o "inclinar o ouvido" do profeta Isaías ou o "alimentar-se da palavra de Deus" de que havia acabado de falar Jeremias; esta atitude é já uma predisposição para que Deus nos dê a sua graça, designada pela expressão "e eu te converterei", a qual, com a perseverança, acaba produzindo a presença de Deus ("estarás diante de minha face"). Isto se inicia, diz o Senhor a Jeremias, quando pelo esforço do homem, não sem o auxílio da graça, este "afasta o precioso do vil", isto é, volta a sua atenção para a escuta da palavra de Deus, que é o precioso, e abandona a atenção aos seus próprios pensamentos, que é o vil.

Qual é, porém, o efeito que isto causa na alma do homem? São os mesmos, afirma Isaías, que os que anteriormente afirmamos serem produzidos pela contemplação. Diz, efetivamente, a continuação da profecia contida em Is. 55:

"Porque assim como desce do céu
a chuva e a neve, 
e não voltam mais para lá,
mas embebem a terra,
e fecundam a terra,
e fecundam-na e fazem-na germinar,
a fim de que dê semente ao que semeia
e pão ao que come, 
assim será a minha palavra 
que sair da minha boca,
diz o Senhor; 
não tornará para mim vazia, 
mas fará tudo o que eu quero,
e produzirá os efeitos para os quais a enviei".
Is. 55, 10-11

A mesma coisa o afirma Jeremias, quando, através dele, Deus mostra um critério para distinguir a verdadeira palavra de Deus:

"Se um profeta disser
que tem a minha palavra",
diz o Senhor por meio de Jeremias,

"anuncie a minha palavra 
com toda a verdade",
(e veremos a diferença entre ela
e uma palavra qualquer).

"Que diferença há
entre a palha e o trigo?, diz o Senhor.
Não são as minhas palavras como um fogo, 
diz o Senhor,
e como um martelo que quebra a pedra?" 

"Qual, porém, destes profetas, 
assistiu verdadeiramente
ao conselho do Senhor, 
viu e ouviu a sua palavra? 
Quem considerou a sua palavra
e a ouviu? 
Se tivessem assistido ao meu conselho
eu os teria certamente desviado 
do seu mau caminho 
e dos seus tão depravados pensamentos".
Jer. 23, 28-29/18/22

A mesma coisas também o ensina o Eclesiastes, ao dizer que as palavras dos sábios provém na verdade de um único pastor que é Deus, que elas produzem um efeito na alma diverso do que as palavras contidas em todos os outros livros e que é a estas que devemos prestar atenção:

"As palavras dos sábios",
diz o Eclesiastes,

"são como aguilhões, 
e como pregos afixados no alto, 
que por meio do conselho dos mestres
nos foram comunicadas 
por um único Pastor. 
Não busques, pois, 
meu filho, 
mais coisa alguma além destas. 
Não se põe termo
em multiplicar os livros, 
e a meditação freqüente
é a aflição da carne".
Ec. 12, 11-12

Note-se que estas palavras aparecem no Eclesiastes pouco depois dele ter afirmado, conforme vimos, que as mesmas palavras dos sábios devem ser ouvidas em silêncio, isto é, no silêncio produzido pela contemplação, em que aprendemos, pela escuta da palavra de Deus, a não mais dar ouvidos às nossas paixões e aos pensamentos que delas derivam.

Todas estas passagens mostram que pertence aos ensinamentos das Sagradas Escrituras a afirmação de que existe uma operação da alma, relacionada com o ouvir a palavra de Deus, que é autêntico alimento para a alma e que produz notáveis efeitos de transformação na mesma.

Esta operação da alma, dizem as Escrituras, floresceria entre os homens com o advento do messias, cuja obra foi prefigurada no retorno dos exilados judeus, espalhados por todas as nações da terra, assim como hoje os homens estão espalhados por todas as paixões da carne, à terra santa de Israel, com a conseqüente reconstrução de Jerusalém. "Naquele tempo reunir-se-ão todas as nações em Jerusalém em nome do Senhor, e não andarão mais após a maldade de seu péssimo coração", diz Jeremias, atribuindo a esta época um efeito que em todo o seu livro ele atribui claramente à contemplação entendida sob as expressões da escuta da palavra de Deus (Jer. 3, 17). É o mesmo que afirma Isaías ter ouvido Deus pedir-lhe, quando lhe ordenou que preparasse o retorno dos exilados:

"Ouvi uma voz que me dizia",
diz Isaías,

"`Clama'. 
E eu disse:
`Que hei de clamar?'
`Clama que toda a carne é feno,
e que toda a sua glória é como a flor do campo.
Secou-se o feno,
e caíu a flor,
mas a palavra de nosso Senhor 
permanece para sempre'".
Is. 40, 6-8

Que significa Isaías ser chamado a preparar a vinda do messias clamando ao povo que tudo passa, que as coisas do mundo secam como o feno e caem como a flor e só a palavra de Deus permanece? Não há dúvida que é o mesmo que Jesus ensinaria pessoalmente, ao dizer a Maria que somente havia uma única coisa necessária, que nunca lhe seria tirada. Seus frutos não secam como o feno, nem caem como a flor do campo, mas permanecem para sempre.

"Sentada aos pés do Senhor 
com os ouvidos atentos",
diz Hugo de S. Vitor,

"Maria nos oferece um exemplo muitíssimo evidente
da virtude da contemplação.
Em sua sede pelas palavras que lhe dizia,
o próprio Senhor foi testemunha 
de haver escolhido a melhor parte,
exemplo louvável e admirável
que observamos em muitos outros que, 
com este mesmo empenho,
com o auxílio da graça de Cristo, 
abandonaram uma vida de depravação 
e alcançaram tanta bondade na virtude 
e tão grande honestidade nos costumes
que em sua luz podemos conhecer mais claramente 
ter sido realizado o que estava escrito no Salmo: 

`Enviou o Senhor a sua palavra,
e os curou,
e os livrou da ruína'.
Salmo 106, 20"
Sermones Centum,
Prólogo






(Fonte: cristianismo.org.br)

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Pressupostos do Aprendizado 12


35. Contemplação e realidade.

Vamos mostrar, a seguir, como sem a humildade a contemplação se torna impossível, não por se tornar coisa muito difícil, mas porque a ausência da humildade exclui intrinsecamente a possibilidade da contemplação.

Já explicamos o que é a contemplação, apresentando-as de modos aparentemente bastante diversos. Dissemos que a contemplação é a adoração a Deus em espírito e verdade de que fala João 4; que é um exercício intenso e simultâneo das virtudes da fé, esperança e caridade; que é uma operação do intelecto que abarca de um modo simultâneo a totalidade dos objetos já apreendidos pelas primeiras operações da inteligência e reelaborados pela reflexão. Dissemos também que trata-se de uma realidade tão rica que sempre que alguém se aproxima dela, ainda que pareça que tudo tenha sido dito, este alguém nos trará sobre ela algo novo, com toda a aparência de algo inédito a seu respeito.

Temos disto um exemplo na biografia de São João da Cruz escrita pelo Pe. Crisógono, que tem como um de seus principais méritos a extrema fidelidade com que segue os documentos originais sobre os quais se baseia. Lemos nesta obra que entre 1579 e 1582 São João da Cruz foi reitor do Colégio São Basílio em Baeza, onde residiam os estudantes que cursavam Teologia na Universidade local. O Colégio recebia freqüentemente visitas de outros alunos e de catedráticos da Universidade que vinham consultar o santo reitor. A estes visitantes, dizem os documentos de que se utiliza o Pe. Crisógono,

"Frei João lhes expunha a Escritura, 
falava-lhes de Teologia e dos mistérios da fé. 
Aconteceu muitas vezes
que um doutor que há muitos anos
regia uma cátedra de Teologia Positiva
vinha consultá-lo sobre algumas passagens da Escritura
e retornava muitíssimo satisfeito. 
Não obstante seu vasto conhecimento
das obras de Santo Agostinho
e de São João Crisóstomo, 
parecia-lhe que as explicações de frei João 
eram explicações novas,
ensinamentos do Espírito Santo".
Pe. Crisógono
Vida de S. João da Cruz
Cap. 11, n. 38

Esta passagem da biografia de São João da Cruz é a realização daquele dito de Jesus, o qual, após narrar algumas parábolas aos judeus, afirmou que

"Todo escriba instruído no Reino dos Céus
é semelhante a um pai de família, 
que tira de seu tesouro coisas novas e velhas".
Mt. 13, 52

O Reino dos Céus é a plenitude da graça do Espírito Santo, que é o que produz a contemplação; os instruídos no Reino dos Céus são todos aqueles que nela produziram raízes e perseveraram com firmeza. São estes, como São João da Cruz, que do seu tesouro, "ali onde está o seu coração", conforme também o afirma Jesus (Mt. 6, 21), tiram coisas novas e velhas.

Podemos, entendendo este caráter tão rico da contemplação, explicar sua relação com a humildade se a apresentarmos de um novo modo, dizendo que ela é aquilo mesmo a que nos referimos anteriormente ao definirmos a humildade. Dissemos que a humildade é o ter consciência de ser apenas uma criatura, um ser humano, e não um deus ou um ser dotado de atributos divinos. Neste sentido podemos dizer que estas palavras também determinam a contemplação; a contemplação é

"ter consciência",

num sentido mais amplo, mas essencialmente idêntico àquele em que a humildade também o é.

Que significa, porém, ter consciência? Segundo o modo corrente de falar das pessoas, ter consciência de algo ou ter consciência das coisas significa o mesmo que aquilo que se quer dizer com a expressão

"cair na realidade".

Ter consciência ou estar consciente significa o mesmo, na linguagem corrente das pessoas, que "cair na real". Subentende- se que aqueles que se utilizam desta expressão queiram com ela significar que, antes do homem ter consciência ou estar consciente, ele não tinha caído na real, isto é, vivia no mundo da sua própria imaginação, inconsciente da distância que separava a sua imaginação que ele dava por suposto como idêntica à realidade, e a própria realidade. A contemplação, entendida neste sentido, implicaria no máximo desenvolvimento possível ao homem desta qualidade de deslocar-se do mundo ilusório de sua imaginação e dar-se conta da realidade, ou seja, cair na real.

Esta concepção de contemplação admite como pressuposto que os homens costumem viver com a atenção voltada habitualmente para as suas próprias fantasias, não obstante a realidade do mundo que os cerca, inclusive as suas próprias realidades humanas não construídas pela fantasia, serem objetivamente muito mais ricas e deverem chamar muito mais a atenção do homem do que as construções de sua imaginação. Só com muito esforço, esforço que já pressupõe um razoável grau de consciência deste fato e da alienação que ele implica, é que os homens, pouco a pouco, começam a desprender a habitualidade de sua atenção de um imaginário construído em sua maior parte pelo estímulo de paixões cultivadas sem vínculo com a razão e passam a dar cada vez maior atenção ao próprio real. A isto chama-se cair na real, e o processo pelo qual se faz isto chama-se contemplação.

O fato de explicarmos a contemplação deste modo pode causar surpresa a não poucas pessoas, que imaginam a contemplação, mesmo que a admirem, como um processo de alienação do real. Para confirmar esta teoria eles podem nos citar, por exemplo, a Regra de São Bento, que prescreve aos monges, como um de seus preceitos,

"fazer-se alheio
às coisas do mundo".

Ora, não é a contemplação o fim da Regra de São Bento, como é o fim de toda a autêntica espiritualidade? No entanto ela nos prescreve como um dos meios para se fazer isto exatamente o alheamento das coisas do mundo. Portanto, a contemplação parece supor não uma queda na realidade, mas uma alienação dela. É assim que raciocinam muitas pessoas, ainda que não o queiram admitir. Quem o faz, porém, não percebe que São Bento está falando do mundo não enquanto realidade ontológica, mas enquanto objeto das paixões humanas e que, na realidade, quanto mais o monge se torna alheio às coisas do mundo tomadas neste sentido, mais consciente na verdade, em vez de alheio, ele vai se tornando da realidade. Este exemplo mostra o quão deturpado e ilusório é o conceito que as pessoas costumam se fazer desta realidade tão profunda, supondo que a contemplação seja algo que obrigue as pessoas a se tornarem alienadas, quando na verdade a contemplação significa o movimento que retira o homem precisamente deste estado.

Vamos examinar, porém, mais de perto, como se dá este processo de queda na realidade que se produz pela contemplação. A experiência mostra que, à medida em que se desenvolve no homem aquilo que se chama de contemplação, o homem verifica que muitas das coisas que ele aprendeu ou adquiriu através da contemplação eram, na realidade, coisas que ele já sabia antes. Não todas, mas muitas, ou pelo menos uma boa parte do que ele aprendeu pela contemplação eram coisas que ele deverá reconhecer que já, de fato, as sabia. Esta afirmação não deveria soar como novidade para nós, se já lemos no texto que é o objeto principal deste comentário que Hugo de S. Vitor nos diz que a contemplação não é uma atividade que nos ensina coisas desconhecidas, mas uma operação da inteligência cuja principal característica, ao contrário da reflexão, é precisamente o debruçar-se sobre coisas já sabidas. Esta afirmação, porém, pela pouca intimidade que as pessoas têm para com a realidade a que ela se refere, costuma soar, para muitos, como algo estranho. Uma das perguntas que mais freqüentemente surgem nas salas de aula quando se explica este assunto é precisamente qual a razão de uma atividade, que é tida como a mais complexa das operações da inteligência, debruçar-se sobre coisas já sabidas, se elas já são conhecidas? Pois, se elas já são conhecidas, por que perder tempo com elas? E, mais ainda, perder tempo com coisas já sabidas justamente através de uma atividade que nos é apresentada como a mais complexa de todas as operações do intelecto? Não seria isto o exemplo mais evidente de uma baixíssima taxa de eficiência de trabalho? À primeira vista, semelhante coisa parece um contrasenso; examinada, porém, a questão mais profundamente, verifica-se que estas objeções são, na realidade, exemplos de superficialidade e que há inúmeros motivos para justificar-se a existência, a importância e inclusive a necessidade da operação a que chamamos de contemplação. Vamos nos deter agora em apenas um só destes motivos. Este motivo que, independentemente dos demais, por si só já é suficiente para justificar a contemplação, é o seguinte: embora saibamos todas estas coisas sobre as quais a contemplação se debruça, nosso agir se comporta tal como se efetivamente não as soubéssemos. Esta é, ademais, uma realidade de que temos tão pouca consciência que, para entendê-la melhor, devemos fazer um esforço para examinarmos a própria comunidade humana como se a estivéssemos observando de fora dela.

Imaginemos um curso de pós graduação em psicologia humana ministrada em uma Universidade extra terrestre para marcianos. Logo na primeira semana de aula o professor explicará aos seus alunos a existência de uma civilização no planeta Terra em que seus habitantes se auto denominam, e com razão, de animais racionais. Ante que se inicie a segunda semana de aula, porém, um dos alunos, filhos de uma família abastada, resolve, em um fim de semana prolongado, fazer uma visita por sua própria conta ao planeta que será objeto dos estudos recém iniciados, não querendo esperar pelo estágio que será, para este fim, especialmente oferecido pela Universidade Marciana ao final do curso. Quando, na segunda feira seguinte, este aluno voltar aos bancos escolares, certamente a primeira coisa que ele irá fazer será protestar diante da afirmação de seu professor de que os terráqueos são animais racionais:

"Pude constatar
com os meus próprios olhos",
dirá o aluno,

"que trata-se, efetivamente, 
da opinião que eles têm de si próprios. 
Mas pude observar também,
e tenho provas mais do que suficientes 
para estar convencido disto,
de que tal afirmação não passa de um mito.
O modo de vida que eles construíram, 
suas atitudes,
seu comportamento, 
não condiz em nada,
ou quase nada, 
com os atributos da racionalidade, 
qualquer que seja o modo 
como se possa entender
ou mesmo estender o significado deste termo".

Que responderá o professor diante desta constatação?

O aluno insiste que o que ele diz não exige muita pesquisa, é coisa evidente, manifesta. Pelo que ele pôde observar, qualquer extraterrestre que se dirija à Terra não necessitará mais do que algumas horas para colher material superabundante para apoiar esta mesma conclusão. E agora, quem estará diante disto com a razão, o professor ou o aluno? Este jovem acolheu com benevolência as palavras do mestre, dirigiu-se à Terra não para contestar as palavras do venerável catedrático, mas por ter acreditado nelas e, justamente por causa disso, ter sido tomado pela curiosidade de admirar com os seus próprios olhos uma civilização de animais racionais. Ele havia partido em princípio predisposto a confirmar a lição do mestre e não a refutá-la, mas retornou abalado com o que viu. Os fatos falaram mais alto, ele não pôde negar uma realidade. O que o professor tem agora a dizer diante dos fatos que ele passa a enumerar e a narrar, um a um, em todos os seus detalhes? Mentiu, está cego, ou nada entende de psicologia humana, embora seja este o assunto sobre o qual vai ministrar o seu curso?

"Caro aluno",
responde-lhe o professor,

"você não está totalmente errado
em suas observações;
deveria ter esperado, porém, 
pelo estágio que faríamos no fim deste curso,
quando compreenderia melhor os homens.
Sei o que você viu. 
É, de fato,
uma triste realidade.
Mas, apesar do que você pôde observar,
devo-lhe confirmar que os homens
são verdadeiramente animais racionais. 
Não se trata de um mito. 
O que ocorre com eles 
não é a ausência da racionalidade,
como você presumiu, 
mas o fato deles serem vítimas
de uma doença pela qual neles produziu-se
uma separação entre o seu intelegir,
de um lado, 
e, de outro lado,
os seus sentimentos, 
os seus desejos,
o seu agir, 
e até mesmo a sua própria inteligência,
a qual, o mais freqüentemente, 
quando é chegado o momento de agir,
ou de funcionar em conjunto
com as demais faculdades da alma,
esquece-se momentaneamente daquilo
que ela própria,
aparentemente,
parecia saber alguns momentos antes,
quando podia funcionar sozinha, 
sem interferência dos sentimentos,
dos desejos e do próprio agir. 
Trata-se de uma doença
amplamente disseminada no planeta Terra,
mas são muito poucos
aqueles que se dão conta deste fato,
coisa que também faz parte da doença. 
Embora esta seja
a doença mais disseminada entre eles,
eles próprios sequer a catalogam como tal.
Há entre eles algumas criaturas 
que a conhecem como pecado original, 
embora, precisamente falando, 
estes sintomas não sejam o pecado original 
mas uma conseqüência
do que seria o pecado original. 
Este mal foi corretamente descrito 
nos textos de alguns de seus sábios
da Idade Média e da Antigüidade; 
hoje, porém, a maioria dos humanos crêem 
que nenhum conhecimento objetivo 
possa ser adquirido com a leitura destes escritos e,
com exceção daqueles que se interessam,
de alguma forma ou de outra, 
pela arqueologia, 
qualquer contato com eles
é tido como pura perda de tempo. 
Estes textos antigos, porém, 
não apenas descrevem a doença, 
como também lhe apontam o remédio 
e o curso clínico do restabelecimento. 
O nome que dão ao remédio para esta doença 
chama-se graça divina. 
Dizem que quando a graça 
começa a agir sobre o homem, 
o homem vai se curando gradativamente 
desta doença. 
Ele retorna, 
como entre eles deixou escrito o eremita Santo Antão, 
ao estado original e, 
quando a graça começa a agir sobre o homem,
conforme também eles dizem, 
estas criaturas começam a cair na real. 
No início deste que é
um longo processo de cura, 
esta queda na realidade se manifesta
sob a forma de uma virtude 
que eles denominam de humildade. 
Eles chamam de humildade 
ao início do processo de queda na realidade 
que se dá, inicialmente,
apenas em relação a algumas poucas coisas,
embora muito fundamentais, 
sem as quais qualquer ulterior queda na realidade
seria apenas ilusória, 
se é que se pode falar deste modo. 
Mas aqueles que conseguem iniciar 
seu processo de cura 
através da virtude da humildade, 
à medida em que caem na realidade
em relação a um número sempre maior de aspectos,
acabam conseguindo fazê-lo, 
depois de muito tempo, 
simultaneamente em relação 
a todos os aspectos ontologicamente relevantes 
para a vida de um ser humano. 
Surge então para estes seres 
uma outra realidade,
a que eles chamam de contemplação.
Quando surge nos seres humanos 
o que se chama de contemplação, 
os humanos começam a se tornar livres desta doença 
que os obrigava a agir irracionalmente 
sem de fato o serem, 
e eles começam então a provar 
o verdadeiro sentido da liberdade".





36. Relações adicionais entre pensamento, meditação e contemplação.

Esta aula, proferida no anfiteatro da Universidade Marciana, nos será muito útil para interpretar mais profundamente algumas afirmações do Opúsculo sobre o Modo de Aprender de Hugo de São Vitor.

Hugo de São Vitor nos explica ali importantes diferenças entre a meditação ou reflexão e a contemplação. Ele diz que a meditação ou reflexão difere do pensamento na medida em que o pensamento é assistemático e a reflexão é metódica. A atividade que ele denomina de pensamento pode ser metódica, mas quando o é, o é porque é conduzida em sua metodicidade pela leitura de um livro ou por uma aula que está sendo acompanhada. O pensamento, para ser metódico, não pode ser independente; se ele se desliga do livro ou da aula condutora, vagueia a esmo; trata- se de uma atividade da inteligência que não possui autonomia própria para ser metódica. A reflexão, porém, já significa uma forma de pensamento mais elevada porque autônoma; ela não necessita do fio condutor da aula ou da leitura para possuir a metodicidade; é uma forma de pensamento mais adulta e madura.
Mas a contemplação é uma forma de uso da inteligência ainda mais possante, adulta e madura do que a reflexão; ela está situada diante da reflexão ou meditação a uma distância ainda maior do que a reflexão está situada do pensamento. A diferença consiste em que o pensamento propriamente dito não apreende nada permanentemente; aquilo sobre o que nos debruçamos apenas pelo pensamento é sempre algo facilmente esquecido. Às vezes o pensamento produz algum resultado permanente na alma, não sujeito a um fácil esquecimento, mas neste caso verificamos que isto ocorreu na maiorias das vezes em ocasiões em que aquilo que foi pensado havia sido conduzido, através da aula ou da leitura, e o resultado permanente por ele produzido se deveu ao fato de que, assim conduzido, o pensamento já possui características que mais pertencem ao trabalho da reflexão. O pensamento por si mesmo dificilmente produz resultados duradouros na alma. Já o que foi verdadeiramente refletido não se esquece, torna-se uma conquista pessoal. Ora, a matéria prima sobre a qual a contemplação se debruça é precisamente isto que foi apreendido pela reflexão. Ademais, a reflexão apreende uma ou poucas coisas de cada vez, enquanto que a contemplação se coloca diante de muitas ou mesmo de todas as coisas apreendidas. Isto não significa que a contemplação só surge no homem quando termina todo o trabalho de reflexão pois, aos contrário, o que se observa é que à medida em que o trabalho de reflexão avança é que surge gradualmente o trabalho de contemplação e a contemplação pode, e efetivamente cresce, juntamente com o crescimento da reflexão. A contemplação pode desenvolver-se, e efetivamente se desenvolve paralelamente à medida em que a reflexão também se desenvolve, embora necessite de um amadurecimento prévio da reflexão para poder manifestar seus primeiros sinais de presença. Mas uma das diferenças mais radicais entre a reflexão e a contemplação consiste não apenas em tudo isto, mas no fato de que a reflexão não faz cair na real. Pela reflexão o homem pode aprender definitivamente uma determinada coisa, mas continua agindo, sentindo, desejando e até mesmo, no caso em que a inteligência se vê obrigada a atuar em conjunto com as demais faculdades da psicologia humana, intelegindo como se não tivesse aprendido nada. É pelo trabalho da contemplação que todas estas coisas se integram. É pelo trabalho da contemplação que caímos na real.

A contemplação é, deste modo, uma forma de trabalho intelectual que produz efeitos visíveis no homem, isto é, efeitos que podem ser notados claramente pelos outros homens que convivem com aquele que é capaz da contemplação. A reflexão não produz estes efeitos visíveis, porque ela se limita a apreender de um modo definitivo alguma coisa que, porém, no que depender apenas da reflexão, não produzirá efeitos fora da inteligência. Seus efeitos na inteligência são também, menos profundos do que os da contemplação. Neste sentido, a reflexão pode produzir efeitos visíveis apenas através da uma conversa, na medida em que pela conversa do homem habituado à reflexão externam-se as coisas que ele aprendeu, e desde que ele não se veja obrigado a fazer um uso prático deste conhecimento. Para que o homem possa se transformar, ao contrário, em um exemplo vivente de sabedoria, é necessário recorrer à outra operação da inteligência a que se chama de contemplação. Neste sentido, só os que são capazes da contemplação são verdadeiramente sábios e não só aparentam como também se comportam como tais. Examinada sob esta perspectiva, a contemplação se torna perfeita quando alcança uma interligação permanente de todos os aspectos da psicologia humana com todas as coisas que dizem respeito ao homem e à sua situação no mundo e diante de Deus.

Às vezes, em pessoas muito dadas ao estudo, a reflexão pode produzir alguns efeitos visíveis desta natureza; isto ocorre, porém, por causa de que ela já estará possuindo algumas das características do funcionamento da contemplação.







(Fonte: cristianismo.org.br)