sexta-feira, 14 de abril de 2023

002TVV - PRÓLOGO

 




 

Aos Noviços Missionários do Espírito Santo

"Aprende onde se acha a virtude" (Baruc 3,14)

 

Filhos meus, muito amados em Jesus:

Na questão 55 da primeira parte da segunda seção da Suma, São Tomás nos apresenta um duplo tratado em que considera, de forma geral, virtudes e vícios.

Nas questões 55-60, o Santo Doutor trata da essência das virtudes, de suas divisões, causas, conexões e igualdade. Depois, nas questões 61-89, estuda os vícios em sua natureza, diferenciando-os, comparando-os e detendo-se em suas causas.

Até a questão 122, o Santo Doutor segue seu importantíssimo estudo de cada virtude particular e, com ciência profunda e gênio incomparável, trata da ciência das virtudes, tarefa árdua do ponto de vista teológico.

Este Tratado sobre as virtudes e os vícios, que estudareis durante vosso noviciado, tem um caráter bem diferente. É, direta e essencialmente, voltado para a prática. Todos os seus preciosos ensinamentos são integralmente impregnados pelo espírito da Cruz. Isso não é de se estranhar, pois este trabalho foi extraído, palavra por palavra, daquilo que, em minhas conferências, chamo de "manuscritos da fundação".

O Tratado sobre virtudes e vícios brota do papel sem uma ordem prévia, fruto de muita paciência, amor e interesse, para o benefício dos noviços das Congregações.

Observando a semelhança de algumas virtudes, foi possível dividi-las em doze famílias, sem que esse número tivesse sido escolhido previamente. Vêm-nos à mente estas palavras do Apocalipse:

"No meio de sua praça e às duas margens do rio, achava-se uma árvore da vida, que produz doze frutos, dando cada mês um fruto, servindo as folhas da árvore para curar as nações" (Apocalipse 22, 2).

Depois das virtudes, fixamo-nos nos vícios correspondentes. A esses também foi possível dividir em doze famílias.

Assim, ficou pronto o Tratado que apresento-vos agora. Explicarei, prática e cuidadosamente, a cada mês do vosso noviciado, uma das doze famílias de virtudes e de seus vícios contrários.

Quanto à ordem que escolhemos para trabalharmos as diferentes virtudes, pensamos começar pelas Virtudes Gerais (cfr. São Francisco de Sales, < Introdução à Vida Devota, 3ª parte, cap. I), isto é, pelas que são de uso mais frequente e cuja influência tem mais efeito no conjunto do comportamento humano. Pareceu-nos evidente que devêssemos começar pelas virtudes que ocupam um lugar mais proeminente no dia a dia. São as mais práticas. Portanto as mais importantes e essenciais.

É mais natural e lógico começar com as virtudes do sacrifício, de nuance especial.

Vós estais aqui para "arrancar vícios e plantar virtudes" [N.E.: expressão usada pela Beata Conchita]. Para que aproveiteis melhor este estudo, parece-me necessário recordar brevemente alguns dados teológicos sobre as virtudes e os vícios. Procurarei ser claro. Em primeiro lugar, veremos o que é uma virtude, o que se entende por ato de virtude e como se cultivam as virtudes.

Nos livros de moral e de espiritualidade, o termo virtus pode ter três significados:

Pode significar a prática do bem em geral: o homem pratica a virtude quando realiza o bem sob todas as formas.

Pode significar a prática de um bem particular, e nesse sentido inteiramente objetivo se distinguem várias virtudes diferentes, como é o caso da virtude da fé, da esperança e da caridade, entre outras.

Por fim, em um sentido totalmente subjetivo, pode significar aquela força pessoal com que fazemos o bem.

Essa última acepção da palavra 'virtude' corresponde à sua etimologia. Virtude provém da palavra latina virtus, que significa força.

De fato, toda virtude é uma força, mas nem toda força é uma virtude. Costuma-se aplicar o termo 'virtude apenas àquelas forças espirituais permanentes que tornam o homem capaz de realizar o bem. Digo 'forças espirituais, porque a virtude torna fortes não os corpos, mas as almas. A virtude é uma força moral. Digo permanentes, porque essas forças não se consomem nos atos que realizam e mantêm a capacidade de produzir novos atos. A isso, em filosofia, dá-se o nome de hábito (cfr. Ami du Clergé, 1920, p. 33). Por fim, digo forças que tornam o homem capaz de realizar o bem, pois esse é o objeto da virtude, que é o oposto do vício. Virtude e vício são dois hábitos contrários, um oposto ao outro, um inimigo do outro.

O padre Thomás Pegues, O. P., em seu último e admirável Comentário à Suma de São Tomás (Tomo VII, p. 2), diz que, entre todas as distinções que podemos fazer dos hábitos, a mais essencial é a que diferencia em hábitos bons e hábitos maus.

Hábito é, essencialmente, uma disposição para aquilo que convém ou que não convém. Toda disposição ao que convém, é boa; toda disposição ao que não convém, é má. Disso segue que, ao estudar os hábitos segundo suas duas espécies, a espécie dos hábitos bons e a dos hábitos maus, este Tratado deverá conter duas grandes divisões: os hábitos bons que movem o homem virtuoso e os hábitos maus que movem o homem corrupto.

São Tomás trata primeiro das virtudes (2a., 2ae. Q.55 a 67) e, em seguida, dos vícios (ibid., q. q. sq.). Este Tratado coteja, frente a frente, virtudes e vícios, dando ênfase à sua contraposição.

O Espírito Santo recomenda que aprendamos onde está a virtude", a saber, em que ela consiste, de onde vem, como se põe em prática e que vantagens oferece.

Há dois tipos de virtudes: as naturais e as sobrenaturais.

As virtudes naturais são virtudes puramente humanas. Às vezes, o homem as recebe ao nascer. Mais frequentemente, adquire-as graças a seus próprios esforços. Por isso, os teólogos as designam com o nome de virtudes adquiridas. Essas virtudes são reguladas pela razão.

As virtudes sobrenaturais pertencem à ordem da graça. Ninguém as possui ao nascer. Tampouco são adquiridas pelo esforço. Provêm diretamente de Deus. Por isso, são chamadas de virtudes infusas. Santo Agostinho diz que "a virtude é uma obra de Deus em nós. Virtus est bona qualitas quam I Deus in nobis operantur" (Lib. II De lib. Arbitrio).

A graça santificante nos une a Deus, associa-nos à sua vida, faz com que Deus viva em nós: "Se alguém me ama, meu Pai o amará, viremos a ele, e nele faremos morada".

Todo ser vivo possui um organismo, isto é, um conjunto de órgãos ou de faculdades com que se manifesta e produz atos para fora de si mesmo. As virtudes sobrenaturais são os órgãos ou faculdades ativas próprias da vida divina e humana, que recebemos pela graça. Constituem o modo, a forma, pela qual Deus nos comunica sua força.

As obras nas quais empregamos as virtudes sobrenaturais são como o indicativo da vida divina em nós. São atos divinos e humanos que possuem um valor tão grande que só Deus pode ser sua recompensa.

Graças a essas considerações, compreendemos melhor como as virtudes sobrenaturais, em razão de seu caráter, origem e poder, elevam-se muito acima das virtudes naturais.

Existe uma correspondência entre virtudes naturais e sobrenaturais. Dito de outro modo: toda virtude sobrenatural corresponde a uma virtude natural, à qual pressupõe, completa e transforma. Também representa uma energia divina que trabalha em simbiose com uma energia humana. As duas virtudes correspondentes, a humana e a divina, têm o mesmo nome. Assim, existem duas humildades, duas prudências, duas temperanças: as de cima e as de baixo. Disso resulta que podemos praticar e, frequentemente, de fato praticamos, ao mesmo tempo, as duas virtudes correspondentes.

A graça santificante é um princípio de vida. As virtudes sobrenaturais são como que o organismo desse princípio de vida. Estão intimamente unidas à graça santificante e não podem separar-se dela. Ao recebermos a graça santificante, recebemos também as virtudes sobrenaturais. Enquanto estamos com a graça santificante, conservamos essas virtudes. Ao pecarmos gravemente, perdemos a graça santificante e, consequentemente, as virtudes sobrenaturais. A fé e esperança são as únicas que podem permanecer na alma sem a vida da graça. A alma em pecado mortal, porém, ao cair na incredulidade e no desespero, perderá também as virtudes da fé e da esperança.

Deus pode devolver aos pecadores as virtudes perdidas, e de fato as devolve, junto com a graça santificante, quando recebem Seu perdão. Note-se que as virtudes naturais, à diferença das sobrenaturais, não morrem por causa do pecado. Todo ato mau, obviamente, enfraquece-as, assim como todo ato bom as fortalece. Entretanto o pecado não chega a destruí-las.

As virtudes sobrenaturais crescem ao crescer a união com Deus. Tudo o que pode estreitar essa união (a oração, a comunhão) concorre para o aumento das virtudes. Contudo, o caminho mais eficaz e prático de crescer nas virtudes consiste no exercício efetivo e habitual das que se quer adquirir em toda a sua plenitude. Quanto mais as praticarmos, tanto mais as fortaleceremos.

As forças naturais são bem distintas das forças sobrenaturais. As primeiras se gastam pelo muito uso; as segundas se fortalecem pela prática. As virtudes naturais se consomem; as virtudes sobrenaturais nunca se esgotam.

Depois de ter dado uma ideia resumida do que seja a virtude, diremos, brevemente, a seguir, o que seja o ato virtuoso.

Chama-se ato de virtude ou virtuoso o ato que põe em prática a virtude, A iniciativa de um ato de virtude natural vem da razão. A razão concebe as motivações do ato, as propõe ao espírito, e assim desperta as exigências da consciência e determina as resoluções da vontade. As motivações dessa espécie de ato são sempre naturais. Por isso, o homem pode descobri-las pela luz da razão.

A iniciativa de um ato de virtude sobrenatural vem de Deus e não de nós. Deus nos dá a ideia do ato de virtude por meio das suas inspirações e toma parte na realização do ato por meio do que chamamos de graça atual. Essa inspiração e participação divina sempre orientam o ato virtuoso a um fim sobrenatural.

Em razão dos deveres de estado, dos afazeres do dia a dia, das penas da vida, das relações com o próximo, das tentações e, sobretudo, da ação do Espírito Santo na alma, nunca faltam oportunidades para o exercício dos atos virtuosos. Isso deve nos alegrar, porque dos atos virtuosos surge o merecimento, que é o direito a uma recompensa. O trabalho do operário merece um salário. Os êxitos do estudante merecem louvores. Da mesma maneira, todo ato virtuoso sobrenatural também merece uma recompensa. Esse direito provém das promessas de Deus e da excelência do ato virtuoso em si mesmo. O ato virtuoso sobrenatural é um ato de ordem divina que, por isso mesmo, possui um valor divino.

O merecimento de um ato virtuoso pode variar. Seu valor pode ser aumentado pelas circunstâncias nas quais é exercido. Entre as circunstâncias que podem aumentar seu valor, temos: as dificuldades que é necessário vencer para praticá-lo, o grau mais ou menos elevado da graça de quem pratica o ato virtuoso, a estatura do amor devotado a Deus, a excelência das intenções da pessoa virtuosa.

Se me perguntassem o que se deve fazer para que um ato de virtude seja sobrenatural e tenha, por isso, mérito, lhes responderia que depende da intenção ou vontade de exercer o ato virtuoso. Essa intenção pode ser explícita, quando alguém se propõe, formalmente, a exercer tal ou qual virtude sobrenatural. É implícita, quando, sem haver uma intenção expressa, o ato virtuoso sobrenatural é exercido com a devida advertência, como o ato religioso; ou quando oferecem-se a Deus atos não religiosos, como o trabalho, os sofrimentos etc.

É importante adquirir muitos méritos pela prática das virtudes sobrenaturais. O mérito é a moeda com a qual se compra os favores e as recompensas divinas. Torna fecunda a existência e faz com que produza frutos abundantes. Nos propicia crédito diante de Deus. Faz jus às suas graças e à glória do céu. Poderíamos dizer que sem mérito não há salvação.

Conforme o convite da Sagrada Escritura, expliquei-vos aqui, filhos que ridos, "onde está a virtude" e as vantagens proporcionadas pelo ato virtuoso, para inspirar-vos o mais vivo desejo de estudá-las e o propósito de adquiri-las mais facilmente. Diz o Espírito Santo que, quando alguém sabe onde está a virtude, sabe "onde se encontram a vida longa e a felicidade, o fulgor dos olhos e a paz" (Baruc 3,14).

Para ficar mais claro e ajudar a memória a rever mais facilmente o conjunto de cada família, fiz um quadro sinótico de cada família que encabeça o texto. Prestai muita atenção às notas que acompanham o primeiro quadro (Virtudes de Sacrifício), necessárias para sua compreensão, e dos demais quadros.

Sobre os vícios, aqui, tenho pouco a dizer. A seu tempo terei ocasião de tratar amplamente de cada um deles. Talvez, mais do que no estudo das virtudes, tereis modo de conhecer-vos profundamente no estudo dos vícios. Há em cada parágrafo uma psicologia profunda, um conhecimento completo do pobre coração humano, de suas misérias, debilidades e imensurável malícia.

Meus filhos amados, do estudo dos vícios advêm-nos uma forte repulsa a tudo o que é mau, uma grande desconfiança das nossas forças, um maior discernimento para defender-nos e desvendarmos as tentações do demônio.

Pelo estudo das belas virtudes celestiais, reflexos vivíssimos da santíssima humanidade de Jesus, lograreis as mais firmes resoluções de obter esses bons hábitos tão preciosos. Praticando as virtudes sólidas, como a obediência, a caridade, a humildade e o sacrifício, encontrareis o verdadeiro caminho da perfeição e da santidade.

 

Filhos amados, nunca percais de vista a obtenção da preciosa "atenção amorosa em Deus", da qual mil vezes vos falei, e que é a própria vida contemplativa. Ela vos ajudará na prática das virtudes mais elevadas, unindo vossas vidas a Jesus e Maria, pela santíssima vontade do Pai e a ação do Espírito Santo, o amado de vossas almas.

No estudo paralelo das virtudes e da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, ao qual vos aplicais diariamente, por dois anos, vereis como, em nosso modelo amabilíssimo, encontram-se as virtudes em seu grau mais perfeito.

Por intermédio desse estudo, unireis, assim, em vosso coração, a teoria e a prática, o aprendizado técnico e o exemplo mais perfeito, e vos conformareis à imagem do perfeito missionário do Espírito Santo.

Cada um, pelos inúmeros motivos que já lhe foram explicados, sabe o valor de entrar na intimidade com Jesus, a fim de que o Divino Rei viva, reine Le derrame suas graças no coração de seus filhos prediletos.

Vosso pai, que, verdadeiramente, vos quer santos e suplica a Jesus, por intermédio do dolorosíssimo Coração de Maria, que vos torne santos segundo a Sua vontade.

Noviciado do Espírito Santo e do Coração de Maria.

Tlálpan, sexta-feira 18 de março de 1921.

Festa das Dores da Santíssima Virgem Maria.

 

FÉLIX DE JESÚS ROUGIER,

Presbítero.

Mestre de noviços.




Amanhã publico a introdução...

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