quinta-feira, 22 de março de 2018

Os Pressupostos do Aprendizado 1



Comentário ao Opúsculo de Hugo de São Vitor
Sobre o Modo de Aprender

- Primeira Parte -



1. Situação histórica de Hugo de São Vitor. 

Hugo de São Vitor nasceu provavelmente no ano 1096 na região da Saxônia, território que na época fazia parte do Sacro Império Romano Germânico.

Ainda jovem, ouvindo falar, através de um tio bispo, a respeito da boa fama de um mosteiro recém fundado junto a uma antiga capelinha dedicada ao mártir São Vitor nos arredores de Paris, abandonou sua terra natal e pediu para ser admitido entre os clérigos de que tão boas referências lhe haviam chegado. O mosteiro de São Vitor de Paris, fundado há tão pouco tempo, iria ser o berço de uma congregação religiosa que se espalhou pela Europa, atravessou a Idade Média mas acabou por extinguir-se no início da época moderna. Os Cônegos Regulares de São Vitor, embora não existam mais, deixaram porém para os cristãos e os homens de todos os tempos, entre outros valores, o legado das obras de dois dos principais teólogos que houve na história da Igreja, Hugo de São Vitor e seu discípulo Ricardo de São Vitor, este último que continuou e completou com tanta fidelidade a obra iniciada por Hugo que os escritos de ambos estes homens formam, na realidade, um só conjunto, como se duas pessoas se tivessem unido e continuado por uma só alma.



2. Características da obra teológica de Hugo de S. Vitor. 

A obra teológica de Hugo de São Vitor se distingue de modo particular entre todas as outras que marcaram com uma forte presença a história da Igreja pelo fato de que seu autor foi chamado não apenas a lecionar Teologia, mas também a organizar a primeira escola desta disciplina em sua nascente congregação. Naquela época não existiam ainda na Igreja os seminários para a formação dos clérigos, que só surgiram com uma disciplina organizada através dos decretos do Concílio de Trento no século XVI. No tempo de Hugo de São Vitor não existiam ainda também as instituições a que hoje denominamos Universidades, da qual a primeira foi a Universidade de Paris que surgiria cerca de um século depois de Hugo de São Vitor, em grande parte como resultado do trabalho que ele próprio desenvolveu na escola anexa ao Mosteiro de São Vitor de Paris.

Devido ao fato de Hugo de São Vitor ter-se visto investido da obrigação de organizar esta escola de estudos teológicos, a primeira e principal de uma organização que surgia na Igreja com a devoção característica das obras que estão ainda em seus primórdios, uma parte de seus escritos acabaram sendo dedicados à Pedagogia da Teologia e da vida espiritual. Hugo de São Vitor se viu explicando aos alunos como se deveria estudar, aos professores como se deveria ensinar e à escola como se deveria organizar, não para obter como se deveria ensinar e à escola como se deveria organizar, não para obter algum diploma. que naquela época ainda de nada valiam, mas para, a partir de um sólido conhecimento das Sagradas Escrituras e das obras dos Santos Padres, empreenderem a busca da santidade. Muitas ou talvez mesmo quase todas as demais obras de Hugo de São Vitor que não tratam diretamente de Pedagogia, entendido este termo no sentido que acabamos de explicar, ademais, só podem ser verdadeiramente compreendidas quando inseridas dentro da perspectiva desta que foi uma das mais notáveis das pedagogias, talvez mesmo a Pedagogia por excelência. Efetivamente, a maioria destas obras foram sendo redigidas à medida em que Hugo, percebendo que não havia ainda, na Tradição Cristã, textos que pudessem preencher tais ou quais necessidades de seu modo de entender a Educação, as foi compondo e escrevendo ele próprio. Foi assim, por exemplo, que surgiu a primeira Summa Theologiae da história, ou o primeiro texto que tinha a estrutura e as características essenciais de uma Summa Theologiae do modo como viria a ser composta quase dois séculos mais tarde por Santo Tomás de Aquino.

Àquela que foi a primeira Summa Theologiae da história, Hugo de São Vitor deu o nome de Os Mistérios da Fé Cristã, ou, no original latino, De Sacramentis Christianae Fidei. Porém, anos antes de escrevê-la, em uma outra obra, os seis livros do Didascalicon, obra dedicada apenas a questões de pedagogia, Hugo de São Vitor havia demonstrado a necessidade de se redigir um texto que tivesse as características que viriam a se encontrar em seu Os Mistérios da Fé Cristã e posteriormente na Summa Theologiae de Santo Tomás, e que pudesse ser utilizado como subsídio para uma das etapas de seu programa pedagógico.



3. Opúsculos de Hugo de São Vitor. 

Entre as obras de Hugo de São Vitor há uma série de opúsculos caraterísticos de um ambiente de ensino de uma escola em processo de formação. São coleções de notas redigidas por Hugo de São Vitor sobre assuntos os mais diversos. Nestes opúsculos, embora seja freqüente que o pensamento do autor seja muito claro, que suas afirmações sejam mesmo de uma precisão lapidar, nota-se, entretanto, que ao mesmo tempo estas observações não se acham desenvolvidas para que se perceba de modo imediato todo o seu alcance e as suas implicações mais profundas ali inegavelmente contidas. São anotações para as quais Hugo não tinha tido tempo de dar-lhes a forma de livro. Ele tinha outros assuntos a ensinar ou com que ocupar-se e, antes que tivesse podido acabar o livro necessário para expor de modo explícito as reais implicações daqueles princípios, já teria que ter escrito outros mais urgentes. Para não deixar, porém, os alunos sem apontamento algum, redigia ou ditava estes pequenos opúsculos nos quais apontava apenas para algumas idéias principais. O Opúsculo sobre o Modo de Aprender, de que estamos tratando nestas notas, e o Opúsculo sobre os Frutos da Carne e do Espírito, que trata do papel central da humildade na vida das virtudes e de que faremos um uso especial mais adiante, são dois exemplos deste gênero de trabalho. Além destes Hugo nos deixou muitos outros. Pode-se citar, entre eles, um livro razoavelmente grande contado entre as suas obras, denominado de Miscelâneas, que não contém a totalidade de seus opúsculos, -não contém, por exemplo, estes dois que acabamos de citar-, mas no qual estão reunidos mais de novecentos títulos entre opúsculos menores, comentários, fragmentos de aulas ou mesmo pequenas observações sobre assuntos os mais diversos.



(Fonte: cristianismo.org.br)

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