domingo, 25 de março de 2018

Pressupostos do Aprendizado 4



6. O significado das diversas escolas de espiritualidade.

Antes de prosseguirmos no nosso assunto, será necessário explicar qual a razão para a existência destas e de outras escolas de espiritualidade. O nome de correntes ou escolas não são os termos ideais para expressar a realidade que se quer designar com eles. Infelizmente, porém, parece não haver outros. Não se tratam de correntes divergentes, nem de escolas que defendem princípios fundamentais opostos. Na verdade, os princípios fundamentais que todas elas supõem não apenas não são opostos como nem sequer são diversos. Todas elas partem, de fato, não apenas dos mesmos princípios fundamentais, como todas também concordam na mesma doutrina cristã e cada uma almeja alcançar os mesmos e idênticos objetivos que todas as demais.

As diversas linhas de espiritualidade podem ser consideradas como modos diversos de conduzir a vida humana, com o auxílio da graça, àquela realidade a que se chama de contemplação. Pode-se dizer que o objetivo de todas as escolas de espiritualidade, assim como o de todos os homens santos, foi o de alcançar a contemplação. E pode-se dizer também que a contemplação, em sua forma mais plena, não difere em sua natureza de uma escola para outra. A contemplação é não apenas um objetivo final comum para todas, como também é uma mesma, única e precisa realidade para qualquer uma destas escolas de espiritualidade. Cada um destes modos diversos de se dispor a vida espiritual difere dos demais apenas pelo modo como se realiza em cada um a aproximação gradual desta realidade a que chamamos de contemplação; uma vez, porém, alcançada esta realidade em toda a sua plenitude, cessam quaisquer aparentes diferenças entre os diversos modos como pôde ter-se iniciado a vida espiritual.


7. Comparação com a escalada de uma montanha.

As diversas escolas de espiritualidade podem ser comparadas aos diversos modos como é possível escalar uma montanha.

Alguns sobem pelo flanco norte, outros pelo leste, outros pelo oeste, outros pelo sul, e outros ainda pelos meios destes. As características de cada flanco podem ser tão diversas que se tornará necessário utilizar recursos também diversos para a escalada. Alguém que teria uma aptidão especial, uma história, uma facilidade ou um motivo especial para subir por um lado, poderia não tê-lo para fazê-lo ou para fazê-lo com a mesma facilidade por outro lado e vice versa.

Existe ainda o problema de que os que sobem por flancos aparentemente opostos podem não se enxergarem quando estão ainda nos inícios da escalada; figurativamente, significa isto que um parece não ser capaz de entender o proceder do outro. Todos estão, porém, escalando a mesma montanha e, quando chegarem ao seu topo, acabarão por se encontrarem precisamente no mesmo local.


8. A contemplação descritível de várias formas.

Do fato de se dizer que a plenitude da realidade a que se chama de contemplação é um objetivo comum para todas as escolas de vida espiritual, e que é uma mesma e idêntica realidade para todas, não se segue que todas elas expliquem o que seja a contemplação de uma mesma maneira. Isto ocorre porque aquilo a que se chama de contemplação, embora seja uma única e mesma realidade, possui uma tamanha riqueza de conteúdo que pode ser abordada segundo uma multiplicidade inesgotável de perspectivas e que, cada pessoa, ao longo de toda a história humana, que se aproximar desta realidade, ao tentar descrevê-la, sempre o fará de um modo novo e diverso do que o fizeram todos aqueles que se tinham anteriormente já aproximado dela, embora estejam todos descrevendo uma única e mesma realidade.

Nas aulas de que estas notas são uma pequena parte já se teve um exemplo deste fato. Inicialmente dissemos que a contemplação era a operação da inteligência cujo objeto era a sabedoria, a qual seria, por sua vez, a mais elevada forma de conhecimento possível ao homem. Depois, seguindo os comentários de Santo Tomás de Aquino a Aristóteles, procurou-se definir o que, segundo Aristóteles, seria mais precisamente aquilo a que se chama de sabedoria. Porém, o próprio Santo Tomás de Aquino, quando não está escrevendo seus comentários a Aristóteles, mas trata do assunto em seus livros de Teologia onde ele tem por isso mesmo uma liberdade maior de expressão, se utiliza de uma perspectiva mais ampla para explicar o que é a contemplação. Se nos referirmos ao conjunto dos autores situados ao longo de toda a tradição cristã, estes autores, acrescidos à obra de Santo Tomás de Aquino, oferecem uma perspectiva de horizontes extraordinariamente ainda mais amplos. Mas, por mais que se tenha falado sobre o assunto ao longo de todos os séculos, esta perspectiva se dilata ainda de um modo surpreendentemente novo à medida em que os que estudam o assunto, em vez de se limitarem apenas à leitura do que os sábios dizem a este respeito, eles próprios se aproximam da mesma pela prática das virtudes, do estudo e da própria contemplação. De fato, lemos no Apocalipse a seguinte promessa de Jesus:

"Ao vencedor darei um nome novo,
o qual ninguém conhece, 
senão quem o recebe".
Apoc. 2, 17

Ora, na interpretação de Ricardo de S. Vitor, este "nome novo, que ninguém conhece, senão quem o recebe", nada mais é do que o conhecimento divino (Comm. in Apoc.; PL 196, 724), que, de fato, por mais ampla que seja a perspectiva pela qual o conhecemos por meio de outros, se não o recebemos nós mesmos é como se ainda não o conhecêssemos, sendo este o motivo pelo qual, por mais que se tenha falado a respeito deste assunto, quando uma nova pessoa se acrescenta ao número dos que já falaram, parece, como de fato é, que novas coisas se estão falando que nunca antes haviam se falado.


9. Legitimidade de uma espiritualidade.

Do que foi dito pode-se deduzir que não é qualquer regra ou modo de vida que pode legitimamente denominar-se de espiritualidade, ainda que aparentemente verse sobre assuntos relacionados com a vida do espírito. Uma espiritualidade somente pode ser julgada como autêntica se, de fato, ela conduz à contemplação. Todas elas surgiram da experiência de pessoas que haviam alcançado esta realidade e sabiam como ensinar aos outros o modo ou um modo de alcançá-la. Como todas, se legítimas, efetivamente conduzem a este mesmo fim, não se pode também dizer que uma seja melhor do que a outra. Ao contrário, dada a extrema dificuldade do comum dos homens em discernir corretamente sobre estes assuntos, deve-se considerar feliz aquele que, de alguma forma, tiver encontrado verdadeiramente qualquer uma delas. A grande dificuldade no discernimento sobre estes assuntos reside no próprio homem, imerso como está no pecado e encantado pelos baixos objetivos que lhe são apresentados pela vida material, em entender com clareza o que seja o próprio objetivo a que se propõe uma autêntica vida espiritual. A maioria dos homens sequer faz idéia do que se trata e inclusive não quer mesmo saber de nada a este respeito; da minoria restante, a maior parte tem uma idéia inteiramente fantasiosa e irreal do que seja aquilo a que se chama de contemplação.





(Fonte: cristianismo.org.br)

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