sexta-feira, 6 de abril de 2018

Pressupostos do Aprendizado 11


- Terceira Parte -



32. Relação entre humildade e contemplação.
Necessidade da humildade e do respeito ao semelhante para a contemplação.

Na continuação destas notas vamos mostrar, com maior detalhe, a natureza da necessidade da humildade como princípio do aprendizado. Na medida em que o verdadeiro aprendizado se ordena à contemplação como a seu fim último, mostraremos, de modo especial, que a impossibilidade de se alcançar a contemplação sem a humildade não se deve a uma simples dificuldade, nem tampouco a uma dificuldade tão grande que se tornasse humanamente insuperável, mas ao fato de pretender-se, com isto, duas coisas simultaneamente contraditórias. Deste modo, qualquer pessoa que afirmasse estar em busca da contemplação sem possuir a humildade estaria apenas mostrando, com isto, o quanto é equivocada e ilusória a noção que ela possui sobre a natureza da contemplação, uma realidade que, não obstante o quanto esta pessoa possa dizer o contrário, ela efetivamente não deseja.
Assim, para não corrermos o risco de empreendermos uma caminhada tão absurda, uma caminhada na qual não se anda, apesar de sonhar-se que se anda, devemos examinar primeiro com verdadeira sinceridade o quanto possuímos desta virtude que estamos descrevendo. De modo especial, devemos examinar o grau de respeito que, independentemente de circunstâncias e de pessoas, estamos dispostos a dar a nosso semelhante. Não se pode dizer que alguém seja humilde se não se está verdadeiramente disposto a que este grau de respeito seja simplesmente total, absoluto e incondicional.




33. Dificuldades dos homens para entenderem o respeito devido ao semelhante.

Existe uma dificuldade especial para se entender este último aspecto da questão da humildade que acabamos de mencionar porque a maioria dos homens age mais pela inércia do costume e modelando-se pelos hábitos que vê como aceitos pelo comum das pessoas do meio em que vive do que pela docilidade a uma verdade apreendida objetivamente pela inteligência. Neste sentido, na sociedade do final do século 20, o respeito incondicional pelo ser humano não é favorecido pelo que podemos observar ao nosso redor.

As constituições dos estados modernos repetem constantemente, mais do que nunca na história, a necessidade de se combater toda a espécie de discriminação e atentado à dignidade humana. As declarações de direitos humanos são incessantemente reafirmadas nos principais textos legislativos e nas convenções dos organismos que reúnem os responsáveis pelos destinos das nações. A julgar por estes fatos, pareceria nunca ter existido outra época em que houvesse tamanha disposição para se promover uma atitude de respeito para com o ser humano. No entanto, os meios de comunicação nos mostram continuamente exemplos de entes que, embora afirmem se amarem entre si, como deveriam ser os namorados, os esposos, os pais e os filhos, desrespeitam-se e se agridem entre si de forma incessante. Tais atitudes, em vez de causarem horror aos que as assistem, e uma extrema desonra para os que as divulgam, tendem a ser consideradas como eventos normais e às vezes até como um produto de alguma forma superior de sinceridade, quando, na realidade, objetivamente examinadas, deveriam ser tidas como atitudes inconcebíveis não só entre seres que se amam como até mesmo para com um estranho. Na vida real, ademais, não apenas vemos estes exemplos se reproduzirem com freqüência crescente fora de nossas famílias, como inclusive, e o mais comumente, dentro delas próprias. Além do desrespeito verbal ou físico, vemos também uma grande quantidade adicional de desprezo que os homens têm uns pelos outros e de que não possuem a coragem de demonstrá-lo diretamente àqueles aos quais o dirigem, mas apenas a terceiros. As pessoas que agem assim, obviamente, quer elas o entendam ou não, julgam que não podem elas mesmas serem desprezíveis no mesmo sentido em que estão desprezando os demais. Se quisermos ser humildes, porém, devemos parar definitivamente de agir desta forma, não propriamente porque tenhamos aprendido a dominar nossos impulsos, mas porque decidimos conscientemente descer do pedestal fantástico em que tivemos que nos colocar para que nos arrogássemos a liberdade de nos entregarmos com toda a naturalidade a tais procedimentos. Devemos nos decidir a nunca mais agredir ou desrespeitar, não só de fato, como também em nosso coração e em nossos pensamentos, qualquer pessoa que seja, em qualquer circunstância que possa vir a ocorrer, especialmente naquelas em que estamos com a razão, e propor-nos a isto não como quem se propõe a uma conquista a ser alcançada gradualmente, mas como quem toma uma resolução imediatamente definitiva. Não nos podemos permitir o luxo de pretender alcançar a realização deste propósito apenas próximos ao fim de nossas vidas, pois este não é, ao contrário do que pode parecer, o ápice da vida espiritual, mas apenas um dos mais elementares de seus primeiros princípios. Que sempre que qualquer pessoa nos procure, pois, seja quem for, seja ouvida com reverência e atenção; se não puder ser ouvida, que o seja por motivos técnicos, não por desprezo ou por desconsideração de importância. Seja quem for que a nós se dirija, procedamos assim por estarmos possuídos de uma nítida consciência de estarmos sendo interpelados por alguém que possui uma dignidade essencialmente idêntica à nossa. Ademais, se estamos efetivamente conscientes de nossa situação de indigência de graça, virtude e conhecimento, destituídos da hipótese absurda de uma compreensão divina do que há de essencial na ordenação do Universo, temos que dar atenção a quem quer que nos interpele, não apenas pelo respeito à sua dignidade humana, mas também porque não podemos prever de antemão que boas surpresas esta nos poderá trazer, sabendo de antemão que a verdade quase sempre costuma se apresentar pelos caminhos que os orgulhosos menos esperam. No tempo de Jesus, esperava-se pelo Messias como ao Rei dos reis, que de fato o foi; quem poderia supor, porém, que alguém com tais títulos e cuja vinda estava sendo efetivamente preparada pelo próprio Deus há quase dois mil anos, conseguiria sequer alugar uma vaga de quarto em uma aldeia minúscula como Belém, e tivesse que nascer entre os animais de um estábulo? Quem poderá avaliar quantas vezes Deus efetivamente já se nos apresentou deste modo em nossa vida e nós nada percebemos? Não é impossível que houvesse soldados aos pés da cruz de Cristo que, no mesmo instante em que o bom ladrão rogava e obtinha de Cristo um lugar para si no Paraíso, reclamassem da injustiça de terem sido transferidos pela autoridade romana para servirem num território tão desprezível como a Palestina, um lugar onde jamais poderia acontecer nada de importante, muito menos algo que pudesse mudar o curso da história. Por mais paradoxal que possa parecer este exemplo, este é o pão de cada dia do homem orgulhoso, e ele morre na maioria das vezes sem ter tido a oportunidade de ter percebido o que realmente foi a sua vida.




34. A importância do respeito incondicional devido ao semelhante.

Procuremos, ademais, entender a tão grande importância de que se reveste esta atitude pelo modo como Jesus se referia a ela. No Sermão da Montanha, comentando o mandamento deixado por Moisés que proíbe o matar, Jesus afirma que até aquele que houver dito "desgraçado" ao seu irmão, "será réu do fogo do inferno" (Mat. 5, 22). Quer Jesus dizer com isto que quem se dirige ao seu semelhante com palavras próprias para ofender e magoar age diante de Deus como aquele que viola o mandamento que proíbe o matar. E isto para Jesus é tão sério que logo em seguida ele acrescenta:
"Se estiveres para apresentar
a tua oferta ao pé do altar
e ali te recordares de que teu irmão
tem qualquer coisa contra ti, 
deixa a tua oferta diante do altar
e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão;
voltarás, então, para apresentar a tua oferta".
Mt. 5, 23-4

Não é por uma arbitrariedade que se fazem estas exigências tão estritas. Ocorre que neste assunto se aplicam de uma maneira muito especial as palavras da Epístola aos Hebreus:

"Nossos pais nos educaram 
segundo a sua conveniência; 

Deus, porém, o faz para o nosso bem,
para nos comunicar a sua santidade".
Hb. 12, 10

De fato, este preceito não só é de tão grande importância para o desenvolvimento da vida espiritual que justifica o rigor com que é apresentado, como também só produz os frutos que dele se esperam se praticado de modo integral já desde o seu ponto de partida.

A correção da interpretação sobre a importância que Jesus atribui à prática do respeito ao semelhante é conformada pelo teor análogo das exigências que Ele também faz, logo em seguida, dentro do mesmo contexto, sobre o mandamento igualmente deixado por Moisés proibindo o adultério. A este respeito Jesus declara que não são apenas aqueles que se apropriam efetivamente da esposa alheia os que incorrem na violação deste mandamento, mas também que

"Todo aquele que olhar para uma mulher
com mau desejo no coração 
já cometeu adultério com ela".
Mt. 5, 28

A tradição cristã e a teologia nunca interpretaram esta passagem como algo que devesse ser interpretado num sentido figurativamente lato. Ao contrário, sempre deram claramente a entender que este texto deveria ser interpretado como significando a obrigação estrita de se dever cumprir precisamente o que está enunciado na literalidade das palavras evangélicas. Não há nenhuma base para se poder interpretar, diante disto, o texto imediatamente anterior sobre o respeito ao semelhante em uma perspectiva diversa. Antes, se algo devesse ser concluído a este respeito, seria precisamente o oposto. Deus nos preceitua a pureza naquilo que se refere à sexualidade não porque a sexualidade seja algo torpe, mas porque precisamente ela é algo pleno de uma dignidade quase sagrada; neste sentido, nas Quaestiones Disputatae de Malo (Q. 15 a. 2), Santo Tomás de Aquino nos afirma que os preceitos sobre a castidade obrigam o homem gravemente porque a sexualidade contém o ser humano em potência e, conseqüentemente, exige por este fato uma parte daquele respeito que é exigida pela própria dignidade humana. Maior deverá ser, a se considerar por esta razão, o respeito a ser exigido pela própria dignidade humana em si mesma considerada.










(Fonte: cristianismo.org.br)

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