terça-feira, 27 de março de 2018
Pressupostos do Aprendizado 6
13. Exemplo de Santa Clara e São Bernardo diante da natureza.
Aqueles que participam da vida da Igreja já terão ouvido comentar alguma coisa a respeito das características que distinguem pelo menos algumas das escolas de espiritualidade que foram mencionadas. É conhecido o amor à pobreza que é característica dos franciscanos, a dedicação à liturgia dos beneditinos, o empenho no estudo e na pregação dos dominicanos, a importância da obediência entre os jesuítas, a vida de oração como carisma especial dos carmelitas. Vamos dar um exemplo, baseado em fatos históricos, que ilustra como um mesmo evento pode ser abordado por diversas formas de ascese sob ângulos aparentemente diversos e, no entanto, isto estar sendo feito para se alcançar precisamente um mesmo objetivo. Vamos contrastar como reagiriam, diante de uma mesma situação, um santo franciscano, um beneditino e os vitorinos.
Quando jovem, São Francisco era uma pessoa alegre e cheia de vida, apreciava a poesia e gostava muito de cantar. Após sua conversão ele não perdeu estas qualidades, mas, ao contrário, julgando que por meio delas poderia aproximar-se de Deus, censurou aqueles que o repreendiam quando o viam cantando. São Francisco, até o fim de sua vida, reproduziu em sua vida aquilo mesmo que já se lia há muito tempo em vários salmos do Antigo Testamento, louvando habitualmente a Deus pelas suas criaturas, e ensinando os seus companheiros a fazerem o mesmo. Entre seus escritos deixou-nos um Cântico ao Sol, uma das mais belas poesias de todos os tempos, na qual Deus é louvado pelo Sol e por todas as suas obras, às quais São Francisco chama de irmãos e de irmãs. Esta atitude, embora surja espontaneamente em todo autêntico cristão, pois é uma expressão daquela radiante felicidade que toma conta daqueles que vivem uma esperança já muito próxima do Céu que lhes faz ver toda a obra da criação e da graça sob o prisma de uma aprovação entusiástica, é também uma característica bastante marcante da ascese franciscana, tanto quanto também o é o espírito de pobreza. Sendo assim, é muito natural saber que encontra-se nas atas de canonização de Santa Clara, o depoimento de uma das primeiras irmãs franciscanas segundo o qual, todas as vezes que algumas irmãs tinham que ausentar-se do mosteiro, Santa Clara, como superiora, sempre lhes dirigia algumas admoestações. Nelas, porém, Santa Clara não as exortava no sentido de que tomassem cuidado com os ladrões e os salteadores, muito comuns naquela época, nem para que não se esquecessem de procurarem em tempo um abrigo quando já percebiam que se aproximava a noite. Antes, muito ao contrário, suas recomendações eram inteiramente de outra ordem. O que era verdadeiramente importante aos seus olhos, o objeto de suas verdadeiras preocupações, diz-nos este testemunho, era que as irmãs se afligissem pelo caminho com outros problemas e, por causa disso, deixassem de reparar nas árvores lindas que pudessem surgir durante o percurso:
"Quando ela nos mandava realizar
algum serviço fora do mosteiro", diz este depoimento,
"sempre nos advertia no sentido de que
quando víssemos árvores lindas,
cheias de flores e frondosas pelas sua folhagens,
nunca nos esquecêssemos de louvar a Deus".
Certamente esta é a atitude de uma alma muito pura quando se vê colocada diante do espetáculo da natureza. O que nem sempre é evidente, porém, é que, mesmo sem sair de dentro da perspectiva cristã, esta atitude não é a única logicamente possível. Vejamos, por exemplo, como São Bernardo, um beneditino quase contemporâneo de São Francisco, reagiu diante dos mesmos espetáculos da natureza.
A regra de São Bento estabeleceu, para propiciar um ambiente de oração nos mosteiros, uma prática habitual do silêncio. Algumas das disposições contidas na regra a este respeito podem hoje a alguns parecer algo fora de propósito, mas deve-se lembrar aos que assim lhes possa parecer que estas disposições sobre o silêncio não são leis colocadas como preceitos de validade absoluta, como algo que devesse ser observado por toda a sociedade, sempre e em qualquer circunstância, como os preceitos do decálogo de Moisés. O silêncio tal como é prescrito pela regra beneditina não é algo que poderia ter este alcance universal sequer na próprio época de São Bento; ele foi concebido para ser observado apenas dentro do ambiente dos mosteiros de São Bento, onde também foram criadas uma série de outras disposições que não existiam, e não existem ainda hoje, no mundo secular, as quais, em conjunto com a importância que foi atribuída ao silêncio, acabam por tornar estes mosteiros locais onde pode-se encontrar uma paz profunda e um ambiente propício à oração que o mais das vezes é em vão que se os procuram fora deles. No sexto capítulo de sua regra é assim que São Bento se refere ao silêncio:
"Façamos o que diz o profeta:
`Eu disse,
julgarei os meus caminhos
para que não peque pela língua.
Pus uma guarda à minha boca,
emudeci, humilhei-me
e calei as coisas boas'.
Salmo 38, 2-3
Aqui mostra o profeta que,
se às vezes se devem calar mesmo
as boas conversas,
por causa do silêncio,
quanto mais não deverão ser suprimidas
as más palavras?
Por isso, ainda que se trate
de conversas boas,
santas e próprias a edificar,
raramente seja concedido
aos discípulos perfeitos
licença de falar,
por causa da gravidade do silêncio.
Se é preciso pedir alguma coisa ao superior,
que se peça com toda a humildade
e submissão da reverência.
Já quanto às brincadeiras,
palavras ociosas e que provocam riso,
condenamo-las em todos os lugares
a uma eterna clausura;
para tais palavras não permitimos
ao discípulo abrir a boca".
Embora tanto São Francisco como São Bento, cada um ao seu modo, procurassem através de determinadas disposições cultivar um mesmo espírito de oração e de louvor a Deus, São Bento parte, aqui, de uma posição diversa daquela de que partia São Francisco com suas canções e sua alegria efusivamente manifestada. Como resultado destas diversas disposições iniciais temos que São Bernardo, monge beneditino, ao contrário de Santa Clara, tivesse o hábito de não reparar na natureza para que isto não o distraísse de seu recolhimento interior e do louvor de Deus. Em sua biografia encontramos escrito que certa vez, obrigado a fazer uma viagem em que era necessário fazer uma caminhada de um dia inteiro bordejando as margens do lago de Lausanne onde hoje é a Suíça, sobrevindo a noite, ao comentarem seus colegas de jornada a respeito daquele lago, um dos mais belos espetáculos do planeta, ficaram estupefatos em perceber que Bernardo não havia visto nem sabia de que lago se tratasse. Após seu primeiro ano como monge São Bernardo também não soube dizer se o teto do local onde se recolhia para dormir durante aqueles doze meses era de pedra ou de madeira, e também julgava que havia apenas uma janela na igreja onde entrava para celebrar o ofício divino diversas vezes por dia todos os dias, quando na verdade havia muitas.
14. Exemplo de Hugo de S. Vitor diante da natureza.
Vimos a atitude de Santa Clara diante da beleza de uma árvore, inspirada no exemplo de São Francisco. Examinamos a de São Bernardo, diante de um dos lagos mais belos da Terra. Com Hugo de São Vitor nos deparamos com uma terceira atitude diante da mesma situação. Embora haja pouquíssimos dados biográficos sobre Hugo de São Vitor, muitíssimo menos do que os que existem sobre Santa Clara e São Bernardo, suas obras, entretanto, por trás de uma aparente impessoalidade, são um perfeito espelho de sua alma, mais até do que o seria uma sua possível biografia. Através destes escritos podemos reconstituir, com razoável probabilidade, como Hugo se comportaria, na condição de um cristão que busca a Deus, se se visse diante de uma linda árvore ou de um belíssimo lago.
Se se encontrasse diante de um belíssimo lago, Hugo de S. Vítor provavelmente nem louvaria imediatamente a Deus, nem, porém, se negaria a contemplar o lago. Começaria provavelmente a refletir. Como é grande este lago, pensaria. Quantas gotas de água haverá nele? Pensaria em um número pelo qual poderia enumerá-las, para reconhecer em seguida tratar-se de uma tarefa humanamente impossível. No entanto, continuaria Hugo, Deus certamente conhece, em sua sabedoria, o número exato, tão claramente como o faria um homem diante de duas ou três frutas. É uma sabedoria admirável, tão mais admirável quanto mais se considera a impossibilidade humana de alcançá-la. E, no entanto, Deus não conhece apenas quantas gotas há neste lago, como também, à diferença do homem diante das três frutas, criou-as a todas, tirando-as do nada:
"Que potência não seria necessária,
quando nada existia,
para fazer com que do nada algo existisse?
Que sentido poderá compreender", escreve Hugo,
"quanta virtude não haverá
no se fazer do nada uma única coisa,
ainda que seja a mínima de todas?
Se, portanto, há tanta potência
no se fazer do nada uma só coisa,
ainda que pequena,
como não se poderá compreender
quão grande deveremos estimar a potência
que criou tamanha multidão de seres?
De que tamanho é esta multidão?
Quantos são?
O número das estrelas do céu,
a areia do mar, o pó da terra,
as gotas da chuva, as penas das aves,
as escamas dos peixes, os pelos dos animais,
a grama dos campos,
as folhas e os frutos das árvores,
e os números inumeráveis dos demais inumeráveis,
qual é a magnitude desta grandeza?
Mede a corpulência das montanhas,
o curso dos rios, o espaço dos campos,
a altura do céu, a profundidade do abismo.
Admira, pois não o és capaz;
mas justamente não o sendo capaz
é que melhor te admirarás".
Tratado dos Três Dias
Este lago, pois, consideraria Hugo de S. Vitor, é na realidade um caminho que Deus colocou diante dos homens para que eles pudessem alcançar um vislumbre da sabedoria divina. O lago é belo, diria Hugo; mais bela ainda é, porém, a sabedoria que se revela através dele. Os profetas do Velho Testamento dizem também a mesma coisa; eles haviam-se dado conta de que a natureza havia sido oferecida aos homens precisamente para isto, para abrir-lhes um caminho para a contemplação da sabedoria divina. De fato, eles nos deixaram escrito:
"Quão magníficas são as tuas obras,
ó Senhor;
mais profundos, porém,
são os teus pensamentos".
Salmo 91
De onde que os salmos nos ensinam a nos utilizarmos da magnificência das obras de Deus para termos um vislumbre da maior profundidade de seus pensamentos.
"Todo o mundo sensível", diz Hugo,
"é como um livro escrito
pelo dedo de Deus,
e cada uma de suas criaturas
são como figuras,
não imaginadas pela opinião humana,
mas instituídas pelo arbítrio divino,
para a manifestação da sabedoria
do Deus invisível.
Não há ninguém para quem
as obras de Deus não sejam admiráveis",
Tratado dos Três Dias
mas devemos saber ultrapassar nelas a beleza de suas aparências para nos remontarmos ao conhecimento da perfeição de seu Criador. Como nos será possível, de fato, amar a Deus como nos foi prescrito, com toda o nosso coração, com toda a nossa alma, com todo o nosso entendimento, com todas as nossas forças, se dEle só lhe conhecemos um nome?
"Deus, em si mesmo,
não pode ser visto;
fêz, porém, com que pudesse ser visto
pelas coisas que fêz,
pois, como diz o Apóstolo,
`as coisas invisíveis de Deus
podem ser vistas pela criatura,
pelo entendimento das coisas
que foram criadas'.
Rom. 1
Se quisermos, pois,
que Deus habite em nós
permanentemente pelo amor,
devemos construir em nós
uma casa para a sabedoria".
Tr. Três Dias/De Arca Noe
Venham, pois, ver este lago, mas não prestem demasiada atenção àquilo que apenas os olhos enxergam, pois há nele uma beleza maior que se nos revela, invisível aos olhos da carne. A figura do lago é apenas uma aparência; Deus, porém, colocou aqui toda esta água para que, através dela, os homens pudessem ter um vislumbre de Sua própria mente. Devemos, pois, saber nos aproveitar dele, pois o lago nos oferece um modo de conhecer a Deus, e só podemos amar aquilo que, de alguma forma, o conhecermos.
"Gostaria de discernir estas coisas
com tanta delicadeza
para poder narrá-las"
a todos os homens,
diz ainda Hugo no Tratado dos Três Dias; infelizmente, porém, aqueles que passam por aqui olham para o lago e não vêem mais do que água. É possível que amem a Deus desta maneira? Pois, agindo deste modo, parece que, efetivamente, não o conhecem.
15. Comparação entre as diversas formas de espiritualidade.
Acabamos de examinar um exemplo sobre a diversidade das atitudes que diferentes formas de se ordenar a ascese cristã podem manifestar diante de uma mesma situação. Deparando-se com a beleza da criação, Santa Clara, São Bernardo e Hugo de São Vítor tomam posições diversas que dependem, em última análise, do modo como foi concebida a orientação de sua ascese em direção à contemplação, pela qual o homem, através do exercício das virtudes teologais, se une, tanto quanto lhe é possível neste mundo, a Deus Criador e Redentor. Os exemplos poderiam multiplicar-se tanto nos fatos como nas possibilidades, pois, conforme afirma Pio XII,
"assim como na Igreja celeste
há muitas moradas,
assim também na Igreja terrestre
a ascética não é monopólio de ninguém".
No entanto, mesmo diante desta sentença de Pio XII, a consideração dos três exemplos que foram apresentados levará alguns a se perguntarem se, examinados mais atentamente, não seria um deles, ou algum outro, um caminho mais correto e por isto talvez mais preferível do que os demais.
Supomos que a resposta a esta pergunta só poderia ser dada com honestidade subdividindo-a em dois aspectos. Do ponto de vista especulativo, quer nos parecer que a posição de Hugo de São Vitor é mais correta, por se aproximar mais do conjunto dos ensinamentos do Novo Testamento. De fato, o Novo Testamento, e nele, principalmente Jesus e São Paulo, apontam de modo indiscutível que a caridade, o amor sobrenatural por Deus acima de todas as coisas, uma virtude cuja sede é a vontade, não só é a maior de todas as virtudes como também é aquela sem a qual a posse de todas as outras, inclusive a fé, seria inútil. No entanto, apesar de afirmações tão claras neste sentido, o Novo Testamento fala e exorta com muito mais freqüência à virtude da fé, cuja sede é a inteligência, do que ao amor, como se quisesse, pelo número de referências, contrabalançar a atenção que deve ser dada efetivamente a ambas estas virtudes. Neste sentido, do ponto de vista especulativo, por se aproximar mais da própria posição do texto sagrado, Hugo de São Vítor parece situar-se mais corretamente.
Do ponto de vista prático, porém, a situação é inteiramente diversa, como pode reconhecer-se através dos próprios textos de Hugo de São Vitor, pois ele mesmo diz que possuímos a Deus pelo amor, e que, portanto, do ponto de vista prático não importa o caminho trilhado desde que, através dele, o homem efetivamente alcance o amor de Deus. Diz, de fato, Hugo de São Vitor no segundo livro dos Mistérios da Fé Cristã:
"A Escritura nos manifesta
o quanto devemos amar
o nosso bem que é Deus.
Não preceituou apenas que o amássemos,
ou que amássemos apenas a Deus,
mas que o amássemos o quanto pudéssemos.
A tua possibilidade será a tua medida;
quanto mais o amares, mais o terás".
Toda forma de ascese legítima conduz, efetivamente, a uma profunda vivência do primeiro e maior de todos os mandamentos, caso contrário não seria uma forma autêntica de espiritualidade, e o grau de perfeição com que ela o faz não depende somente, e muitas vezes depende apenas secundariamente, de sua maior ou menor correção examinada do ponto de vista especulativo. Além da própria soberana liberdade de que Deus se utiliza ao conceder-nos a sua graça, muitos outros fatores, psicológicos, culturais, circunstanciais e inclusive espirituais, não apenas do indivíduo como também do meio onde ele vive, podem estar envolvidos em cada caso individual. De onde que deve considerar-se bem aventurado o homem que tiver podido encontrar aberta para si qualquer via concreta pela qual ele pode deparar-se com uma possibilidade real de alcançar uma vivência profunda do mandamento da caridade, pois virá a possuir a Deus apenas pelo amor que efetivamente tiver vivido, independentemente do grau de perfeição especulativa do caminho que o tiver conduzido até aí.
16. Motivação para uma determinada forma de ascese.
Deve-se dizer também que o fato de que todas as formas legítimas de ascese conduzem a um mesmo fim não significa que a escolha entre elas possa ser reduzida a uma questão de simples preferência pessoal. Ao contrário, razões de caráter mais elevado, motivadas pela própria virtude da caridade, deveriam orientar a escolha. Todas as formas de ascese, efetivamente, possuem, por si mesmas ou pelo contexto em que se encontram inseridas, peculiaridades secundárias mas importantes que as fazem diferir entre si e que, conforme as circunstâncias, podem ser avaliadas de modo diverso por aqueles que são movidos, em suas decisões, pela caridade.
No caso que é o objeto de consideração particular destas notas, aquela forma de vida espiritual delineada principalmente por Hugo e Ricardo de São Vitor a que se chamou de escola vitorina, e que nos parece ser muito claro que tenha sido seguida também fora dela em seus traços essenciais por outros santos da Igreja como Santo Tomás de Aquino entre os dominicanos e Santo Antônio de Pádua entre os franciscanos, ela faz, dentre outras coisas, do estudo, orientado segundo uma determinada pedagogia, uma forma de ascese. Uma razão motivada pela caridade para abraçar esta forma de vida não seria a inclinação pessoal pelo estudo, mas a aptidão especial que tal forma de vida confere para a prática do mandamento que Cristo tão insistentemente recomendou a seus discípulos, a de que ensinassem tudo aquilo que Ele lhes havia ensinado. Do bem que isto pode resultar são exemplo tanto o próprio Hugo de São Vitor como Santo Tomás de Aquino, cuja influência benéfica na história da Igreja é impossível de ser avaliada nas curtas páginas destas notas e que, ao que tudo indica, está ainda muito longe de terminar.
(Fonte: cristianismo.org.br)
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